Os vencedores do Carnaval e o 'troca-troca' de onças em criadouros do país
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🔸A Viradouro conquistou o título do Carnaval carioca de 2026 com o enredo “Pra Cima, Ciça!”, homenagem em vida a Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, de 69 anos, comandante da bateria. A escola somou 270 pontos, apenas um décimo à frente da Beija-Flor. Vila Isabel conquistou a terceira posição, e Salgueiro terminou em quarto lugar. O A Seguir Niterói detalha o desfile da Viradouro, que narrou a história de Mestre Ciça, referência do Carnaval, com 65 anos de história na festa. Nascido no Estácio, berço do samba, ele foi passista, mestre-sala e ritmista em escolas como Estácio de Sá, Unidos da Tijuca e Grande Rio, antes de se consagrar mestre de bateria. Com 2.500 componentes, 23 alas e seis carros alegóricos, a apresentação teve como ápice o encerramento: mais de 300 ritmistas subiram uma passarela para desfilar sobre um carro alegórico, regidos pelo próprio Ciça. A homenagem em vida foi também uma mensagem do samba-enredo: não esperar a saudade para celebrar seus mestres.
🔸 Em São Paulo, a Mocidade Alegre saiu vitoriosa com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, dedicado à atriz Léa Garcia, que morreu em 2023 aos 90 anos. A escola do Limão, zona norte da capital paulista, conquistou seu 13º título do Grupo Especial, liderou quase toda a apuração no Anhembi e se aproximou do recorde histórico da Vai-Vai. A Alma Preta destaca que o desfile combinou biografia e símbolos visuais para narrar o protagonismo negro da artista. As alegorias passaram por momentos marcantes da carreira da atriz, do Teatro Experimental do Negro às premiações internacionais. Pioneira do teatro, cinema e televisão brasileiros, Léa tornou-se um ícone internacional e a “vilã mais vista do mundo” em “Escrava Isaura”.
🔸 Na “série B” do Carnaval carioca, trabalhadores enfrentam condições precárias, jornadas exaustivas, atrasos salariais e falta de segurança nos barracões onde produzem fantasias e alegorias. A Repórter Brasil revela que a insalubridade é uma marca das escolas do grupo de acesso do carnaval carioca. Sem contratos formais e com orçamento muito inferior ao do Grupo Especial, os profissionais chegam a trabalhar mais de 16 horas por dia e, em alguns casos, dormem nos próprios galpões, sem água potável, ventilação ou equipamentos de proteção. A precariedade está ligada ao atraso e à incerteza de repasses públicos: se o Grupo Especial recebeu R$ 77,8 milhões em 2026, a Série Ouro dividiu R$ 14,8 milhões entre 15 escolas e ainda aguardava contratos estaduais.
🔸 O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio gerou questionamentos sobre propaganda eleitoral antecipada. A escola contou a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – e provocou reação de partidos de oposição, que anunciaram ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte, por sua vez, permitiu o desfile. O Nexo explica se a homenagem pode ser considerada propaganda e lembra que a lei proíbe apenas o pedido explícito de voto antes de agosto do ano eleitoral. Especialistas apontam que o tribunal avaliará o “conjunto da obra” e pode reconhecer propaganda antecipada, mas sem indícios claros de inelegibilidade.
🔸 Falando nisso… o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou o TSE contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-ministro do Turismo, Gilson Machado, por suposta propaganda eleitoral antecipada. A ação pede a retirada de um vídeo em que Machado distribui adesivos com a frase “o Nordeste está com Flávio Bolsonaro 2026” e afirma que vai “eleger o homem, nosso presidente”. Segundo o Congresso em Foco, Lindbergh argumenta haver elementos típicos de campanha – identificação do candidato, referência ao pleito e manifestação explícita de apoio –, além de possível abuso de poder político pelo alcance de um ex-ministro.
📮 Outras histórias
Separados por 350 quilômetros, dois cortejos de Carnaval na Amazônia paraense rendem homenagem à floresta. Na Vila de Juaba, distrito de Cametá, no Baixo Tocantins, o Cordão da Bicharada reúne há 50 anos foliões fantasiados de animais para alertar sobre o desmatamento e a sobrevivência da fauna; já em Curuçá, na Região do Salgado Paraense, o Pretinhos do Mangue leva às ruas pessoas cobertas de lama para defender a preservação dos manguezais. A Carta Amazônia conta que ambos nasceram de experiências locais: o primeiro inspirado na observação das dificuldades dos animais diante da devastação da floresta, e o segundo depois de moradores não encontrarem caranguejos no manguezal, que faz parte da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá. “Sem os manguezais e sem as florestas não existe alimento, não existe vida, não existe carnaval, não existe planeta”, diz o professor César Tenório, brincante do bloco há mais de duas décadas.
📌 Investigação
Com a volta do vírus Nipah aos noticiários, vídeos de médicos com até três milhões de visualizações no Facebook espalham recomendações sem comprovação científica para a prevenção da doença, como uso de ivermectina, vitaminas e água hidrogenada. A Agência Lupa identificou quatro perfis que se identificam como profissionais de saúde e compartilham essas recomendações, questionam vacinas e distorcem informações sobre o vírus. Em um vídeo com mais de 1,2 milhão de visualizações, o médico Davi Rodrigues, registrado no Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, afirma ainda que “a ivermectina bloqueia certos receptores onde o vírus entra na célula”. Não existem evidências de que o medicamento atue na entrada viral.
🍂 Meio ambiente
Espécies mantidas fora de seu habitat natural (ex-situ) são constantemente realocadas para diferentes criadouros ou zoológico. O objetivo é garantir que se tenha uma população de segurança da espécie em cativeiro, classificada como vulnerável à extinção. Um dos programas de conservação do tipo é direcionado às onças-pintadas: atualmente há 108 delas cadastradas no programa ex-situ do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), das quais 52 nasceram em cativeiro e 56 vieram de resgates. O Conexão Planeta explica como são definidas as realocações, considerando fatores geográficos e variabilidade genética. “As populações de cativeiro precisam ser muito bem manejadas, mantendo os cruzamentos respeitando a origem geográfica dos animais, preferencialmente tendo pareamentos somente entre animais do mesmo bioma. Também é imprescindível não termos cruzamentos entre animais com parentesco”, afirma a analista ambiental Rose Gasparini Morato, do ICMBio.
📙 Cultura
Embora o Maracatu de Baque Virado tenha uma tradição de mais de 300 anos em Pernambuco, foi apenas em 2008 que uma mulher assumiu o posto de liderança, quando a Mestra Joana Cavalcante foi nomeada Mestra de uma Nação de Maracatu. Em coluna na Revista AzMina, Débora Vasconcellos resgata a transformação do maracatu por meio da resistência feminina. “As mulheres do Maracatu, apesar de fundamentais para essa manifestação resistir até os dias de hoje, eram tratadas como coadjuvantes”, conta. “Essa construção histórica de restrição das mulheres teve um marco decisivo de mudança quando Mestra Joana criou o Movimento de Empoderamento Feminino Baque Mulher, em 2008. A proposta era ter um espaço livre e seguro para mulheres exercerem a função que desejassem, incluindo a capacitação das meninas e mulheres para tocar qualquer um dos instrumentos.”
🎧 Podcast
Contrariando a estrutura majoritariamente masculina e branca dos cargos de liderança do mercado marítimo, a executiva de finanças Gabriela Rocha tem mais de 17 anos de experiência nas indústrias de energia e marítima. O trabalho possibilitou que estivesse em diferentes países, da Noruega ao Gabão. O “Lendárias & Portuárias”, produção do Juicy Santos, narra a trajetória de Rocha. A carreira internacional fez com que ela descobrisse que os portos não são apenas números em planilhas, mas parte viva das cidades e da vida das pessoas. A executiva também reflete sobre os desafios específicos das mulheres negras brasileiras em posições de liderança no setor marítimo global.
✊🏾 Direitos humanos
Mais de 60% dos moradores de comunidades do país todo não confiam nas polícias Militar e Civil para protegê-los, e mais de 30% não confiam em nenhuma instituição. É o que revela a pesquisa “Sonhos da Favela 2026”, realizada pela Data Favela, que ouviu 4.471 pessoas acima de 18 anos em favelas e comunidades brasileiras. A Ponte esmiúça os dados do relatório quanto ao tema da segurança pública. Questionados sobre a presença da polícia dentro das favelas, 24% dos entrevistados optaram por não responder. Outros 25% afirmaram que a presença policial não altera a sensação de segurança, enquanto 13% disseram sentir medo e insegurança. “Podemos inferir que esse silêncio é sim um indicador de medo, uma percepção de risco que se eleva sobretudo em território que vivem sob maior pressão”, analisa Cléo Santana, copresidente do Data Favela.




