Olá, bom dia!
Esta é uma edição especial da Brasis. Reunimos aqui reportagens sobre o caso Master e seus desdobramentos. Ao longo de setembro, vazamentos da investigação e novas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostraram a extensão do caso, com políticos e ministros do STF envolvidos com o ex-banqueiro, preso desde março de 2026.
Partimos das revelações mais recentes, como os voos de Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes em um avião ligado a Vorcaro, e voltamos aos acontecimentos que levaram ao confronto entre ministros, Polícia Federal e presidência do STF. A discussão sobre uma possível investigação de Moraes terminou sem decisão no plenário do Supremo.
As associadas à Ajor acompanham de perto o caso. Ao longo da cobertura, obtiveram documentos, revelaram informações exclusivas e produziram análises sobre os rumos da crise. Reunimos parte desse trabalho nesta edição como forma de reforçar a importância do trabalho jornalístico para a democracia e, com uma curadoria do melhor do jornalismo digital brasileiro, informar nossos leitores às vésperas das eleições.
Boa leitura!
🔸 Flávio Bolsonaro (PL) viajou com a mulher e as duas filhas em um jato ligado a Daniel Vorcaro ao voltar de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília, em 19 de janeiro de 2025. A revista piauí identificou o avião como o Legacy 650 de prefixo PP-NLR. A empresa Prime You, que tinha então Vorcaro como um dos sócios, já era dona de um terço das cotas da aeronave na data do voo. O advogado e empresário Willer Tomaz, amigo do candidato à Presidência pelo PL e investigado no esquema de desvios bilionários do INSS, estava a bordo com Flávio e era dono de outro terço da aeronave. A viagem ocorreu durante as negociações para que Vorcaro financiasse “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. No dia seguinte ao desembarque, Flávio cobrou de um intermediário uma resposta do jurídico do investidor sobre o primeiro aporte previsto para o filme.
🔸O mesmo avião aparece em outra revelação do mês. Um vídeo mostra o ministro do STF, Alexandre de Moraes, e sua companheira, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando da aeronave no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. O Metrópoles lembra que as imagens contradizem uma declaração feita pelo gabinete do magistrado em abril. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece”, dizia a nota. O voo ocorreu em agosto de 2025, quando o Banco Central já havia apontado fortes indícios de gestão fraudulenta nas operações entre o Master e o Banco de Brasília. O escritório de Viviane, que mantinha contratos milionários com empresas de Vorcaro, afirmou anteriormente que contratava serviços de táxi aéreo da Prime Aviation e que os valores eram compensados nos honorários advocatícios.
🔸 A ligação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro não se resume ao voo. O ex-banqueiro fez um repasse de US$ 1,66 milhão para “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, em 16 de setembro de 2025, mostra a revista piauí. O valor foi pago oito dias depois de Flávio cobrar de Vorcaro parcelas atrasadas do financiamento, episódio revelado pelo Intercept Brasil. Com essa parcela, o total comprovadamente enviado pelo banqueiro ao projeto chegou a US$ 12,3 milhões. A data do pagamento contraria a afirmação de Flávio de que os repasses haviam terminado em maio. Há indícios de mais uma parcela em 22 de outubro: após nova cobrança do filho de Bolsonaro, Vorcaro disse ao publicitário Thiago Miranda, intermediário da captação: “Liberei mais uma hoje”. Se o pagamento de US$ 1,6 milhão foi efetivado, o total desembolsado chega a cerca de US$ 14 milhões.
🔸 Mensagens obtidas pela CartaCapital apontam outra possível aproximação. Vorcaro pediu que o empresário Flávio Carneiro mantivesse em segredo uma reunião com Jair e Flávio Bolsonaro no fim de 2024. Carneiro, suspeito de ser sócio oculto do dono do Banco Master, perguntou em 8 de dezembro se ele iria a “um jantar com meu xará e com o pai dele”. No dia seguinte, Vorcaro retomou o assunto: “Cara. Não fala dessa reunião bolso pra ninguém. Esse negócio acaba comigo. Fábio já veio falar”. As mensagens não permitem saber se o encontro ocorreu. Investigadores do caso identificam o “xará” como Flávio Bolsonaro e o pai como o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo fontes ligadas à investigação, o “Thiago” que cobrava uma resposta sobre o jantar seria o publicitário e lobista Thiago Miranda, então sócio do Grupo Léo Dias de Comunicação.
🔸 As relações examinadas pela Polícia Federal vão além da família Bolsonaro e de Moraes. A PF suspeita que o ministro Dias Toffoli seja o beneficiário final ou proprietário de fato do fundo Arleen, que recebeu ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro. O fundo era sócio do resort Tayayá, pertencente a Toffoli e seus familiares, em Ribeirão Claro (PR). Em fevereiro de 2025, passou para o empresário Alberto Leite, amigo do ministro; no mês seguinte, seu regulamento foi alterado para permitir investimentos no exterior e, em dezembro, cerca de R$ 34 milhões foram transferidos para uma holding registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. A revista piauí teve acesso a um relatório de 196 páginas da PF sobre as relações entre Toffoli e Vorcaro e revela ainda que o ex-banqueiro usava festas para estreitar relações e conquistar aliados estratégicos. Em outubro de 2023, Vorcaro promoveu uma festa de Halloween no Madame Satã, em São Paulo, com cerca de 20 homens e 120 mulheres, metade estrangeiras, e “só menina nova”, como ressaltou. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, ficou encarregado de convidar os homens. Nas conversas, Faria disse que Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco estavam confirmados e que havia convidado Toffoli; também foram mencionados Arthur Lira, Alexandre de Moraes, Ciro Nogueira e Wesley Batista.
🔸 Kassio Nunes Marques é outro ministro citado em apurações sobre Vorcaro. Um contrato de advocacia de R$ 427 milhões expôs a atuação de pessoas chamadas em mensagens do ex-banqueiro de “Turma do KN”. Assessores usavam a expressão para se referir ao desembargador Newton Ramos e à mulher dele, a advogada Camilla Ramos. As iniciais “KN” remetem a Nunes Marques, de quem o casal é próximo. O escritório de Camilla atuava em ações que poderiam render R$ 8,5 bilhões em precatórios ao Banco Master. Os honorários de R$ 427 milhões dependiam do êxito nesses processos, revela o Metrópoles. Nunes Marques votou a favor de uma tese que beneficiava as usinas ligadas aos precatórios, e Camilla comemorou seu voto em mensagem a Vorcaro. Outras conversas mostram pedidos de hospedagem atribuídos ao ministro. Ele nega ter pedido algo ao ex-banqueiro ou votado a favor dele e do Master.
🔸 Outra apuração sobre Nunes Marques passa por um apartamento que pertencia a uma empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. No imóvel, teria ocorrido um encontro entre o ministro e uma profissional do sexo supostamente paga pelo ex-banqueiro. Levantamento da Alma Preta e do ICL Notícias mostra que o imóvel estava registrado em nome da Super Empreendimentos e Participações. Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro dos esquemas de lavagem de dinheiro do Banco Master, foi diretor da companhia entre 2021 e 2024. Nas conversas, uma mulher identificada como Rayanna informa a Vorcaro, em 28 de fevereiro de 2025, que “as meninas estão prontas”, e recebe dele o endereço do triplex, no Itaim Bibi, em São Paulo. Uma semana depois, ela afirma que uma amiga teria ficado com “Kassio” e cobra o pagamento. O ministro nega o encontro.
🔸 Mais um ministro na história do Banco Master: André Mendonça se reuniu com Vorcaro antes de assumir a relatoria do caso. O magistrado confirmou o encontro, que teria durado cerca de duas horas, em 14 de março de 2025. Segundo o Metrópoles, a aproximação foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), quando aumentava a pressão institucional sobre o banco. Mendonça afirmou que recebeu Vorcaro por iniciativa do empresário e “se limitou a ouvi-lo” sobre créditos de precatórios de interesse da instituição.
🔸 Foi Mendonça quem retirou o sigilo do material sobre o Master e expôs a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também foram citados. Segundo a PF, Moraes teria lido e sugerido alterações no contrato de R$ 131 milhões firmado entre o banco e o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O Jota mostra as conversas e conta que Vorcaro demonstra proximidade com o ministro. Dois dias antes de sua prisão, o ex-banqueiro perguntou a Moraes se deveria deixar o país: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Em outra mensagem, escreveu: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós, têm uma dívida de vida contigo e sua família”.
🔸 O conflito sobre a condução da investigação, porém, vinha de antes da divulgação das mensagens. Em julho, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, pediu sigilosamente à Advocacia-Geral da União que tomasse “as eventuais providências cabíveis” contra uma decisão de Mendonça, então relator do caso Master no STF. O ministro havia determinado que a equipe de investigadores fosse mantida e que qualquer troca de integrantes lhe fosse comunicada previamente. Também ordenou o envio ao seu gabinete do material bruto extraído dos aparelhos apreendidos. No ofício obtido pela Agência Pública, a PF contestou o que considerava uma interferência na administração da investigação. A corporação afirmou que não havia indício de irregularidade em sua atuação e classificou como “desarrazoada” a limitação de suas atribuições. A AGU recusou o pedido.
🔸 Depois que o material veio a público, o embate entre os ministros engrossou. Moraes acusou Mendonça de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, informou o Metrópoles. Em documento enviado ao presidente da Corte, Edson Fachin, Moraes pediu providências. Segundo ele, Mendonça teria perdido a imparcialidade na condução das investigações relacionadas a Vorcaro e favorecido determinados grupos políticos. Moraes afirma que o colega direcionou alvos de investigação, entre eles o próprio ministro e o senador Davi Alcolumbre (União-AP), e teria participado de forma irregular de tratativas sobre uma possível colaboração premiada do ex-banqueiro. Também cita “indícios crescentes de enviesamento” na supervisão judicial e acusa Mendonça de usurpar a direção das investigações policiais.
🔸 A disputa atingiu a direção da Polícia Federal. Ao determinar o afastamento de Andrei Rodrigues e de outro diretor da corporação, Mendonça alegou “superlativa gravidade e ilicitude” na produção de relatórios de inteligência usados por Moraes para pedir investigação contra ele. Segundo o Jota, Mendonça afirma que a PF produziu ao menos seis relatórios, entre 3 e 31 de agosto, monitorando ele próprio e Jorge Messias, prática que classificou como “arapongagem institucional”. A 2ª Turma do STF formou maioria para manter o afastamento de Rodrigues. Gilmar Mendes pediu vista e suspendeu o julgamento, mas Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça. As decisões contraditórias levaram Edson Fachin a intervir. O presidente do STF retirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news e suspendeu as liminares de Mendonça e Flávio Dino: o primeiro havia afastado Andrei Rodrigues da direção-geral da PF; o segundo, determinado sua reintegração. Fachin também convocou uma sessão extraordinária para discutir os procedimentos relacionados ao caso Master e às mensagens entre Vorcaro e Moraes.
🔸 A sucessão de decisões expôs uma crise que vai além do caso Master, segundo pesquisadores ouvidos pelo Nexo. “O Judiciário brasileiro vem padecendo do problema de um certo isolamento em relação a que tipos de práticas éticas seriam relevantes para consolidar uma posição institucional legítima perante a sociedade”, afirma Emílio Meyer, professor de direito constitucional da UFMG. Ele critica tanto Moraes, pelas questões éticas envolvendo o contrato do banco com o escritório de sua esposa, quanto Mendonça, que retirou o sigilo de uma investigação de grande impacto político às vésperas da eleição. Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional da USP, afirma que os ministros estão “menosprezando as constantes e já antigas críticas da sociedade”. Para ele, um código de conduta não resolveria sozinho o problema, mas seria uma forma de a Corte prestar explicações à sociedade.
🔸 No dia 15 de setembro, enfim, veio a sessão no STF. Seria a primeira vez em 135 anos que a Corte decidiria sobre abrir ou não uma investigação criminal contra um de seus integrantes (neste caso, Moraes). Mas nada foi decidido. Flávio Dino pediu vista e ganhou até 90 dias para devolver o processo, mas indicou que pode esperar o fim das eleições. Também ficou pendente a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes para suspender o julgamento, reunir os procedimentos contra Moraes e André Mendonça e sortear um novo relator. O Jota detalhou a sessão marcada por acusações, insultos e gritos entre os ministros. O decano Gilmar Mendes acusou Mendonça de explorar eleitoralmente o caso ao retirar o sigilo das mensagens antes do 7 de Setembro e o classificou como “pixuleco” e “boneco eleitoral”. Mendonça respondeu que o colega estava sendo leviano: “Não aponte o dedo para mim, não está falando com qualquer um”. Gilmar retrucou que “quem não se dá o respeito, não merece respeito”.
🔸 As guerras de ofícios, os vazamentos e as estratégias processuais revelam um STF dividido e pouco comprometido com a própria institucionalidade. A avaliação foi feita por especialistas ao Nexo. “O Supremo deve ser repensado”, afirma Flávio Leão Barros Pereira, professor de Direito Constitucional da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Para ele, a judicialização da política e as indicações de ministros de Estado, do Poder Executivo, para ministros do Supremo – como André Mendonça, ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, Flávio Dino, ministro da Justiça de Lula, e Alexandre de Moraes, ministro da Justiça de Michel Temer – permitem desvios.
