🔸 Com a fuga para os Estados Unidos, o salário do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está na mira. Derrotado nas eleições presidenciais, ele descumpriu uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) e deixou o país. Agora, uma ação popular apresentada à Justiça Federal pede a interrupção imediata do salário, do auxílio-moradia e do uso de recursos do gabinete e da cota parlamentar. Paralelamente, deputados do PSOL solicitaram ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a apuração de possível abandono das funções, com eventual perda do mandato. Um abaixo-assinado criado na plataforma Change.org também cobra a suspensão dos pagamentos e se aproximava de 45 mil assinaturas no último domingo. Segundo o Congresso em Foco, as despesas vinculadas ao mandato de Flávio somaram R$ 5,47 milhões entre janeiro e outubro de 2026, média de R$ 547,6 mil mensais, incluindo seu salário bruto de R$ 46.366,19, os pagamentos à equipe e os reembolsos da cota parlamentar. O mandato de Flávio termina em 31 de janeiro de 2027, e o Senado não informou se ele comunicou oficialmente sua ausência, pediu licença ou sofrerá descontos salariais.
🔸 Depois da derrota de Flávio, aliás, a desinformação contra o governo Lula (PT) mobilizou quase o dobro de interações nas redes bolsonaristas do que as alegações de fraude eleitoral. Levantamento do Aos Fatos mostra que a base bolsonarista aderiu mais às publicações que buscavam espalhar pânico sobre o novo mandato de Lula do que ao discurso golpista do candidato derrotado. Entre 26 e 30 de outubro, 12 alegações falsas sobre cortes de benefícios e mudanças em políticas públicas somaram mais de 3,1 milhões de interações no Facebook, Instagram, Threads, TikTok, YouTube e X, enquanto seis narrativas de fraude nas urnas reuniram 1,6 milhão. Entre as mentiras de maior alcance estavam a suposta revogação do fim da escala 6x1, que sozinha acumulou 1,4 milhão de interações, e falsos anúncios de cortes no Bolsa Família, no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e em verbas para saúde e educação.
🔸 “Onde eu falo com você, exatamente neste local era onde ficou o corpo do meu filho… Para mim estar hoje aqui é muito difícil, ainda que eu queira mudar esse cenário de dor, eu sempre vejo meu filho caído no chão. A vida perde o sentido quando uma mãe perde um filho, mas vou continuar pelo meu filho.” O relato é de Taua, mãe de Wellington Brito, uma das vítimas da chacina dos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, que completou um ano em 28 de outubro. O Voz das Comunidades acompanhou um ato que reuniu familiares das 122 vítimas, moradores e movimentos sociais na Vila Cruzeiro. “Pisar aqui é voltar para aquele dia, é reviver aquele pesadelo. Estou aqui por reparação, por justiça, é por mim, pela minha dor, pela dor de outras mães, pela memória do meu filho”, afirma Rakhel Rios, mãe de Yago Ravel.
🔸 “Só quem mora em comunidade sabe o que acontece nas operações policiais. A mídia mostra o que quer, mas a realidade é o morador que vive. Até quando a gente vai precisar sangrar e perder os nossos filhos?”, questiona Maiara Oliveira. Em outubro de 2020, ela foi baleada na barriga durante uma operação no Conjunto de Favelas da Maré, na zona norte do Rio. Grávida de quatro meses, então com 20 anos, Maiara perdeu o bebê, permaneceu 25 dias em coma induzido e ficou internada por 40 dias. O Maré de Notícias reconstrói o episódio e mostra as dificuldades enfrentadas pela jovem para obter justiça. Não houve perícia no local do disparo, e ela só participou de um reconhecimento fotográfico dos agentes seis anos depois, com imagens atuais dos policiais. A advogada Marcela Cardoso, da Redes da Maré, conta que Maiara chegou a passar quatro anos sem informações sobre o inquérito. Ela agora busca o desarquivamento do caso e uma indenização do Estado. “Não foi só o meu corpo. A minha vida mudou. Eu nunca mais tive uma vida normal.”

📮 Outras histórias
Movimentos sociais de Santarém, no oeste do Pará, cobram participação no Comitê de Gestão de Riscos e Queimadas e Mudanças Climáticas, criado pela prefeitura em junho de 2025 sem representantes da sociedade civil. O Tapajós de Fato explica o contexto da reivindicação: o agravamento dos incêndios florestais na região, que fizeram o município registrar qualidade do ar classificada como “péssima” em outubro. Santarém também chegou a liderar o ranking nacional de focos de incêndio, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A prefeitura decretou situação de emergência devido à estiagem do rio Tapajós, em 15 de outubro, e anunciou a proibição do uso do fogo por 180 dias. A Frente pelo Clima, que reúne organizações e movimentos sociais, considera as medidas insuficientes e cobra políticas permanentes de prevenção e responsabilização por incêndios criminosos em áreas sob pressão da especulação imobiliária.
📌 Investigação
“Eu não quero mais ninguém comendo aqui não, eu quero que vocês do PT vão tudo tomar no cu, vão tudo pra puta que pariu. Que vocês passem fome, e que venham me pedir ajuda e eu não vou ajudar.” Foi assim que o patrão de Lúcia (nome fictício), empregada doméstica, reagiu à reeleição de Lula, ao encontrar duas faxineiras almoçando em sua casa, no dia seguinte à votação. Lúcia, que trabalha para a família há anos e tem carteira assinada, foi ameaçada de demissão por seu posicionamento político. “Eu postava bastante coisa, e eu sabia que eles eram Bolsonaro, porque eles viam meus status [do Whatsapp] e ficavam tentando me convencer a votar no Flávio, falando um monte de coisa na minha cabeça”, conta. A revista AzMina mostra como patrões bolsonaristas têm perseguido e ameaçado domésticas. “O assédio é maior contra trabalhadoras domésticas porque elas não têm testemunhas”, diz a advogada Tainã Gois. “Elas estão dentro da casa dos patrões, que podem alegar que estão falando com a família.” A perseguição política ganhou força nas redes sociais, incentivada por empresários e parlamentares como Índia Armelau (PL-RJ), Jéssica Ramos Moreno (PL-PR) e Guilherme Kilter (Novo-PR). O Ministério Público do Trabalho recebeu 1.459 denúncias de assédio eleitoral entre os dias 26 e 29 de outubro.

🍂 Meio ambiente
Um incêndio de grandes proporções atingiu a savana e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Alter do Chão, em Santarém, no oeste do Pará, formando uma linha de fogo de pelo menos 1,4 quilômetro de extensão. As chamas, intensificadas pela seca extrema, pelas altas temperaturas e pelos ventos, alcançaram áreas de floresta próximas ao Lago Verde. Segundo a Carta Amazônia, uma força-tarefa formada por brigadistas voluntários, integrantes do Corpo de Bombeiros e lideranças indígenas conseguiu controlar as duas principais frentes do incêndio, mas ainda havia focos subterrâneos na margem do lago e nas proximidades da nascente de um igarapé. O povo indígena Borari, por meio da Associação Ipuringa e do cacicado liderado pelo Cacique Saúde, participou diretamente do planejamento das estratégias de combate. “Alter do Chão não é apenas um balneário ou uma vila. Ela é um território sagrado para nós”, afirmaram as lideranças em nota.
📙 Cultura
Grupos de fãs de artistas internacionais como Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga, Olivia Rodrigo e BTS mobilizaram suas comunidades nas redes em apoio à reeleição de Lula. Os fandoms, que reúnem centenas de milhares de seguidores, colocaram seus perfis à disposição da campanha, convocaram manifestações de rua e chegaram a suspender temporariamente as disputas entre fãs de artistas rivais, conhecidas como fanwars. Em artigo no The Conversation Brasil, as pesquisadoras Adriana Amaral, Beatriz Blanco e Luisa de Mesquita detalham uma pesquisa do Laboratório de Pesquisa em Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias (CULTPOP), da Universidade Federal Fluminense (UFF), que analisou como os fandoms contribuíram para a campanha. Entre os principais achados está o uso de técnicas de engajamento típicas das comunidades de fãs, como a organização coletiva para impulsionar hashtags e aumentar visualizações de vídeos, com metas, prazos e tarefas coordenados por WhatsApp e Instagram. Outro diferencial foi o protagonismo de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, que levaram à campanha referências da cultura pop, memes, ironia e sarcasmo, associados ao dark woke, uma forma mais combativa de expressão progressista nas redes.
🎧 Podcast
“A primeira coisa que a rua mostra é que é muito importante você se sentir parte de um grupo e ver que as pessoas que pensam como você, ou querem um projeto de país próximo do seu, são muitas”, afirma Bianca Tavolari, professora da Fundação Getulio Vargas e pesquisadora do Cebrap. No “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, ela e o professor de direito da USP Conrado Hübner Mendes analisam a reeleição de Lula, a mobilização popular no segundo turno e os desafios à democracia brasileira. Os dois destacam o engajamento de jovens, que organizaram ações para dialogar com eleitores indecisos e mobilizar pessoas de outras gerações. “Teve uma coisa de polos geracionais se encontrando para dizer: ‘precisa de todo mundo!’”, resume Tavolari. Para ambos, a vitória eleitoral não elimina as ameaças autoritárias e exige mobilização social contínua, fortalecimento das instituições e respostas às desigualdades.

🙋🏾♀️ Raça e gênero
“Há uma indiferença com as travestis mais velhas. Quando olham para a gente, olham com desprezo, até nos atendimentos médicos”, afirma Esther Antunes, travesti de 66 anos e diretora de teatro. Embora frequentemente se afirme que a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil é de 35 anos, o número não tem comprovação demográfica. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) identificou, em registros administrativos de 2023, 312 pessoas trans entre 60 e 64 anos e outras 1.349 entre 50 e 59 anos, números que não representam toda essa população. A Periferia em Movimento mostra os desafios enfrentados por pessoas trans no envelhecimento, entre a discriminação, o isolamento familiar e a falta de políticas públicas específicas. As dificuldades de acesso à saúde são frequentes. “A gente vai ao SUS e descobre que não há um profissional especializado e, quando há, ele se nega a prestar atendimento para os corpos trans, com a justificativa de não saber lidar com esses tipos de corpo”, diz Maya Schneyder, mulher trans de 48 anos.
