A 'trend' de agressão a mulheres no TikTok e o maior sonegador do país
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🔸A defesa de Jair Bolsonaro (PL) pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para que ele receba na prisão a visita de Darren Beattie, alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA e assessor do governo Donald Trump para relações com o Brasil. O encontro, solicitado para 16 ou 17 de março, ainda depende de decisão do ministro Alexandre de Moraes. O Jota lembra que Beattie já atacou o STF nas redes sociais e afirmou, em setembro de 2025, que Moraes seria responsável pela “censura” e “perseguição” contra Bolsonaro e seus apoiadores.
🔸 No YouTube, canais de ataque a mulheres continuam se expandindo e ganham mais seguidores. É o que mostra a atualização de um estudo do NetLab UFRJ, divulgado nesta segunda-feira. Dos 137 canais que atacam mulheres identificados em 2024, 123 seguem ativos, uma redução de apenas 10% na plataforma. O Fast Company Brasil detalha os resultados do trabalho e mostra que a audiência desses canais cresceu: entre abril de 2024 e março de 2026, o número de inscritos passou de 19,5 milhões para cerca de 23 milhões, um aumento de 18,55%. Segundo o levantamento, alguns canais mudaram de nome e retiraram referências explícitas à “machosfera”. Segundo a ONU Mulheres, machosfera é o termo usado para se referir a grupos que se opõem ao feminismo e difundem a ideia de que homens seriam “vítimas” do cenário social e político atual.
🔸 A propósito: no TikTok, uma trend chamada “Se ela disser não” viralizou com vídeos que simulam violência contra mulheres após um pedido de casamento recusado. Os usuários encenam agressões, como chutes, socos ou disparos com armas de brinquedo, caso a companheira (imaginária no vídeo, representada por bonecos ou sacos de box) diga “não”. O Núcleo explica que a trend não é nova – há postagens de 2023 –, mas viralizou com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, no último domingo. Um dos vídeos mais vistos foi publicado pelo influenciador Yuri Meirelles e chegou a quase 200 mil curtidas antes de ser removido após críticas. “A trend envolve engajamento. Então é diferente de só as pessoas estarem sendo expostas a um conteúdo violento. A gente está falando de um movimento, mesmo que rápido, fugaz, que se instaura ali numa comunidade de pessoas que estão produzindo aquela trend”, afirma Mariana Valente, pesquisadora do InternetLab. Após ser procurado pela reportagem, o TikTok afirmou ter removido os 15 links enviados com conteúdos da trend.
🔸 Janeiro registrou o maior número de mortes causadas por policiais em São Paulo nos últimos seis anos. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, foram 78 casos de mortes decorrentes de intervenção policial, mais que o dobro do registrado no mesmo mês de 2025. Entre as vítimas estão cinco adolescentes, como Taisson Fernando Nascimento dos Santos, de 13 anos, morto pela Polícia Militar em Sorocaba. A Ponte ressalta que 55% das vítimas eram negras e que a polícia foi responsável por 28% dos homicídios dolosos no estado no período, quase três em cada dez casos. Procurado pela reportagem, o secretário Osvaldo Nico Gonçalves atribuiu o aumento da letalidade a “mais trabalho, mais policial na rua, mais operações”.
🔸 As fortes chuvas na última semana de fevereiro fizeram 65 vítimas fatais em Juiz de Fora (MG). Entre os mortos, o mais novo tinha apenas 2 anos de idade, e o mais velho, 79. A Tribuna de Minas resgata a história de algumas das vítimas e lista o nome de todas em reportagem especial que busca preservar a memória dos moradores da cidade na Zona da Mata de Minas Gerais. O primeiro corpo encontrado foi o de Willian Cordeiro da Silveira, de 68 anos, que estava em casa com a filha e a mulher. Gislene, resgatada com vida por vizinhos após o deslizamento, guarda como última lembrança o gesto do pai insistindo para que ela e a mãe saíssem primeiro da casa. No Bairro Bom Jardim, a família de Cristiano José da Costa, de 48 anos, sofreu ao longo das buscas: com o deslizamento e os escombros sobre a casa onde moravam, a filha dele foi encontrada no terceiro dia, mas Cristiano só foi encontrado seis dias após a tragédia.
📮 Outras histórias
Maria Janaina Silva dos Santos tornou-se a primeira doutoranda quilombola a defender uma tese no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sua pesquisa “Quando nos Tornamos Quilombola: uma Etnografia dos Negros do Talhado” parte da própria vivência da autora no território. A Saiba Mais conta que a comunidade quilombola da Serra do Talhado, no Sertão da Paraíba, é marcada pela resistência e luta por direitos. A partir de abordagem etnográfica, a pesquisadora investigou como os moradores constroem suas identidades e explorou memórias orais, pertencimento territorial e ancestralidade para reconstruir a história do quilombo, fundado no século XIX. “Sinto que não abro essa porta sozinha: entro acompanhada por todos os que vieram antes de mim e que foram impedidos de acessar esses espaços.”
📌 Investigação
Maior sonegador de impostos do país, o empresário Ricardo Magro reorganizou sua teia de empresas, criou uma enorme estrutura e promoveu uma expansão internacional desde 2019. No site oficial da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, apenas sua refinaria de petróleo, a Refit, deve mais de R$ 25 bilhões à Receita. Ao somar cadastros de outras empresas vinculadas à refinaria, o grupo de Magro deve mais de R$ 28 bilhões ao fisco, como apurou a revista piauí. Esse valor equivale ao orçamento anual do Ministério da Justiça e Segurança Pública ou seria capaz de financiar o programa Bolsa Família para mais de 3 milhões de famílias brasileiras durante um ano. A reportagem mergulha em como o empresário criou uma rede internacional de blindagem e riqueza.
🍂 Meio ambiente
“As mulheres são as guardiãs dos rios atacados, como o rio Doce, o Watu do povo Krenak, e o Paraopeba, que sofreu um processo de silenciamento, de dar um dinheiro, uma compensação em dinheiro, para que essas populações deixassem de lutar pela recuperação do próprio rio”, afirma a socióloga Avelin Buniacá Kambiwá. Indígena do povo Kambiwá, ela atua em Minas Gerais combatendo o apagamento histórico dos povos originários no estado. Em entrevista ao Projeto Preserva, ela fala sobre a relação dos povos indígenas, sobretudo das mulheres, com o meio ambiente e a necessidade de interromper o ciclo de violência contra o planeta. “Tratamos a Terra como um ente sagrado, não como uma propriedade para ser vendida ou esburacada. Como diz o Davi Kopenawa, a crise climática é a vingança da Terra, que se cansou de ser maltratada.”
📙 Cultura
Da comunidade quilombola Sítio Queimadas, no Alto Sertão alagoano, ao mercado cultural, o artesão Tiago Vinna usa o amigurumi, técnica japonesa de crochê e tricô, para entrelaçar fé, ancestralidade e empreendedorismo. Por meio de peças em crochê, ele ressignifica traços e identidades do seu povo e dá continuidade à tradição manual de sua linhagem familiar. “Busquei inovar ao trazer, nas bonecas negras, o fortalecimento da identidade, o empoderamento e, principalmente, o antirracismo. Também passei a trabalhar com os orixás, valorizando a cultura afro-brasileira com respeito e consciência.” A Revista Alagoana narra a trajetória do artesão, que precisou também romper os estereótipos de gênero. “Uma vez meu pai comentou que era coisa de mulher, mas não dei importância. Não há gênero específico para o desenvolvimento dessa arte, pois costumo dizer que crochê é coisa de mulher, de homem, de idoso, de criança”, afirma.
🎧 Podcast
“A gente tem guerra o tempo todo na humanidade. Todo grupo humano, seja uma tribo, um clã, um país, uma aliança militar, o que busca é ter condições mais confortáveis para si mesmo”, afirma o jornalista e escritor João Paulo Charleaux. Com experiência na cobertura de conflitos internacionais e atuação no Comitê Internacional da Cruz Vermelha em cinco países, Charleaux está prestes a publicar o livro “As Regras da Guerra”, em que mergulha na história dos combates e das leis de guerra. O “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, recebe o autor, que também aborda a ofensiva de Estados Unidos e Israel contra o Irã. “Cada lance que a gente acompanha no Oriente Médio não é mais do que uma nova volta numa grande espiral.”
👩🏽🏫 Educação
A presença de professores negros nas escolas aumenta o desempenho, o acesso ao ensino superior e a renda de estudantes negros ao longo da vida. Um estudo inédito da Fundação Getulio Vargas (FGV) que acompanhou 2 milhões de alunos revelou que, aos 27 anos, ex-estudantes negros que tiveram maior contato com docentes negros apresentaram rendimentos mensais médios mais altos. Em artigo no Porvir, o professor e pesquisador Rafael Silva analisa os dados encontrados pela pesquisa e afirma: “A diversidade na contratação de professores é uma alavanca para melhores índices de aprendizagem, acolhimento e inclusão de alunos negros. Aumentar a exposição de alunos negros a modelos de sucesso semelhantes a eles pode ser uma estratégia eficaz para combater a persistente desigualdade de renda e oportunidades no Brasil”.




