O blackface na Alesp e os sítios arqueológicos da Amazônia sob ameaça
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🔸Em meio às negociações para um acordo de delação premiada, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi transferido ontem do Presídio Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal. A decisão foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido da defesa. O Metrópoles apurou que o banqueiro sinalizou disposição para colaborar com as autoridades, oferecendo informações consideradas relevantes para o avanço do inquérito. A transferência para a Superintendência da PF é vista como um movimento estratégico – lá, ele ficará mais perto das equipes responsáveis pela investigação. Vorcaro está preso desde o início de março, investigado por suspeitas de crimes financeiros, pagamentos indevidos a agentes públicos e pela montagem de uma estrutura paralela de monitoramento descrita como “milícia privada”.
🔸 No acordo, o delator não pode escolher o que revelar: precisa apresentar tudo o que sabe sobre o caso. O Nexo mostra como Vorcaro pode colaborar no contexto das investigações do Banco Master. Há cinco assuntos centrais: informações sobre fundos de previdência, articulações com parlamentares, negociações com o Banco de Brasília (BRB), infiltração no Banco Central do Brasil e relações com ministros do Supremo. A delação de Vorcaro pode ampliar o alcance da investigação ao trazer novos nomes e conexões ainda não totalmente esclarecidos.
🔸 A deputada Fabiana Bolsonaro (PL), que fez blackface na Assembleia Legislativa de São Paulo, concorreu às eleições como parda, e não como branca, como afirmou em seu discurso na tribuna. Nesta semana, ela se pintou com maquiagem escura em protesto contra a eleição de Erika Hilton (PSOL-SP) para a Comissão da Mulher da Câmara. Afirmou: “Eu sou uma mulher branca, eu tive os privilégios de uma pessoa branca em todo o decorrer da minha vida”. No registro do Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2022, porém, ela se autodeclarou parda. O Congresso em Foco destaca que, ao se declarar como pardo, o candidato passa a contar para o cumprimento das cotas raciais de seu partido no acesso ao Fundo Eleitoral. Fabiana, aliás, mudou a autodeclaração que havia feito em outra eleição: em 2020, durante a campanha para vice-prefeita de Barrinha (SP), ela havia se declarado branca.
🔸 A propósito: o Conselho de Ética da Alesp vai analisar um pedido de cassação de Fabiana Bolsonaro. A representação, assinada por 18 parlamentares de partidos como PT, PSOL e PCdoB, sustenta que sua conduta configura racismo, transfobia e quebra de decoro parlamentar. O Notícia Preta informa que, para os autores do pedido, o uso do blackface no plenário representa uma violência simbólica contra a população negra e que as declarações sobre pessoas trans reforçam estigmas e deslegitimam a participação desse grupo na sociedade. A Alesp, porém, destacou que a inviolabilidade dos deputados por suas palavras e opiniões é uma garantia constitucional, voltada a assegurar a liberdade no exercício do mandato.
🔸 Surgido no século 19 na Europa e nos Estados Unidos, o blackface se aproveitava da ausência de pessoas negras em papéis de destaque – e em outras posições sociais – para que artistas brancos ocupassem esses espaços, representando personagens negros de forma ridicularizada e zombando da cultura afrodiaspórica. A Alma Preta explica que, nos EUA, a prática era uma forma de usar as lutas por direitos civis da população negra como forma de entretenimento para a audiência branca. O blackface ajudou a consolidar estereótipos racistas e a legitimar a inferiorização sistemática da população negra. No Brasil, também foi incorporado à dramaturgia e ao humor, mas, ainda nos anos 1940, passou a ser contestado sobretudo pelo Teatro Experimental do Negro. Em tempo: embora hoje seja amplamente rejeitado, o blackface não tem tipificação específica na lei, mas pode ser enquadrado na Lei do Racismo.
📮 Outras histórias
O rendendê, bordado tradicional de Entremontes, em Piranhas (AL), atravessou gerações até alcançar a São Paulo Fashion Week no ano passado. A técnica dispensa marcações no tecido e se baseia na contagem precisa dos fios. O desenho surge do próprio desfiar, revelando-se aos poucos conforme a agulha reconstrói a trama. Bordadeiras dessa arte se reuniram em 2002, lideradas por dona Maria Nogueira, e fundaram a Associação EntreArtes – que impulsionou o bordado às passarelas de moda. A Revista Alagoana conta que a arte do rendendê foi transmitida de mãe para filha, num contexto de seca e fome. “O emprego que tinha era o bastidor, a agulha e o tecido”, lembra dona Fátima, filha de Maria, que aprendeu a bordar ainda criança. A tradição também chegou à nova geração com Miguel, filho de Fátima, que ainda enfrentou o estigma de ser homem em um ofício historicamente feminino. Hoje, ele contribui para reinventar a técnica, expandindo seu uso para o vestuário e o design contemporâneo. Em 2025, o bordado rendeu à EntreArtes uma indicação ao FFW Brasil Awards.
📌 Investigação
O bloco de exploração de gás AM-T-85, da Eneva, está sobreposto a três sítios arqueológicos em Silves (AM) – Passarinho, São Tomé Açu e Outeiro. Essas áreas são consideradas bens pré-colonias, que guardam evidências físicas de ocupação humana antes da invasão portuguesa, e são peças-chave para a compreensão da história antiga da Amazônia. A InfoAmazonia revela que, entre as condicionantes da licença de instalação concedida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), está a obrigação de interrupção imediata das atividades em caso de identificação de vestígios arqueológicos. A primeira autorização, porém, foi concedida à empresa de energia em 2024, e os sítios já haviam sido registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) entre 2022 e 2023. Neste ano, a licença foi renovada pela terceira vez – em meio a uma investigação do Ministério Público do Amazonas sobre o assoreamento do igarapé Maricota, em Itapiranga, e a uma decisão judicial que determinou a paralisação da extração de gás em um bloco vizinho, sobreposto ao território indígena Gavião Real.
🍂 Meio ambiente
Estudo usado por associações do agronegócio do Mato Grosso no processo de julgamento do marco temporal no Supremo Tribunal Federal para reforçar os argumentos favoráveis à tese não tem base científica: não informa autoria e metodologia, além de não passar por revisão de pares e ter dados que não podem ser verificados. A Repórter Brasil ouviu especialistas que explicam por que o material apresenta falhas que comprometem sua credibilidade e como essa é uma estratégia comum dos ruralistas para influenciar o debate público. “Apresentam PDFs com aparência técnica, dados que não podem ser auditados e sem revisão por pares. Isso é consultoria de agro disfarçada de instituição séria. Não é ciência, é lobby”, afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.
📙 Cultura
“A arte drag muitas vezes é vista como entretenimento descartável, e não como linguagem artística legítima. Quando falamos de Nordeste, essa marginalização se intensifica. Faltam políticas culturais específicas, investimento contínuo, editais que compreendam nossa linguagem e circuitos regionais consolidados”, afirma Lea Farsaid, uma das fundadoras do Phenomena Drag, plataforma criada por artistas de Recife para valorizar, profissionalizar e conectar a arte drag em Pernambuco. Em entrevista à Revista O Grito!, a artista fala sobre a criação da iniciativa e a importância de se estabelecer na rotina cultural das cidades. “É sobre legitimação e memória. Quando ocupamos espaços históricos da vida LGBTQIAP+ da cidade com um projeto cultural estruturado, estamos afirmando que drag é arte, é produção cultural e é patrimônio vivo.”
🎧 Podcast
Por volta dos 6 anos, João Fonseca foi ao Planetário do Ibirapuera, em São Paulo, pela primeira vez e ficou fascinado pelo céu. Mais tarde, ele se especializou em Astronomia e foi contratado pela prefeitura para trabalhar nos planetários da cidade. Em 2021, assumiu a diretoria do Planetário Ibirapuera. Mas foi dois anos depois que viveu uma das memórias mais intensas no espaço: fã da cantora Rita Lee, ele foi responsável por organizar a cerimônia do velório — o desejo da artista era de que fosse no planetário. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, narra como os caminhos de João e Rita se cruzaram por meio do fascínio de ambos pelo céu e da conexão com o lugar da zona sul de São Paulo.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Embora as redes sociais sejam apontadas como vilãs do bem-estar dos jovens, o sentimento de pertencimento tem impacto de quatro a seis vezes maior na manutenção da saúde mental do que a redução do uso de tecnologia. A erosão das relações humanas está mais atrelada à felicidade do que os algoritmos. A Fast Company Brasil analisa os dados do World Happiness Report 2026, pesquisa da Universidade de Oxford que avalia os graus de bem-estar em diversos países. O relatório mostra que o jovem ocidental está menos feliz do que há 15 anos, mais ansioso e cada vez mais sozinho. A felicidade está associada a suporte social, liberdade percebida, confiança e qualidade das relações. A América Latina aparece no estudo com níveis altos de bem-estar mesmo com uso intenso de tecnologia. Um dos motivos pode ser a resistência dos vínculos sociais, redes de apoio e cultura de encontro real frente à digitalização total da vida.
Correção: Diferentemente do que foi informado na edição de quarta-feira (18), o povoado de Terra Caída usa banners para lembrar o Dia de São José há três anos, e a novena para o santo tem início em 10 de março.




