Um projeto de lei para frear o Ibama e a investida evangélica no esporte
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🔸A médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, foi morta durante uma operação policial em Cascadura, na zona norte do Rio de Janeiro, no último domingo. Ela foi atingida por tiros de fuzil dentro do próprio carro quando voltava da casa dos pais. A Alma Preta informa que, segundo testemunhas, os policiais teriam confundido o veículo da médica com o de criminosos. Com quase 30 anos de atuação, a ginecologista, oncologista e cirurgiã-geral era reconhecida pelo trabalho de excelência. “Até quando a ausência de políticas de segurança produzirão cenas como essa? Até quando vamos perder pessoas negras pela violência?”, escreveu a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, nas redes sociais. O Instituto Nacional do Câncer (INCA), onde a médica atuava havia 26 anos, lamentou a morte e enfatizou o compromisso de Andréa com o cuidado integral dos pacientes. O Ministério da Saúde, em nota, destacou a contribuição da profissional para o cuidado humanizado de pessoas com câncer no Sistema Único de Saúde (SUS).
🔸 No mesmo dia em que Andréia foi morta pela polícia, a nova Força de Segurança do Rio, uma guarda municipal armada, foi alocada no Jardim de Alah, entre Ipanema e Leblon, bairros nobres da zona sul da capital. O Instituto Fogo Cruzado contrapõe os dois cenários para expor a desigualdade na segurança pública do Rio: de um lado, Cascadura, no subúrbio carioca, tem uma mulher negra morta pela polícia; do outro, o Leblon, um dos metros quadrados mais caros do país, ganha uma polícia descrita pela prefeitura como uma tropa de elite, com agentes armados, câmeras corporais e salários de R$ 13 mil. “Será que Andréa teria sido atingida se seus pais morassem no Jardim de Alah, no Leblon? Ou se fosse uma pessoa branca?”, questiona o instituto.
🔸 Falando em “segurança”... o Ministério Público de Santa Catarina recomendou a suspensão do “ICE de Floripa”, como ficou conhecido o programa de voluntários de segurança em Florianópolis. O órgão identificou indícios de que os participantes do projeto exercem funções típicas de policiamento, o que seria inconstitucional. A recomendação foi motivada depois que a Ponte flagrou e expôs abordagens consideradas intimidatórias, como ameaças a pessoas em situação de rua e tentativas de impedir moradores de acessar suas casas. O MP aponta ainda outras irregularidades, como a criação de funções operacionais sem concurso público e possível invasão de competência da União. O órgão deu 48 horas para resposta e não descarta medidas judiciais, como uma ação direta de inconstitucionalidade. A prefeitura, por sua vez, afirma que não pretende suspender o programa e nega irregularidades.
🔸 A Câmara dos Deputados aprovou a urgência de um PL para barrar operações do Ibama contra o desmatamento. De autoria de Lucio Mosquini (MDB-RO), o projeto de lei quer proibir embargos ambientais baseados exclusivamente em monitoramento remoto, como imagens de satélite – nova estratégia do Ibama que tem permitido ampliar a fiscalização em escala inédita no país. O Conexão Planeta explica que, na prática, o projeto é uma tentativa do Congresso de impedir as operações exitosas do órgão ambiental. A proposta pretende exigir notificação antes de sanções e impedir medidas cautelares imediatas, o que, segundo críticos, abre espaço para a continuidade do desmatamento ilegal enquanto os casos são contestados.
📮 Outras histórias
No povoado de Terra Caída, em Sergipe, a celebração de São José mobiliza a comunidade de cerca de mil habitantes. Lá, há 60 anos, os moradores transformam a paisagem com imagens do santo, afixadas em postes pelo balneário já no dia 9 de março, quando tem início a novena. O Meus Sertões recupera as raízes históricas da popularidade de São José – associado ao trabalhador, provedor e protetor da família – no Nordeste. A devoção se conecta à sobrevivência no Semiárido: a crença de que a chuva em 19 de março, dia do santo, indica um bom inverno e garante a safra, especialmente do milho, essencial para a economia rural e para as festas juninas. A reportagem narra ainda como os chamados “profetas da chuva” observam os sinais da natureza, como o comportamento de insetos, aves e plantas, para prever o regime de chuva.
📌 Investigação
Na Amazônia, fazendeiros dividem as propriedades artificialmente para fraudar leis ambientais. Todo imóvel rural naquela região deve manter a vegetação nativa em ao menos 80% de sua área, a menos que seja menor do que quatro módulos fiscais (uma unidade agrária que varia entre municípios). Nesses casos, os proprietários só precisam manter de pé as áreas de floresta que estavam preservadas até 2008 e ficam desobrigados de recuperar a mata que foi derrubada antes disso. A revista piauí revela que cinco fazendas vizinhas em Dom Eliseu, no leste do Pará, na verdade, são uma só – e coincidentemente nenhuma ultrapassa os quatro módulos fiscais do município. O caso é apenas um entre 5.467 imóveis rurais em que os pesquisadores do Instituto Dados encontraram indícios de fragmentação artificial. De acordo com um estudo obtido pela reportagem, ao menos 241 mil hectares deixaram de ser preservados com as manobras.
🍂 Meio ambiente
Há cerca de um mês mulheres indígenas do Médio Xingu ocupam o prédio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em Altamira (PA). O protesto exige a nomeação imediata de um coordenador indígena para a unidade local, cargo vago desde fevereiro, e a suspensão definitiva do projeto da Belo Sun, mineradora canadense que planeja se instalar na Volta Grande do Xingu. Em entrevista à Carta Amazônia, Pyja Xipaya, liderança das Mulheres Indígenas do Médio Xingu, explica que as comunidades têm medo de que o projeto de mineração na região cause “contaminação dos peixes, das caças, do rio, contaminação do solo, medo de trazer mais desmatamento, garimpagem de terra e invasões de áreas indígenas”. “Não aceitamos Belo Sun, não aceitamos a morte do nosso rio Xingu, não aceitamos esse empreendimento na nossa região do Médio Xingu”, afirma.
📙 Cultura
“As escolas de samba estão imbuídas da nossa história. É um grande orgulho quando tu estás ali dentro. Tu conta a tua própria história, tu busca o próprio momento político, tu demonstra a tua insatisfação e usa as tuas artimanhas”, afirma Maria Elaine Rodrigues Espíndola, a Mestre Elaine. Mulher negra, quilombola, matriarca, professora e artista plástica, ela foi a primeira mestra griô a ser condecorada pela cidade de Porto Alegre, em 2010, e é reconhecida por ser a guardiã das memórias do Carnaval e da cultura afro-gaúcha. “Sou uma mulher de Carnaval, a minha família foi e meus filhos continuam sendo”, diz. O Nonada narra a trajetória de Mestra Elaine, que, aos 78, continua ativa e passa seus saberes às novas gerações do Quilombo Mocambo, na região central da capital gaúcha.
🎧 Podcast
A teologia do domínio ou das sete montanhas propõe que o cristianismo deve ocupar todas as esferas da sociedade – e é um dos pilares da investida evangélica no esporte, considerada uma área estratégica. Atletas evangélicos veem suas carreiras vitoriosas como um chamado ou propósito divino. O “Discípulos”, produção da Rádio Guarda-Chuva, explica como essa linha teológica incentiva que os jovens cristãos mirem o “topo da montanha” do esporte para que sua visibilidade seja para dar “glória a Deus”, influenciando a cultura e demarcando a presença da religião em um território antes considerado secular.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Com apoio limitado do poder público e dificuldades para manter portas abertas, as casas de acolhimento garantem proteção e direitos para pessoas trans em situação de vulnerabilidade. É o caso da Casa Florescer, no bairro do Bom Retiro, no Centro de São Paulo, que conta com apoio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social e da colaboração de instituições e pessoas físicas que fortalecem as ações. A casa tem estrutura com dormitórios, espaço para pessoas com deficiência, áreas de convivência e atendimento. Não tem tempo fixo de permanência e oferece acompanhamento focado no desenvolvimento pessoal. Segundo a Periferia em Movimento, atualmente há apenas seis serviços de acolhida integrados à rede da secretaria, com 350 vagas, e as unidades estão concentradas na região central da cidade. Não há previsão de ampliação de vagas ou criação de novos programas.




