A visita de Flávio Bolsonaro a Vorcaro e a 'seleção brasileira das bets'
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🔸O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) visitou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no fim de 2025, logo após a primeira prisão do empresário pela Polícia Federal. O Metrópoles revela que o encontro aconteceu na casa de Vorcaro, em São Paulo, quando ele já estava em liberdade, mas sob restrições judiciais, como o uso de tornozeleira eletrônica. O próprio senador admitiu a visita a aliados e afirmou que foi ao local para informar que não manteria mais negócios com o banqueiro após a prisão. “Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investido há muito mais tempo e o filme não correria risco”, afirmou o senador. Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, ao tentar embarcar para o exterior, e voltou à prisão em março deste ano por ordem do ministro André Mendonça, sob suspeita de interferir nas investigações.
🔸 Flávio Bolsonaro despencou na primeira pesquisa eleitoral depois da divulgação dos áudios entre ele e Vorcaro. O levantamento da AtlasIntel começou no dia 13 de maio, mesmo dia em que o Intercept Brasil revelou as mensagens entre o presidenciável e o banqueiro. A CartaCapital detalha a pesquisa e mostra que Flávio caiu para 34,3% no primeiro turno. Já o presidente Lula (PT) aparece com 47%, ampliando a vantagem sobre o senador para quase 13 pontos. O filho de Jair Bolsonaro (PL) voltou a patamares semelhantes aos registrados em janeiro, enquanto Lula manteve estabilidade. No segundo turno, o presidente aparece com 48,9% contra 41,8% de Flávio, encerrando o empate técnico observado nos meses anteriores.
🔸 A propósito: a equipe do candidato tenta suspender a divulgação da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A coordenação jurídica da pré-campanha de Flávio argumenta que o questionário da AtlasIntel teria sido estruturado para induzir respostas negativas sobre o senador. O Terra explica que, além do questionário eleitoral principal, o instituto aplicou um teste separado em que alguns entrevistados ouviam os áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Vorcaro para medir a reação do eleitorado ao conteúdo. A defesa do senador alegou que isso teria influenciado negativamente as respostas. A AtlasIntel informou que o teste foi feito apenas depois do envio definitivo do questionário principal, sem possibilidade de alterar os resultados eleitorais.
🔸 O trailer de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro, vazou nas redes sociais cinco dias antes da data prevista para divulgação oficial. O vídeo havia sido exibido em um encontro fechado das bancadas do PL e, após o vazamento, foi publicado por Flávio Bolsonaro, que chamou a produção de “o filme mais aguardado do ano”. O Congresso em Foco mostra o trailer e lembra que o roteiro, escrito em inglês pelos cineastas Cyrus e Mark Nowrasteh, descreve Bolsonaro como um “dark horse candidate” – ou “candidato azarão”. O lançamento do filme está previsto para 11 de setembro, data dos oito anos da facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha de 2018.
🔸 Falando no filme… O deputado federal Mario Frias (PL-SP) mandou áudio a Vorcaro agradecendo pelo apoio ao longa. O envio foi feito menos de uma hora após um encontro previsto entre Flávio e o banqueiro. O Intercept Brasil obteve a gravação na qual Frias afirma que o filme sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita gente”. As mensagens desmontam a versão pública de Frias, que havia negado participação financeira do banqueiro na produção. Em conversas posteriores, o deputado compartilha negociações com o diretor americano Cyrus Nowrasteh e menciona o ator Jim Caviezel, escolhido para interpretar Bolsonaro. Frias tratava o projeto em tom religioso e político, dizendo que o filme seria “o grande milagre”, uma “questão de justiça divina” e teria papel “histórico” para futuras gerações. Em uma das mensagens, escreveu para Vorcaro: “2026 é do Brasil” e “Deus te abençoe, meu brother”.
📮 Outras histórias
O avanço da apicultura vem transformando a vida de pequenos produtores em Alagoas. O apicultor Ailton José da Silva, conhecido como “Ailton do Mel”, saiu de uma produção inicial de cerca de 10 kg para meia tonelada de mel após investir em equipamentos, formalizar o negócio como MEI e acessar crédito do Banco do Nordeste. Hoje, ele busca certificação sanitária para vender em supermercados e sonha em exportar o produto. A trajetória dele não é um caso isolado. A Agência Tatu explica que os investimentos do programa de microcrédito rural Agroamigo na apicultura nordestina cresceram 327% entre 2022 e 2025 – e Alagoas liderou o avanço proporcional, com alta de 931%. Segundo dados do IBGE, a produção de mel no estado aumentou 44% entre 2020 e 2024.
📌 Investigação
Dos 26 convocados para a Copa do Mundo 2026, nove atuam em times que têm casas de apostas como patrocinadora master, revela levantamento da Agência Pública. Embora a maior parte deles jogue no Brasil, os jogadores de campeonatos internacionais não escapam da tendência, caso dos clubes de Igor Thiago (Brentford), de Rayan (Bournemouth) e Wesley (Roma). Se considerados os times que possuem bets como patrocinadoras secundárias, mas que ainda aparecem nas camisas, a lista aumenta para 12 dos 26 convocados. Nos últimos anos, as casas de apostas se tornaram presença onipresente no futebol e, além de patrocinar jogadores individualmente, também passaram a estar por trás de times e de campeonatos inteiros. Pouco antes da convocação de Carlo Ancelotti, a Fifa anunciou a Betanto, marca da Kaizen que também patrocina o Flamengo, como parceira oficial. Na edição do Qatar, em 2022, ela já havia sido uma patrocinadora regional para a Europa.
🍂 Meio ambiente
As mudanças climáticas também vão entrar em campo na Copa do Mundo. Um grupo de cientistas e especialistas em saúde, clima e performance esportiva enviaram uma carta aberta à Fifa para alertar sobre os efeitos do clima na saúde de atletas e torcedores. Eles também pedem que o próprio calendário seja reconsiderado em futuras edições, realizando a competição em períodos do ano menos quentes. O Reset conta que o documento se baseia em uma análise da World Weather Attribution (WWA), grupo de pesquisa que avalia o impacto das mudanças climáticas em eventos extremos. Os pesquisadores combinaram temperatura, umidade, velocidade do vento e radiação solar para medir o estresse térmico real sobre o corpo nos 16 estádios deste ano e revelaram que o risco de condições extremas quase dobrou desde a última Copa do Mundo realizada na América do Norte, em 1994.
📙 Cultura
Preservar a memória coletiva de Danças de Quilombo em Alagoas. Este é o objetivo de um projeto inédito da pesquisadora Allexandrëa Constantino, que pretende investigar o bairro de Bebedouro, em Maceió. Lá, lembranças e histórias foram apagadas por processos históricos de violência contra a população negra e por episódios recentes, como o afundamento do solo, resultado da exploração de sal-gema pela Braskem. A Revista Alagoana destaca que o bairro era o único território das Danças de Quilombo em Maceió, mas houve criminalização das práticas, perseguição e prisão de participantes, segundo jornais da época. Recentemente, moradores foram removidos do bairro pelo desastre ambiental. “Com o deslocamento da população e o envelhecimento ou desaparecimento de mestres e mestras, parte dessa memória foi perdida. Assim, o projeto propõe pesquisar, levantar, organizar e catalogar essas histórias como forma de salvaguardar e patrimonializar esses registros”, afirma Constantino.
🎧 Podcast
Figura central do feminismo brasileiro, a socióloga Eva Blay foi responsável por estudos pioneiros de gênero na Universidade de São Paulo (USP) a partir da metade dos anos 1960. Filha de imigrantes poloneses, ela decidiu lutar pela democracia e pelos direitos das mulheres na ditadura. Na década de 1980, foi a primeira presidente do Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de São Paulo. Para ela, essa era uma ponte entre as demandas populares e o poder público: “Nós sabíamos exatamente como na sociedade havia machismo, havia patriarcado. Fizemos um projeto e distribuímos para todos os candidatos dizendo que entre o Estado e a sociedade tem que existir um setor intermediário”. No “Escute As Mais Velhas”, produção da Rádio Novelo, Blay revisita sua trajetória e relembra as conquistas feministas no Brasil, como a luta como senadora para pautar temas como o aborto e o planejamento familiar no Congresso.
👩🏽💻 Tecnologia
Subvertendo a lógica das big techs, projetos comunitários partem dos saberes ancestrais para transformar códigos, dados e softwares em instrumentos para a defesa de modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais. O Nonada narra o caso da Arandu, inteligência artificial desenvolvida por mulheres indígenas, que não foi treinada por robôs, mas por memórias locais, diálogos coletivos e saberes vinculados à natureza e ao território. Para Júlia Tainá, da etnia Manchineri, a partir da ferramenta, a expansão da rede e a presença digital não significam uma nova invasão ou roubo predatório de dados. Nela, mulheres indígenas de diferentes povos resguardam suas culturas e fortalecem redes de empreendedorismo. “É o passado e o futuro caminhando juntos. Estamos usando as tecnologias do nosso futuro para dar voz à ancestralidade que nos trouxe até aqui, de uma forma ética e responsável com os nossos territórios”, afirma Júlia.




