As trocas no governo em ano eleitoral e os roteiros LGBTQIA+ nas cidades
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🔸A disputa pelo governo de São Paulo em 2026 deve reeditar o confronto entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), quatro anos depois do segundo turno de 2022. Mas agora, como mostra o Metrópoles, ambos têm peso político maior: Tarcísio como governador bem avaliado e nome forte da direita, e Haddad após passagem pelo Ministério da Fazenda, com resultados econômicos positivos. Em 2022, Tarcísio era um candidato pouco conhecido e venceu Haddad ao crescer na reta final da campanha. Desde então, consolidou apoio político, avançou em pautas como privatizações e adotou posições alinhadas à direita. Já o petista chega fortalecido pela gestão na Fazenda, com a aprovação de medidas como o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária. Apesar de resistências internas e externas, sua atuação ainda ampliou o diálogo entre o mercado e o Centrão.
🔸 A propósito: a saída de Haddad da Fazenda integra uma estratégia mais ampla de Lula para as eleições. Ao menos 20 ministros vão deixar o governo até o começo de abril para disputar os Executivos estaduais, o Senado e a Câmara dos Deputados em outubro. Para cientistas políticos ouvidos pelo Nexo, a candidatura de Haddad tem objetivos além da vitória: garantir presença no segundo turno e fortalecer o palanque de Lula no estado. O movimento se repete com outros nomes do governo, como Rui Costa, ministro-chefe da Casa Civil, que deve concorrer ao Senado pela Bahia, e Simone Tebet, ministra do Planejamento, que deve disputar uma vaga no Senado por São Paulo. Para o cientista político Guilherme Carvalho, professor da Universidade Federal de Goiás, apesar de buscar ampliar sua presença no Congresso, o PT segue priorizando o Executivo em sua estratégia eleitoral: “O partido queima seus melhores nomes no Executivo e corre o risco de não ter força no Legislativo. Eventualmente, pode perder seu protagonismo para outra legenda”.
🔸 Desde o início da atual legislatura, em 2023, 32 parlamentares deixaram seus mandatos no Congresso, o equivalente a cerca de 5% das vagas. Levantamento do Congresso em Foco detalha a dança das cadeiras no Legislativo e mostra que as saídas ocorreram por diferentes motivos, de renúncias para assumir outros cargos a cassações. A Câmara concentrou a maior parte das mudanças, impulsionada sobretudo pelas eleições municipais de 2024, quando deputados deixaram Brasília para assumir prefeituras. Já no Senado, foram apenas quatro saídas, todas por renúncia. As mudanças devem aumentar nos próximos dias com o retorno de ministros do governo Lula para disputar as eleições. Eles precisam deixar os cargos até 4 de abril. A movimentação deve impactar novamente o equilíbrio das bancadas, já que inclui nomes como Marina Silva, Renan Filho e Gleisi Hoffmann.
🔸 Falando em Legislativo… se aprovado, o projeto de lei que tenta frear as operações do Ibama contra o desmatamento pode comprometer até 70% das ações de fiscalização do órgão na Amazônia. A estimativa foi feita pelo diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Jair Schmitt, a pedido da Agência Pública. O PL 2.564/2025, de autoria do deputado Lucio Mosquini (MDB-RO), deve impactar tanto o “embargo remoto” – autuações feitas à distância, a partir da identificação por imagens de satélite de desmatamentos ilegais –, quanto a apreensão e a destruição de equipamentos usados em crimes ambientais. As duas estratégias são cruciais para a fiscalização e foram importantes para a redução de 50% do desmatamento no ano passado em relação à taxa de 2022. “Se a lei for aprovada, o combate ao crime ambiental perderá a sua principal arma legal. E a redução recorde do desmate que se antevê para o ano eleitoral de 2026 estará ameaçada”, afirmou em nota o Observatório do Clima.
🔸 A Justiça brasileira leva quase nove anos para concluir processos de homicídio. Mesmo após esse período, 22% dos casos terminam sem condenação, seja por prescrição ou morte do suspeito. É o que mostra um estudo encomendado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A Ponte explica que o tempo elevado não é fruto apenas da investigação policial, mas de todo o funcionamento do sistema de Justiça, desde a produção de provas até a tramitação judicial. A pesquisa aponta falhas estruturais, como a ausência de laudos essenciais em parte dos processos e a demora na realização de perícias, o que contribui para atrasos acumulados. O trabalho integra o esforço do governo federal para operacionalizar uma portaria que institui o Indicador Nacional de Elucidação de Homicídios (INEH) – primeiro instrumento federal a tentar padronizar a forma como os estados medem e reportam a elucidação desses crimes.
📮 Outras histórias
Uma espécie invasora de origem asiática, o mangue-maçã, foi identificada nos manguezais da Baixada Santista – e já mobiliza ações de contenção por parte do Ibama e da Fundação Florestal de São Paulo. O Juicy Santos conta que analistas dos dois órgãos sobrevoaram com drones a região, mapearam cerca de 20 hectares afetados e removeram mais de 700 indivíduos na região do estuário de Cubatão, em uma tentativa de erradicar a espécie antes que sua expansão se torne irreversível. Como cresce mais que as espécies nativas, a planta pode alterar o equilíbrio do estuário e comprometer áreas que funcionam como berçário de espécies marinhas. Segundo especialistas, o mangue-maçã pode ter chegado à região pela água de lastro dos navios. Trata-se da água usada para manter o equilíbrio das embarcações quando estão sem carga e que pode transportar organismos de um lugar a outro, liberando-os nos portos de destino.
📌 Investigação
Ilhados pela monocultura de soja e convivendo com aviões de pulverização de agrotóxicos, os Guarani e Kaiowá relatam ter sido intimidados por pistoleiros por plantarem bananeiras em um local sobreposto pela Fazenda Ipuitã. É uma área de retomada, e os indígenas tentam pressionar pela demarcação. A banana faz parte da base alimentar da cultura tradicional do povo Guarani e Kaiowá, ao lado de milho branco, batata-doce, mandioca, feijão kumanda, abóbora, arroz, mbakuku (uma espécie de tubérculo), cana, guavira e manga. No especial “Mapa das Perdas Alimentares”, O Joio e O Trigo mergulha na luta dos indígenas para que esses alimentos não se percam, cujas práticas comunitárias e espirituais que envolvem o seu cultivo e consumo dependem da recuperação de suas terras ancestrais.
🍂 Meio ambiente
Apesar de 72% dos piscinões da cidade de São Paulo (27 de 37) estarem em zonas periféricas, os moradores relatam que os alagamentos e enxurradas persistem. A Agência Mural explica como funcionam os piscinões, principal política de combate às enchentes, que foram projetados considerando eventos extremos com intervalo de 25 anos. O problema é que, devido às mudanças climáticas, os episódios são cada vez mais frequentes. “Há 25 anos a gente não tinha como prever que as mudanças climáticas seriam tão aceleradas. A forma como foi pensada [a construção dos piscinões] naquele momento se mantém até hoje”, afirma o engenheiro Silvio Luiz Giudice. Segundo especialistas, embora os reservatórios continuem sendo importantes, deveriam ser a última etapa de um conjunto mais amplo de estratégias de drenagem urbana, guiadas pelas soluções baseadas na natureza, como parques lineares, recuperação de rios e preservação de áreas verdes.
📙 Cultura
Em diferentes cidades brasileiras, guias independentes, coletivos culturais e projetos de educação patrimonial passaram a promover passeios guiados que recuperam o passado urbano a partir das experiências da população LGBTQIA+. É o caso do Largo do Arouche, em São Paulo, onde desde os anos 1970, estão concentradas redes de sociabilidade, além da articulação histórica de mulheres trans e travestis. A Agência Diadorim narra a atuação desses grupos para garantir a memória urbana LGBTQIA+. “É contar essa história em primeira pessoa da cidade em que a gente vive”, diz Guilherme Soares Dias, da plataforma Guia Negro, que conduz um dos roteiros dedicados à história LGBTQIA+. “A região da República é um lugar onde a gente se encontra, celebra e constrói memória.”
🎧 Podcast
“Sabemos o quanto os nossos saberes foram transmitidos majoritariamente através da oralidade. É nessa relevância que a oralidade tem para a minha história que ‘A fim’ nasce”, afirma a multiartista Stella Carvalho, que lançou recentemente seu primeiro EP musical, “A Fim”. A obra mescla poesia falada, influências das religiões de matriz africana e sonoridades da música eletrônica para ressignificar traumas e celebrar a existência de corpos negros trans. O “Mariscada”, produção da Mangue Jornalismo, conversa com a artista sobre sua trajetória iniciada nos slams de poesia e na discotecagem, além da importância da oralidade como ferramenta de preservação histórica. Stella debate os desafios de produzir arte independente em Sergipe e destaca a falta de apoio institucional e o apagamento de narrativas periféricas e de pessoas trans.
👩🏽🏫 Educação
Para difundir os conhecimentos quilombolas, afro-brasileiros e indígenas, o Programa Nacional Escola Nego Bispo, lançado no fim do ano passado, selecionou cem cursos de extensão de institutos federais espalhados por diversas regiões. Cada projeto recebeu R$ 41,6 mil para realizar formações com estudantes de licenciatura de educação superior e educação profissional e tecnológica. O #Colabora destaca que, além de valorizar os saberes tradicionais, a iniciativa promove a educação antirracista já na formação de professores, essenciais para efetivar as leis que estabelecem a obrigatoriedade do ensino das histórias e das culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica. “Papai nos ensinou que, enquanto a gente repassa o que aprendeu, mesmo enterrado, ele continua vivo. Por isso dizemos que ele nasceu para a ancestralidade”, afirma Joana Maria de Oliveira Santos, filha do mestre quilombola Nêgo Bispo.




