🔸 A derrota expressiva de Donald Trump nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos abre dois cenários para as relações com o Brasil: um presidente norte-americano mais radicalizado, que poderia intensificar sua atuação na política externa, ou um Trump enfraquecido, com seus movimentos limitados pelos novos contrapesos no Congresso e por processos judiciais. Em artigo no Jota, a jornalista Vivian Oswald afirma que o governo do presidente Lula (PT) pretende aguardar os desdobramentos da eleição antes de definir sua estratégia de negociação com Washington. Em qualquer dos cenários, Trump estará mais isolado politicamente, e o comportamento de seus aliados, especialmente do secretário de Estado, Marco Rubio, será determinante para os rumos da política norte-americana na América Latina. A derrota também pode enfraquecer a política de tarifas comerciais de Trump, cujo impacto sobre a inflação, somado à guerra do Irã, contribuiu para o desgaste dos republicanos nas urnas. Setores do partido já defendem uma revisão da estratégia intervencionista na economia.
🔸 A vitória dos democratas pode impor limites à influência dos bilionários de tecnologia sobre o governo Trump. Desde o início do segundo mandato do republicano, executivos das big techs se aproximaram da Casa Branca por meio de doações, presentes e encontros com o presidente, em busca de apoio político e de menos regulamentação. Em análise no Núcleo, Sérgio Spagnuolo avalia que, com a nova maioria no Congresso, os democratas poderão abrir investigações, convocar executivos para prestar esclarecimentos e pressionar por regras mais rigorosas para o setor. Entre os episódios que podem entrar na mira estão o acordo judicial de mais de US$ 24 milhões firmado pelo YouTube com Trump e seus aliados, a atuação de Elon Musk à frente do DOGE e as tentativas de empresas como Meta, OpenAI e Anthropic de evitar regulações sobre inteligência artificial e data centers. Os efeitos podem chegar ao Brasil, onde a regulação das plataformas enfrenta resistência no Congresso.
🔸 “Pra mim não faz sentido nenhum que os EUA estejam aceitando uma pessoa que está literalmente fugindo da Justiça no Brasil e, enquanto isso, está deportando uma empregada doméstica.” A crítica à política de imigração de Donald Trump é de Felipe Sousa-Lazaballet, 40 anos, primeiro brasileiro eleito deputado estadual na Flórida. Nascido em Duque de Caxias (RJ), filho de uma empregada doméstica cearense, ele se mudou para os Estados Unidos aos 14 anos e construiu sua trajetória política na defesa dos direitos de imigrantes e da população LGBTQIA+. Em entrevista à Agência Pública, questiona o tratamento dado pelo governo Trump a Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu do Brasil após perder a eleição presidencial. Sousa-Lazaballet, que também se tornou o primeiro imigrante abertamente gay a integrar a Assembleia Legislativa da Flórida, afirma que a vitória democrata nas eleições de meio de mandato foi impulsionada sobretudo pelas preocupações econômicas. “O que realmente está fazendo as pessoas votarem aqui é o custo de vida, essa ideia de que o sonho americano cada vez está mais difícil de conseguir.”

📮 Outras histórias
Em votação relâmpago nesta semana, a Câmara Municipal de Olinda (PE) aprovou um projeto de lei que flexibiliza as regras de uso e ocupação do solo no Sítio Histórico da cidade, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. A proposta, aprovada por dez votos a dois, permite ampliar a presença de bares, casas de festas, shows e eventos em uma área que vai da Praça do Carmo à Praça Dantas Barreto, incluindo a Rua do Sol e o entorno do Fortim de São Francisco. Também facilita a concessão provisória de alvarás de funcionamento. Segundo o Marco Zero, a votação ocorreu sem consulta ao Conselho de Preservação e sem participação efetiva de moradores e comerciantes. Urbanistas e moradores criticam a rapidez da tramitação e a ausência de estudos técnicos. “O que a gente vem observando, aqui no Sítio Histórico é que, sequencialmente, a moradia está sendo substituída por outros usos ou está sendo abandonada. Se vocês observarem, o Sítio Histórico de Olinda está praticamente à venda”, afirmou a arquiteta e urbanista Vera Milet, ex-presidente do Conselho de Preservação.
📌 Investigação
Dois anos após uma operação policial que terminou com dois trabalhadores sem-terra mortos na Fazenda Mutamba, em Marabá, no sudeste do Pará, sobreviventes contam que policiais teriam movimentado os corpos e disparado espingardas antes de posicioná-las junto às vítimas para simular um confronto. A Repórter Brasil analisou milhares de páginas de documentos oficiais e foi a campo para ouvir, com exclusividade, trabalhadores sem-terra e policiais civis com conhecimento sobre aquela madrugada de outubro. A perícia classificou a cena do crime como “inidônea”, indicando possíveis alterações, e dois laudos oficiais divergem sobre a trajetória do tiro que matou Edson Pereira da Silva, de 43 anos. A outra vítima foi Adão Rodrigues de Sousa, de 53 anos. O repórter Daniel Camargos também revela detalhes da atuação do delegado Antônio Mororó Júnior, um dos comandantes da operação, que mantém relações próximas com dirigentes ruralistas da região e ascendeu na hierarquia da Polícia Civil após as mortes. Embora cinco agentes tenham admitido disparar contra os trabalhadores, o inquérito não identificou de quais armas partiram os tiros fatais.

🍂 Meio ambiente
“Para respirar é uma coisa muito ruim, parece que a gente tá numa caixa e colocaram fumaça ali até asfixiar. A impressão que eu tenho é de estarem nos matando aos poucos.” O relato é da pedagoga Rafaela Fonseca, 52 anos, moradora do Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito, em Manaus, onde a fumaça das queimadas que atingiram o Amazonas em outubro comprometeu a saúde e alterou a rotina da população. A concentração de partículas finas de poluição chegou a níveis 80 vezes superiores ao limite anual recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A Amazônia Latitude mostra como a crise está relacionada à expansão da fronteira agropecuária, especialmente da pecuária extensiva, que utiliza o fogo para abrir novas áreas e renovar pastagens. Entre 1º de setembro e 19 de outubro, o Amazonas registrou 5.647 focos de calor, aumento de 195% em relação ao mesmo período de 2025. Segundo o MapBiomas, a agropecuária foi o principal vetor de 99% do desmatamento no estado em 2025.
📙 Cultura
Às vésperas de completar 80 anos, em 29 de novembro, a escritora Conceição Evaristo prepara novos lançamentos, celebra o reconhecimento de sua obra e reflete sobre a literatura que construiu a partir da memória, da ancestralidade e da experiência negra. Em entrevista à Quatro Cinco Um, ela fala sobre o rigor de seu processo criativo e a relação com as personagens. “Não escolhi ser escritora, mas, sim, escrever. O público me dá esse status na medida em que é seduzido e se interessa por minhas histórias. Estou convencida do meu papel e o levo muito a sério.” Ao explicar a linguagem de seus livros, marcada pela oralidade e pelas conversas de família, afirma: “É uma linguagem marcada pelo falar mineiro, escrita na gramática do cotidiano. Sinto um prazer imenso em fazer isso. Os momentos de criação me emocionam. Me cumplicio com minhas personagens”. Ao tratar da escrevivência, conceito que criou, distingue a experiência coletiva da escrita centrada exclusivamente no indivíduo. “Por isso, digo que a escrevivência sou eu/nós. Há subjetividade, porque cada uma produz uma escrita. Mas a diferença não te isola. Ela te impele a ser responsável pelo outro.”
🎧 Podcast
Quem foi Elsie Houston, cantora brasileira que encantou os modernistas, apresentou-se no Carnegie Hall e no Rockefeller Center, em Nova York, e levou cantos do candomblé aos palcos dos Estados Unidos nos anos 1930? No “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, a jornalista Flora Thomson-DeVeaux reconstrói a trajetória da artista, nascida no Rio de Janeiro em 1902 e criada em uma família abastada de Niterói. Com formação em canto lírico, Elsie viveu em Paris, conviveu com nomes como Villa-Lobos, Mário de Andrade e Pagu e se dedicou à pesquisa da música popular brasileira. “Ela não queria ser só cantora. Ela estava pesquisando, ela estava viajando... Vou falar dela, vou precisar falar de surrealismo, vou precisar falar de política de boa vizinhança… trotskismo, feminismo... Muitas gavetinhas!”, conta a pesquisadora musical Biancamaria Binazzi.

💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
“Conversando com os nossos anciões, eles falam também que quando o fogo vem com intensidade na nossa direção, a gente tem que sussurrar, ou assobiar para o fogo, para ele se acalmar. Ou quando vai acender uma fogueira, a gente grita para animar o fogo.” É assim que Talia Gavião, 28 anos, explica parte dos conhecimentos ancestrais que orientam seu trabalho no combate aos incêndios florestais. Primeira mulher a integrar uma brigada de fogo no Maranhão, ela hoje comanda uma equipe de 16 pessoas na Terra Indígena Governador, território de aproximadamente 42 mil hectares onde vivem os povos Gavião Pykopjê, Guajajara e Tabajara. A Amazônia Vox acompanha a rotina de Talia, mãe de dois filhos, e mostra como ela enfrenta o preconceito por ser mulher em uma atividade historicamente masculina, além das dificuldades de conciliar a maternidade com períodos de vários dias em campo. Ela conta que decidiu se tornar brigadista depois de presenciar dois grandes incêndios, em 2015 e 2017, que devastaram parte de seu território. “A gente tem o nosso sustento da natureza. Depois desses anos críticos, abrimos os olhos para a necessidade de agir.”
