Os terreiros atingidos em MG e os anúncios de pornografia infantil nas redes
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🔸Acusados de estupro coletivo contra uma menina de 17 anos, João Gabriel Xavier Bertho e Mattheus Verissimo Zoel Martins se entregaram às autoridades ontem. Os outros dois acusados, Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, estão foragidos. Todos são réus pelo crime de estupro, com agravante de a vítima ser menor de idade, e também por cárcere privado. O Notícia Preta detalha que o caso ocorreu no dia 31 de janeiro, quando a vítima foi convidada por um colega de escola e ex-namorado para ir ao apartamento de um amigo dele, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. O adolescente apontado como responsável por convidar a menina responderá por ato infracional análogo ao crime. O processo foi encaminhado à Vara da Infância e Juventude, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, e sua identidade é mantida em sigilo.
🔸 Há ainda outros dois casos de violência sexual ligadas ao mesmo grupo de jovens. De acordo com o delegado Ângelo Lages, que está à frente da investigação, a mãe de uma adolescente foi até a delegacia na segunda-feira para contar sobre o estupro que a filha sofreu em 2023 e relatou que a menina foi gravada durante as agressões sexuais para intimidar a jovem e impedi-la de registrar um boletim de ocorrência. Já ontem, uma terceira vítima foi até a 12ª DP fazer uma ocorrência contra Vitor Hugo. O Metrópoles informa que a Polícia Civil do Rio de Janeiro está investigando os casos para saber se há outras vítimas, incluindo apurações no colégio Pedro II. Vitor Hugo, aliás, é filho de José Carlos Simonin, subsecretário de Governança, Compliance e Gestão da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, que foi exonerado ontem, após a repercussão do caso.
🔸 “Às vésperas do 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, um estupro coletivo no Rio de Janeiro me faz lembrar do tipo de engrenagem que carimba a vergonha em quem sofre a violência. A vítima, uma jovem de 17 anos violentada, sentiu-se culpada, envergonhada, desacreditada de que teria sofrido, de fato, uma violência, segundo relatou a mãe”, escreve a jornalista Paula Guimarães. No Portal Catarinas, ela reflete sobre como a cultura do estupro e os discursos misóginos e antifeministas normalizam a violência contra as mulheres. “Ao tratar o caso como exceção monstruosa, empurra-se para debaixo do tapete o cotidiano de violências naturalizadas: o controle, a desqualificação constante, a culpabilização.”
🔸 Depois das fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora (MG) na semana passada, que deixaram 65 mortes e mais de 8 mil pessoas desabrigadas e desalojadas, os moradores dos bairros Cerâmica, Esplanada e Jardim São João lidam com o sentimento de abandono e insegurança, sofrendo com as perdas materiais e humanas, além do medo de saques nas áreas evacuadas. A Tribuna de Minas ouviu os moradores da região, que relatam demora no recolhimento de entulhos e aumento do preço dos aluguéis. “Ainda tem o abuso que as imobiliárias estão fazendo pra quem está procurando agora. Lugar que pedia dois cauções está pedindo três, quatro. Lugar que era R$ 600, agora é R$ 800”, afirma Luana Aparecida.
🔸 As comunidades de terreiro de Juiz de Fora também foram atingidas pelo desastre. Diante da destruição física e do abalo emocional, os grupos de Candomblé e Umbanda articulam redes de apoio para reconstruir os barracões e manter a cultura negra e afrorreligiosa viva na cidade mineira, relata o Nonada. “Esse espaço não é só nosso. É casa de acolhimento, de cultura, de tambor, de reza, de ensino e de cuidado com a comunidade. Reconstruir não será fácil, mas não vamos desistir”, afirma Pai João de Osaguian, Ogã do Ilè Iyá Ominibú, que possui atividades distribuídas em dois endereços – nos bairros Santa Tereza e Grajaú. Para ele, os impactos gerados atingem a memória ancestral, os ritos sagrados, o vínculo comunitário e o próprio laço dos filhos de santo com a casa e com a sua ancestralidade. A destruição dos espaços também vai dificultar a realização de atividades culturais, como aulas de atabaque e de cânticos, e as festas populares.
📮 Outras histórias
“Sou a última abrigada da Mirabal, só que eu também sou uma pessoa que já procurei a ajuda do governo antes, várias vezes. E o Estado e o Município não se propõem a resolver, só se propõem a colocar na rua. Se fosse pelo prefeito, pelo governador, eu não estaria aqui”, afirma Mariele Aduké, que se vê sem ter para onde ir com o filho de 9 anos. Eles são os últimos abrigados da Casa Mulheres Mirabal, espaço que acolhe mulheres em situação de violência e que tem até hoje para parar de funcionar. O motivo: o imóvel é alvo de uma ação de reintegração de posse por parte do município de Porto Alegre (RS). O Sul21 conta a história de Mariele, vítima de suscetíveis violências de gênero. Sem retorno dos serviços públicos de assistência social e habitação, ela foi morar com outras pessoas, mas ainda não tem endereço fixo.
📌 Investigação
Ao menos 84 anúncios com promessas de pornografia infantil foram impulsionados no sistema de publicidade paga da Meta – empresa proprietária do Facebook, Instagram e Threads – entre os dias 5 e 22 de janeiro. A maior parte das publicidades criminosas encontradas (93%) direcionava o usuário para grupos no Telegram, onde ocorria a suposta comercialização dos conteúdos. Um dos anúncios dava acesso a três grupos distintos no aplicativo, que prometiam, de modo explícito, fotos e vídeos íntimos de jovens “sub 18” (menores de 18 anos). A Agência Lupa revela como a estratégia dos criminosos evidencia o uso da publicidade da Meta e de ferramentas oferecidas pelo Telegram como engrenagem para a exploração sexual infantil. Na prática, a Meta lucrou com a veiculação do material criminoso e só retirou os conteúdos após o contato da reportagem. O Telegram também desativou os grupos identificados.
🍂 Meio ambiente
Lei do Acre que autorizava o governo estadual a privatizar áreas de florestas públicas foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal. A legislação permitia que o estado concedesse o título definitivo da terra, com registro em cartório, a pessoas que tivessem o direito de uso por dez anos ou que comprovassem posse pelo mesmo período. A norma também determinava que, ao receber o título, a área deixava automaticamente de ser considerada floresta pública. Segundo O Eco, a ação julgada pela Corte foi proposta pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas, que sustentou que a lei violava o artigo 225 da Constituição, que exige lei específica para a desafetação de áreas protegidas, além de alegar afronta ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e ao princípio da vedação ao retrocesso socioambiental.
📙 Cultura
“A universidade me ensinou que a rua, a brincadeira de terreiro, o chão de barro e o pau-a-pique eram palcos lindos de teatro – e eu me assegurei nisso. Hoje, carrego o título de melhor marcador de quadrilhas juninas do Brasil; ganhei em 2025, no campeonato brasileiro, com quadrilhas do Brasil todo’, afirma o ator, dramaturgo e professor alagoano Emmanuel Lima. Nascido em Maceió (AL), em 1997, o artista completou sua primeira década de carreira, marcada pela cultura popular que o acompanhou durante a vida toda. A Revista Alagoana narra a trajetória de Emmanuel, que leva seus aprendizados também para a sala de aula, onde a cultura popular é protagonista. Para o futuro, ele já está trabalhando em uma peça autoral. “A obra é 100% alagoana: músicas autorais, tudo ao vivo, com uma pegada de coco de roda, frevo, maracatu, baianá e outros ritmos que representam a nossa essência.”
🎧 Podcast
Diretora de Planejamento de Operações no Porto de Santos, Evelyn Lima defende que o impacto econômico esteja integrado à população local. O Porto de Santos é responsável por 30% de toda a movimentação de contêineres do país, e as decisões de planejamento operacional – janela de atracação, uso de pátio, priorização de carga – geram um efeito cascata na cidade e em toda a economia brasileira. O “Lendárias & Portuárias”, produção do Juicy Santos, conversa com Lima, que começou sua carreira no porto como estagiária, e ressalta o papel da tecnologia para uma inclusão maior de mulheres em posições estratégicas e operacionais. Como consequência, houve humanização das funções portuárias.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Sete anos depois do desastre em Brumadinho (MG), mulheres negras – maioria entre a população atingida – ainda vivem em insegurança alimentar. Antes do rompimento da barragem da Vale, em 25 de janeiro de 2019, a pesca e os alimentos da pequena agricultura eram a base para a garantia das refeições. Com a contaminação do rio, elas passaram a depender da renda e do transporte para adquirir alimentos no supermercado, geralmente distantes de onde vivem, conta a Gênero e Número. “A gente tem [comida] hoje, amanhã não sabe se vai ter. A gente vive o dia de hoje”, afirma a pescadora Quesia Martins, da comunidade rural de São Marcos. Ela viu a renda mensal de R$ 4 mil que vinha da venda de peixes e derivados cair pela metade. Suas refeições, que contavam com opções de peixes como curimatã, tilápia, piau e piranha, foram reduzidas a ovo, mortadela e salsicha.




