O novo tarifaço dos EUA e as crianças vizinhas de turbinas eólicas
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🔸 O governo dos Estados Unidos decidiu tarifar produtos brasileiros em 25%. O novo tarifaço deve atingir cerca de 18% das exportações brasileiras para o país, o equivalente a US$ 7,4 bilhões com base nos dados de 2024. O Metrópoles informa que a sobretaxa entra em vigor em 22 de julho. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias, se forem considerados os números de 2025, já sob efeito de tarifas anteriores, o percentual cai para 15%. Em resposta, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) anunciou que o governo lançará um programa de apoio aos setores afetados e voltou a classificar a medida como “injusta e descabida”. Ele também afirmou que o Brasil poderá acionar a Lei da Reciprocidade, que permite adotar medidas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais. O governo brasileiro afirma ter tentado negociar com Washington após a investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), mas sem sucesso.
🔸 A principal alternativa do Brasil para reduzir os impactos da sobretaxa é diversificar mercados e manter a negociação diplomática. Mas, segundo especialistas ouvidos pelo Nexo, essas saídas não oferecem uma solução rápida. O acordo entre Mercosul e União Europeia abre oportunidades de médio e longo prazo, embora as exigências ambientais e sanitárias do bloco europeu limitem uma substituição imediata do mercado americano. “A China pode absorver uma parte dos produtos brasileiros afetados pelas tarifas americanas, mas não funciona como substituta automática dos EUA. Os dois mercados compram do Brasil mercadorias diferentes, com estruturas de demanda, padrões técnicos e cadeias de distribuição igualmente distintas”, afirma João Alfredo Nyegray, professor de geopolítica e negócios internacionais da PUC-PR. Há ainda a saída diplomática. Nyegray defende que o Brasil negocie intensamente questões comerciais, prepare uma contestação na Organização Mundial do Comércio (OMC) e adote contramedidas proporcionais.
🔸 O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atribuiu ao presidente Lula (PT) a responsabilidade pelo novo tarifaço. Em vídeo publicado nas redes sociais, o pré-candidato à Presidência afirmou que Lula teria provocado repetidamente Donald Trump e tentado transformar o conflito comercial em vantagem eleitoral, relata o Congresso em Foco. Flávio usou uma metáfora do futebol para afirmar que Lula teria criado as condições políticas para a sanção comercial: “O Lula cavou o pênalti com muita força”. A reportagem lembra que, no último dia 7, Flávio participou de uma audiência pública do USTR. Na ocasião, ele pediu o adiamento das tarifas para depois das eleições.
🔸 Ainda o tarifaço: os EUA ameaçam o Brasil com mais tarifas em caso de retaliação. O documento divulgado pelo governo americano diz que ações como o aumento de tarifas contra produtos dos EUA podem levar à adoção de novas medidas previstas na Seção 301 da Lei de Comércio. O Jota conta que, segundo interlocutores do governo brasileiro, os EUA nunca deixaram claro o que queriam de fato, e não se moveram “um milímetro” para mostrar flexibilidade durante todo o processo de negociações, que começou ainda no passado e se intensificou desde o encontro olho no olho entre Lula e Trump em Washington em março. Foram mais de 30 reuniões, presenciais, virtuais ou por telefone, desde o anúncio do tarifaço original, nos níveis presidencial, ministerial e técnico. Nenhum acordo avançou.
📮 Outras histórias
“Se a gente não dá a medicação altamente forte, nem dorme ele nem dorme a gente, ele fica delirando. Infelizmente esse é o resultado do empreendimento que trouxeram para nós”, diz o agricultor Walisson José da Silva sobre o filho de 11 anos, que passou a tomar remédios para dormir após a instalação de um parque eólico ao lado de casa, em Caetés, no agreste pernambucano. A Marco Zero mostra como famílias que vivem próximas aos aerogeradores relatam impactos na saúde física e mental de crianças, incluindo ansiedade, distúrbios do sono e dificuldades de concentração. A médica Maria Eduarda Valois Spencer, colaboradora de uma pesquisa da Fiocruz e da UPE, diz que tem observado crianças e adolescentes com transtorno de ansiedade e sintomas associados à chamada síndrome da turbina eólica. “Essa é uma fase em que hiperestímulos e ruídos acabam atrapalhando o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças”, afirma.
📌 Investigação
A Polícia Militar foi responsável pela maior parte das mortes violentas intencionais registradas em Santos durante a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Entre janeiro de 2023 e maio de 2026, 82 pessoas morreram em ações policiais na cidade, o equivalente a 60% das mortes violentas do período. Segundo levantamento da Ponte, quase metade dessas ocorrências se concentrou entre agosto de 2023 e março de 2024, durante as operações Escudo e Verão. A reportagem identificou outras 12 cidades paulistas em que a PM também respondeu pela maioria das mortes violentas intencionais no período. A literatura científica sobre letalidade policial aponta que, quando as mortes decorrentes de intervenção policial ultrapassam 10% do total de mortes violentas, há um forte indício de uso abusivo da força. A ampla maioria das mortes violentas decorrentes de ações policiais desde 2023 tem como vítimas pessoas negras, homens e jovens, com idades entre 18 e 35 anos.
🍂 Meio ambiente
Uma expedição científica que reúne pesquisadores indígenas, extrativistas, ribeirinhos e acadêmicos percorre antigos caminhos entre as bacias dos rios Xingu e Tapajós. O objetivo do projeto Caminhos Ancestrais é investigar a história da biodiversidade e das populações da região. A Sumaúma acompanhou uma das etapas da iniciativa, que combina arqueologia, antropologia e etnobiologia a conhecimentos tradicionais para mapear espécies, sítios arqueológicos, modos de vida e formas de relação com o território. Ao longo do percurso, a expedição encontra moradores como o extrativista Francisco de Assis de Oliveira, 62 anos, que explica como antigos caminhos indígenas foram transformados em rotas dos seringueiros e hoje são ameaçados pela grilagem, pelo garimpo e pelo traçado previsto da Ferrogrão.
📙 Cultura
A estreia do filme “A Odisseia”, de Christopher Nolan, marca o cinema global como o primeiro longa de ficção gravado totalmente com câmeras IMAX. E também lança o olhar do público para o passado: o filme é inspirado no poema épico atribuído a Homero, escrito há cerca de três mil anos. A revista O Grito! reúne sugestões de livros e quadrinhos para quem deseja conhecer ou revisitar a obra que narra o retorno de Odisseu à ilha de Ítaca após a Guerra de Troia e é considerada um dos pilares da literatura ocidental. A seleção contempla diferentes perfis de leitores. Entre as recomendações estão a tradução de Frederico Lourenço, que aproxima o texto da linguagem do romance e inclui materiais de apoio, ou ainda uma adaptação em quadrinhos ilustrada por Jefferson Costa.
🎧 Podcast
A “gig economy” costuma ser vendida como um modelo baseado em autonomia e flexibilidade, mas, na prática, só faz aprofundar a precarização do trabalho. No “Diálogos com a Inteligência”, produção do Canal Meio, a advogada trabalhista Luana Filgueiras, coautora do artigo “O Precariado sobre Duas Rodas”, afirma que muitos entregadores acabam migrando para os aplicativos por falta de alternativas no mercado formal e que a promessa de liberdade é ilusória. “Muitos deles veem como uma coisa boa por não ter jornada de trabalho. E aí é uma pegadinha. Não existe patrão, mas a maior parte desses trabalhadores trabalha muito. É muito comum você ver pessoas que trabalham seis, sete dias por semana e, muitas vezes, 12, 14 horas por dia”, diz. Ela lembra que “a tecnologia não é neutra” e que os algoritmos das plataformas são desenhados para manter entregadores e motoristas conectados por mais tempo.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Marcada por casos de racismo, a trajetória da seleção argentina nesta Copa do Mundo reforçou a ideia de um time formado apenas por jogadores brancos. Mas a história da equipe inclui atletas negros que tiveram papel importante no futebol do país. A Alma Preta relembra as figuras de Alejandro De Los Santos, primeiro jogador negro a defender a Argentina, campeão da Copa América de 1925; José Ramos Delgado, filho de um cabo-verdiano que disputou as Copas de 1958 e 1962 e fez história no Santos ao lado de Pelé; e Héctor Baley, goleiro conhecido como “El Chocolate”, integrante do elenco campeão mundial de 1978. Em tempo: em junho passado, Stephen “Kiki” Ramos, atacante haitiano de 17 anos adotado por uma família argentina depois do terremoto de 2010, foi convocado para a seleção sub-17. Ele desponta como uma das principais promessas do futebol no país.



