O saldo de Lula e Trump e os dicionários digitais de línguas indígenas
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🔸“Estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os países da América Latina para o combate ao crime organizado. Não é a hegemonia de um país ou de outro. Tem de ser compartilhada com todos, e o Brasil tem expertise.” A afirmação é do presidente Lula (PT) após o encontro ontem com o mandatário dos EUA, Donald Trump. Segundo a CartaCapital, Lula disse que a possibilidade de o Republicano classificar facções brasileiras como organizações terroristas não entrou na pauta da reunião de quase três horas, mas o governo brasileiro mantém a preocupação com os impactos jurídicos e de soberania de uma eventual designação do Comando Vermelho e do PCC sob o rótulo de grupos de terrorismo. Lula contou ainda que defendeu o multilateralismo diante das tarifas impostas por Trump, propôs um grupo bilateral para negociar divergências comerciais em até 30 dias e afirmou que o Brasil está disposto a discutir “qualquer assunto” com os EUA, desde que sejam preservadas “a democracia e a nossa soberania”.
🔸 Trump, aliás, elogiou Lula depois do encontro, chamou o brasileiro de “dinâmico presidente do Brasil” e classificou a reunião como “muito produtiva”, em publicação na rede Truth Social. O Metrópoles informa que o Republicano também anunciou novas reuniões entre representantes dos dois países nos próximos meses. Findo o encontro reservado no Salão Oval, os dois presidentes almoçaram juntos na Casa Branca, mas não concederam entrevista coletiva conjunta. Esta foi a segunda reunião formal entre os dois desde o retorno de Trump à presidência dos EUA.
🔸 A propósito: a Câmara aprovou o projeto que cria um marco legal para minerais críticos no Brasil, tema que entrou na conversa entre Lula e Trump. A Eixos detalha o texto, que cria um conselho ligado ao governo federal para definir diretrizes e projetos prioritários do setor, além de um fundo de R$ 2 bilhões para financiar atividades consideradas estratégicas. A proposta prevê ainda incentivos fiscais para processamento e transformação de minerais críticos, como os fertilizantes. Integrantes do governo defendem maior controle estatal sobre o setor. As mineradoras, por sua vez, criticam o poder dado ao Executivo para homologar participação estrangeira em projetos. Para o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o projeto inaugura uma política de industrialização para essas novas cadeias de valor, ainda que modesta.
🔸 Na investigação do Banco Master, a Polícia Federal fechou o cerco contra Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do partido Progressistas (PP) e ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro. A PF cumpriu ontem mandado de busca e apreensão na casa do senador. A Agência Pública explica que, segundo a polícia, a relação entre o parlamentar e o banqueiro Daniel Vorcaro teria ultrapassado a amizade pessoal e estruturado um esquema no qual o senador atuaria em defesa dos interesses do Master no Congresso em troca de vantagens. A investigação aponta quatro frentes de benefícios ao senador: participação societária considerada subvalorizada em uma empresa ligada ao irmão de Ciro, pagamentos mensais que chegaram a R$ 500 mil, uso de um imóvel de luxo e custeio de viagens, hospedagens e despesas em restaurantes. A PF também afirma que o Banco Master teria redigido uma emenda parlamentar apresentada por Ciro Nogueira em 2024 para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), proposta vista pelo mercado como estratégica para os negócios do banco.
📮 Outras histórias
Comunidades indígenas e ribeirinhas do Baixo e Médio Juruá, no Amazonas, criaram protocolos próprios de consulta para enfrentar o avanço de megaprojetos de energia e infraestrutura na região. A iniciativa reúne povos Kulina e Kanamari, além de pescadores e extrativistas de Carauari (AM), que definiram coletivamente regras sobre como empresas e governos devem dialogar com os territórios antes de implementar projetos de exploração de petróleo, gás, hidrelétricas e parques eólicos. A Amazônia Latitude conta que o documento, elaborado ao longo de oficinas e assembleias na região, funciona como um “regimento interno” das comunidades: estabelece quem deve ser ouvido, em que momento e de que forma, com base no direito à Consulta Prévia, Livre e Informada previsto na Convenção 169 da OIT. “Poder decidir como queremos ser ouvidos dentro do nosso território é garantir autonomia, respeito e protagonismo para quem vive aqui”, afirma Fernanda Moraes, moradora da comunidade Lago Serrado, em Carauari.
📌 Investigação
Com um histórico de denúncias de condutas ilegais, o delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha liderou uma operação policial que terminou na morte de Rosimilck Rick Maciel Amorim, jovem negro de 22 anos, em novembro de 2024, em Oeiras do Pará (Pará). A intervenção policial foi motivada por uma suposta denúncia anônima de que Rosimilck estaria “guardando drogas e armas de fogo” a mando de uma organização criminosa, da qual ele seria integrante. A casa da vítima foi invadida pelos agentes sem autorização da Justiça. A Alma Preta teve acesso a imagens das câmeras de segurança da residência, que revelam um policial com apoio de pelo menos outros dois colegas levando o jovem para dentro do quarto onde ele foi morto com um golpe conhecido como “mata-leão”, completamente imobilizado. O vídeo contrasta com a versão dos agentes de segurança, de que o jovem teria atirado contra eles.
🍂 Meio ambiente
O nascimento de 17 filhotes de perereca-rústica nesta semana se tornou um marco na conservação da espécie. Endêmico da Mata Atlântica, esse é um dos anfíbios raros do bioma, ocorrendo apenas em uma pequena área de campos de altitude em Santa Catarina, e extremamente sensível a alterações ambientais. O Conexão Planeta conta que os filhotes nasceram no Parque das Aves, em Foz do Iguaçu (PR), onde é mantida uma população de segurança. A conquista é resultado de um esforço conjunto das instituições do Projeto Perereca-rústica – o Parque das Aves, o Zoológico de São Paulo, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, do ICMBio, e a Universidade Federal de Santa Maria. De acordo com o parque, profissionais de diferentes áreas atuaram, de forma coordenada, para garantir as condições adequadas para reprodução, crescimento e saúde dos filhotes, com protocolos científicos rigorosos.
📙 Cultura
“Escrever para crianças vai muito além da simplicidade. É um compromisso com a formação de novos leitores”, afirma o jornalista e escritor Juliano Freire. Com duas décadas de dedicação ao gênero, o autor lança hoje, em Natal (RN), seu quinto livro, “A Cachorrinha Que Aprendeu a Ler”. A obra transforma o cotidiano de uma família trabalhadora em uma narrativa sobre leitura, afeto e descoberta, destaca a Saiba Mais. Para Freire, a personagem se torna uma “memorialista” das pequenas cenas do dia a dia. “A cachorrinha traz na retina os momentos de aconchego, aprendizado e evolução. Em um lar urbano, no meio de uma família brasileira comum, um animal é capaz de aprender letras, palavras, textos e significados.”
🎧 Podcast
Cineasta, mãe e pesquisadora, Manoela Veloso leva a experiência da maternidade para suas produções audiovisuais e reflete sobre a necessidade de desmistificar a figura da “mãe heroína”. Suas obras, como os documentários “A Mulher Que Me Tornei” e “A Culpa É da Mãe”, propõem um olhar para a vulnerabilidade materna. O “Mariscada”, produção da Mangue, conversa com Veloso, cocriadora da Mostra Maternidade Real, sobre as representações do ato de maternar o audiovisual. “A maior parte das mídias divulga como se as mães precisassem ser perfeitas, mas, no final das contas, continuam sendo mulheres.” Um de seus desejos de tratar do tema no cinema é se sentir menos só. “É muito bom quando podemos nos reconhecer em uma situação ou em uma personagem”, diz.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Povos indígenas, linguistas e instituições científicas se uniram para criar os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas, uma ferramenta digital para preservação e revitalização de línguas minorizadas de diversas etnias. Desenvolvidos pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em parceria com o Departamento de Linguística da Universidade do Novo México, esses dicionários incorporam áudio, vídeo e imagem, incluindo a pronúncia das palavras e ilustrações de seu uso em frases. “Esses recursos permitem registrar e transmitir de forma mais fiel aspectos orais da língua, de modo que o dicionário possa funcionar como fonte de referência e, especialmente, como instrumento de manutenção, fortalecimento e revitalização linguística”, detalham as pesquisadoras do MPEG, Ana Vilacy Galúcio e Erika Morhy, no Conversation Brasil. Atualmente sete dicionários bilíngues com o Português estão disponíveis na plataforma, e outros quatro estão em fase de finalização.




