O recorde de feminicídios no país e uma linha de energia numa terra indígena
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🔸 Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios já contabilizado no país, com ao menos 1.470 mulheres assassinadas em contextos de violência doméstica, familiar ou por misoginia. O número representa uma média de quatro mortes por dia e supera o recorde anterior, de 2024. Os dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O Metrópoles destaca que a quantidade de vítimas pode ser ainda maior, já que Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo não enviaram as estatísticas referentes ao mês de dezembro de 2025. São Paulo lidera o ranking de casos, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro. Aumentaram também as tentativas de feminicídio, que chegaram a 3.702 em 2025, alta de 16,3% em relação ao ano anterior.
🔸“Não tem sido fácil habitar os últimos meses. No final do ano, uma série de mortes violentas de mulheres ganhou o noticiário. Apesar da comoção pública, a brutalidade dos eventos não é uma novidade”, escreve a antropóloga Isabela Venturosa. Em artigo na revista AzMina, ela afirma que, embora o aumento dos feminicídios no Brasil tenha alimentado respostas baseadas quase exclusivamente no endurecimento das penas, a lógica punitivista não reduz a violência contra as mulheres. “A ampliação de tipos penais e o endurecimento das penas estão longe de resolver alguma coisa. Essas medidas apenas suprem uma demanda moral quando a violência já ocorreu, fazendo pouco para evitar que novos casos aconteçam.”
🔸 A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto enfrenta limitações depois de ter sido lançada de forma abrupta pelo pai do senador, Jair Bolsonaro (PL). Em análise no Jota, Beto Bombig afirma que, até agora, Flávio oferece basicamente o peso do sobrenome e a polarização com Lula, sem apresentar um projeto consistente, base programática ou apoios sólidos no mercado, no setor produtivo e no campo político mais amplo. Esse cenário tem levado setores do campo antipetista a buscar alternativas fora do núcleo familiar de Bolsonaro. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece como nome com maior capacidade de articulação e aceitação no mercado e no agronegócio, mas há quem veja nele falta de “punch” para encarar a disputa presidencial. É aí que entra Ratinho Júnior, que é visto como uma opção viável para unificar a centro-direita, com apoio do PSD e de Gilberto Kassab.
🔸 Já dentro do núcleo bolsonarista, os movimentos recentes de Michelle Bolsonaro e Tarcísio acirraram disputas internas. A ex-primeira-dama conversou com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em tom moderado. A postura, como apurou o Congresso em Foco, surpreendeu positivamente interlocutores da Corte e foi interpretada por analistas como parte de uma estratégia para ampliar sua projeção política e suavizar resistências no Judiciário e no centro político. Ganhou corpo a especulação em torno de uma possível chapa “Michelle-Tarcísio”, o que incomodou o núcleo ideológico da família Bolsonaro, especialmente Carlos Bolsonaro.
📮 Outras histórias
Em Pernambués, um dos bairros mais negros e mais populosos de Salvador está a Sociedade Beneficente 10 de Julho. Criada em 1963, a associação foi decisiva para garantir direitos básicos como água, luz, transporte, escola e posto de saúde à comunidade. A Entre Becos narra a história da organização a partir de moradores e familiares dos fundadores. “Meu avô colocou a pastinha embaixo do braço [na década de 1970] e foi andando de Pernambués até a Barroquinha, onde toda cúpula política se reunia à época. Ele entrou nesse meio, levando a sociedade junto, e dizia ‘vamos bater na porta dos políticos para ver se trazemos benefícios para nossa comunidade’”, conta o atual presidente da organização, Marivaldo Júnior, conhecido como Júnior de Nezinho. Hoje, a sociedade mantém uma rede de voluntários e parceiros com serviços gratuitos de saúde, atividades físicas, cursos e apoio social. São cerca de 500 atendimentos por mês para famílias em situação de vulnerabilidade.
📌 Investigação
Obra irregular de um beach club no sul da Bahia pertence à família Vorcaro. Localizada na Praia de Araçaípe, em Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro, a propriedade está registrada nos nomes de Henrique Moura Vorcaro e sua filha, Natalia Bueno Vorcaro Zettel, respectivamente, pai e irmã de Daniel Vorcaro, o banqueiro no centro do escândalo do Banco Master, investigado pela Polícia Federal. A Agência Pública teve acesso aos documentos e revela que o empreendimento causou o “integral supressão” da vegetação de restinga de uma Área de Preservação Permanente (APP), além da alteração no Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Porto Seguro, área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). As estimativas do mercado imobiliário local indicam que o valor do terreno, de cerca de 6 mil metros quadrados, pode chegar a R$ 25 milhões.
🍂 Meio ambiente
“A gente sentia o mau cheiro da água dos igarapés por conta da quantidade de folhas derrubadas das árvores que caíram na água”, afirma o cacique Powa Noke Koî, do povo Noke Ko’í. A chegada de um linhão de energia no território onde vive rasgou a floresta, secou as nascentes e contaminou os igarapés. A comunidade conviveu com consequências severas para a saúde, como surtos de diarreia e gripe. O segundo episódio de “Guardiões sob Ameaças”, documentário d’O Varadouro, narra os impactos da obra na Terra Indígena Campinas Katukina. Apesar de meses de negociação e de um protocolo de consulta estabelecido, os acordos foram ignorados pela empresa responsável. A luta e resistência dos Noke Ko’í garantiu a criação de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e de um fundo de compensação. Pela derrubada das sumaúmas, foi garantido o valor de R$ 1 milhão, além de recursos destinados à soberania alimentar, como a construção de 52 tanques de piscicultura e casas de farinha.
📙 Cultura
As chuvas do inverno amazônico, entre dezembro e maio, indicam para os Guajajara da Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, que é o tempo de ir para a roça. As mulheres recuperam a vegetação nativa e a medicina deixada pelos ancestrais. Os mestres de cultura repassam as músicas aos novos cantores e animadores do território, que transmitem os conhecimentos aos mais jovens. A Sumaúma conta que foi num período desse que Haidzmora Cintia Santana Guajajara, liderança Tenetehara, cantora e compositora, e seu esposo, Milton, compuseram “O Ninho do Uirapuru”. A canção é inspirada na beleza do ninho do pássaro, construído com penas de outras aves. O uirapuru tem um canto parecido com o som de uma flauta e canta ao mesmo tempo que constrói seu ninho. Segundo a liderança, o canto simboliza “a força, a resistência, a coragem e a busca pelo direito”. O maracá é o instrumento mais utilizado, onde está “a memória dos ancestrais”. Ele dá o ritmo dos pés, numa dança inspirada pelos passos dos pássaros na qual as pessoas rodopiam com os braços como em uma quadrilha.
🎧 Podcast
Filha de sobreviventes do Holocausto, a escritora Noemi Jaffe cresceu com a família lidando com o trauma de forma oposta. Enquanto o pai precisava falar da guerra por meio da melancolia, a mãe escolheu seguir em frente com uma alegria resiliente. No “Isso Não É Uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, a escritora descreve como se tornou uma porta-voz das memórias familiares, transformando as vivências e silêncios de seus antepassados em literatura. Ela ressalta também a reconstrução da vida depois do horror, desde a culpa de quem sobrevive até quem herda essa sobrevivência.
👩🏾⚕️ Saúde
Idosos com depressão podem estar subdiagnosticados no país, com descompasso entre o número de pessoas que relatam seus sintomas e aqueles que afirmam ter recebido laudo médico. É o que revela estudo de pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e da University College London, do Reino Unido, que avaliou uma amostra de quase 6.900 idosos. Segundo a Agência Bori, apesar de 15,6% dos entrevistados relatarem sintomas como sentimentos de tristeza, solidão ou perda de prazer nas atividades, apenas quatro em cada dez deles receberam diagnóstico médico. “Isso revela que muitos idosos sofrem em silêncio ou com barreiras de acesso, demonstrando que a depressão ainda é subvalorizada no envelhecimento e reforçando a necessidade de estratégias mais sensíveis de detecção e acolhimento, especialmente na Atenção Primária”, diz Jefferson Traebert, um dos autores da pesquisa.




