🔸 A Polícia Federal investiga a suspeita de que recursos de emendas parlamentares tenham sido desviados para financiar “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Ontem, com a Operação Make Up, a PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal, incluindo endereços do deputado federal Mário Frias (PL-SP) e da produtora Karina Gama, dona da Go Up Entertainment. O Terra explica a investigação em cinco pontos. Segundo o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), há “fortes indícios” de que Frias seja o “agente central” de uma organização criada para captar e ocultar recursos públicos. O deputado destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina, e a investigação apura peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. A PF identificou ainda movimentações atípicas nas contas da Go Up durante as filmagens, entre outubro e dezembro de 2025. A produtora movimentou R$ 19 milhões e recebeu R$ 645,4 mil de Frias e R$ 750 mil de uma empresa ligada, segundo os investigadores, a repasses iniciados com recursos públicos recebidos pelo ICB.
🔸 A propósito: relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citados por Flávio Dino apontam indícios de que dinheiro público recebido pelo ICB retornava à esfera de Karina Gama por meio de empresas terceirizadas. O Metrópoles detalha o mecanismo adotado para os repasses. O ICB havia firmado contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar e manter pontos de wi-fi. Segundo a decisão de Dino, empresas contratadas pelo instituto repassaram ao menos R$ 6,1 milhões à Academia Nacional de Cultura (ANC), também presidida por Karina, em operações que coincidiram com o período de produção de “Dark Horse”. Entre os casos citados, a Ultra IP recebeu R$ 8,5 milhões do ICB e transferiu R$ 1,3 milhão à ANC; a Fastfuture recebeu milhões do instituto e também fez repasses à entidade; e a Complexys, que prestava serviços ao gabinete de Mário Frias, recebeu R$ 5 milhões do ICB e depois pagou R$ 2,6 milhões à ANC. Os repasses cessaram após o fim da produção do filme.
🔸 Na operação de ontem, a PF apreendeu duas armas de cano longo e cinco pistolas de Mário Frias. Segundo a corporação, as armas não estavam no endereço registrado, o que configuraria crime de porte ilegal de armas de fogo. O arsenal explica como o deputado se aliou ao bolsonarismo e ganhou poder político. A Agência Pública reconstrói a trajetória de Frias e mostra como o ex-ator de “Malhação” passou da Secretaria Especial de Cultura na gestão Bolsonaro ao centro da articulação política e financeira em torno de “Dark Horse”. No governo, ele defendeu, ao lado de André Porciuncula, o uso da Lei Rouanet por grupos armamentistas. Em 2022, elegeu-se deputado federal por São Paulo, depois de receber mais de R$ 1,4 milhão da direção nacional do PL para a campanha. Já no mandato, tornou-se um dos principais idealizadores e produtor executivo de “Dark Horse”. Agora, o deputado está impossibilitado de deixar o país por ordem de Flávio Dino.
🔸 Representantes de 15 organizações da sociedade civil brasileira viajaram aos EUA para alertar autoridades e entidades sobre o risco de interferência americana nas eleições de outubro. Em artigo na revista piauí, Paulo Abrão, diretor executivo do Washington Brazil Office e integrante da missão, conta que o grupo realizou cerca de 20 reuniões com congressistas e assessores, diplomatas, organizações de direitos humanos, sindicatos, think tanks e organismos internacionais. A preocupação central era a atuação de setores do governo Donald Trump e de aliados de Flávio e Eduardo Bolsonaro para pressionar instituições brasileiras, questionar a legitimidade do processo eleitoral e favorecer a candidatura da extrema direita. “Nossa comitiva saiu dos EUA mais preocupada do que chegou”, resume Abrão.
📮 Outras histórias
Metade dos planos de governo dos candidatos ao governo de Sergipe quase não apresenta propostas voltadas diretamente aos professores, revela a Mangue a partir dos documentos registrados no TRE-SE. O governador Fábio Mitidieri (PSD), candidato à reeleição, cita os docentes apenas uma vez em um plano de 34 páginas e não apresenta proposta específica para a categoria. Emanoel Cacho (PSDB) e Taty Cristina (DC) também fazem uma única menção aos professores, sem medidas concretas. Valmir de Francisquinho (Republicanos) e Dr. Helton (PSOL) são os que mais citam os professores, com 14 e 12 referências, respectivamente, e também apresentam mais propostas concretas para a educação. Ricardo Marques (PL) menciona os docentes sete vezes e propõe, entre outros pontos, a retomada do plano de carreira. No geral, porém, os programas são frágeis: faltam diagnósticos consistentes sobre a rede estadual, metas, prazos e fontes de recursos.
📌 Investigação
Uma megaoperação de combate ao trabalho escravo em todo o país resgatou 479 pessoas em 231 ações de fiscalização no mês passado. Entre as vítimas estavam 13 crianças e adolescentes, 75 mulheres, nove trabalhadoras domésticas e 68 migrantes de oito países. Segundo a Repórter Brasil, com os novos casos, o Brasil ultrapassou a marca de 70 mil pessoas libertadas de condições análogas à escravidão desde 1995, quando criou o sistema nacional de fiscalização. O Sudeste concentrou a maior parte dos resgates, com 267 trabalhadores, 208 deles em Minas Gerais. Em Belo Horizonte, duas mulheres negras, hoje com 90 e 65 anos, foram resgatadas após permanecerem 75 e 58 anos, respectivamente, vinculadas a uma mesma família, transferidas de uma geração de empregadores para outra. Os fiscais relatam que elas faziam tarefas domésticas sem descanso semanal, direitos trabalhistas ou liberdade para construir uma vida própria.
🍂 Meio ambiente
Até uma floresta tropical úmida, que naturalmente não deveria conviver com o fogo, tem queimado repetidamente na Amazônia. Na Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi, no Maranhão, o Amazônia Vox acompanha a geógrafa Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que identifica nas copas abertas, nos troncos escurecidos e nas cinzas escondidas sinais de incêndios que muitas vezes passam despercebidos. A unidade protege 271,4 mil hectares e é a única área de proteção integral do estado, cercada por fazendas, assentamentos, ocupações irregulares e áreas pressionadas pela exploração madeireira e pela expansão agropecuária. Em 2024, quase 26 mil hectares queimaram, mais que o dobro da área de 2023. A geógrafa explica que, nas florestas tropicais úmidas, quando há queima, a biodiversidade é perdida e precisa de décadas para se recuperar. Se uma área volta a queimar antes de concluir essa recuperação, perde capacidade de armazenar carbono, fica mais seca e mais suscetível ao próximo incêndio.
📙 Cultura
Na imensa pintura no Edifício Garagem, no centro de São Paulo, uma figura indígena carrega um balde de água enquanto a floresta está em chamas ao fundo. Autor do mural “O Chamado da Floresta”, o artista amazônida Denilson Baniwa questiona a representação dos povos indígenas como “guardiões da natureza”. Para ele, essa ideia simplifica a relação com o território e apaga suas lutas. “Existe conhecimento, manejo, ciência, política e responsabilidade coletiva. A floresta não é cenário, é parte de um sistema de vida complexo”, afirma. A Emerge Mag mostra como artistas indígenas têm usado a arte para denunciar a crise climática, preservar memórias e questionar a exploração dos territórios. É o caso da artesã Daniela, da aldeia Tekoa Yvy Porã, no Jaraguá, em São Paulo, que transforma referências da fauna e da flora em acessórios feitos de memória, e de Moara Tupinambá, que questiona representações construídas sobre os povos originários.
🎧 Podcast
A igualdade racial é condição da própria democracia brasileira, e não uma “pauta identitária”. É o que afirma a historiadora e pesquisadora de relações raciais e de gênero Wania Sant’Anna. Presidenta do Conselho de Governança do Ibase e membro da Coalizão Negra Por Direitos e do Pacto pela Equidade Racial, ela é a entrevistada da série especial “Democracia com Direitos”, fruto da parceria do podcast “Direitos Humanos em Ação” com o “Guilhotina”, produção do Le Monde Diplomatique Brasil. Na conversa, Wania discute como o racismo continua organizando desigualdades e rebaixando a condição humana da população negra, apesar da ideia, hoje cada vez mais contestada, de que o Brasil teria construído uma democracia racial. Ela relaciona essa permanência à herança de mais de três séculos de escravização, ainda visível nas relações de trabalho, na precarização que atinge sobretudo pessoas negras e na própria dificuldade dos partidos em abrir espaço para candidaturas negras e femininas.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Às vésperas das eleições, ações de políticos de direita em universidades públicas têm transformado os campi em palco de confronto, visibilidade e disputa eleitoral. É o que afirma Álex Kalil, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela Unifesp, em artigo no The Conversation Brasil. Ele cita episódios recentes na USP e na Unicamp, como a tenda montada pelo vereador e candidato a deputado federal Lucas Pavanato (PL-SP), inspirada no modelo da organização Turning Point USA, e intervenções do MBL e de outros políticos registradas por câmeras e transformadas em cortes para as redes sociais. Para Kalil, cenas localizadas passam a ser apresentadas como prova de uma suposta “hegemonia de esquerda” nas universidades: alguns estudantes aparecem como “a esquerda”, suas reações como intolerância, e o político ocupa a posição de quem se dispõe a enfrentá-los. “A operação reproduz, assim, aquilo que denuncia: reivindica para os conservadores o pluralismo político que retira de seus adversários”, escreve.



