Um raio-X do empreendedorismo negro e a suspensão das obras da BR-319
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🔸A cinco meses da eleição, a popularidade do presidente Lula (PT) segue ruim. Segundo pesquisa AtlasIntel com 5.008 eleitores, 52,5% dos eleitores desaprovam o desempenho do presidente, e 46,8% aprovam – uma leve melhora em relação a março, quando a desaprovação era de 54%. A CartaCapital informa que, na avaliação do governo, 51,3% dos entrevistados consideram a gestão ruim ou péssima, ante 42% que a classificam como regular e uma parcela menor com avaliação positiva. Já com relação à intenção de votos, a pesquisa mostra Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em empate técnico no segundo turno. O filho de Jair Bolsonaro (PL) aparece numericamente à frente, com 0,3 ponto percentual de vantagem: 47,8% contra 47,5%.
🔸 Falando em eleições… O PT lançou um manifesto com a proposta de uma “concertação social” que “supere a fragmentação e institua um novo pacto pelo desenvolvimento nacional”, citando o setor produtivo e o empresariado. O movimento tenta reposicionar a relação com empresários depois do apoio obtido em 2022, quando a defesa da democracia era o principal mote. O Nexo conversa com dois cientistas políticos sobre o manifesto petista. “Não vai ser simples para o PT organizar um programa de desenvolvimento que seja apoiado por setores empresariais. É preciso convencer empresários e associações do setor produtivo de que o partido tem um projeto de desenvolvimento que é importante para o país e não será cumprido por seu principal opositor, no caso, o bolsonarismo”, afirma Leonardo Martins Barbosa. Karolina Roeder concorda: “Dificilmente Lula repetirá em 2026 a força do apoio empresarial que teve em 2022, que foi conjuntural e defensivo. Nasceu do medo de Jair Bolsonaro, não da simpatia ao PT”.
🔸 A contratação de mulheres negras cresceu 29% entre 2023 e 2025 em empresas com mais de 100 funcionários, ritmo superior ao aumento geral do emprego feminino (11%), segundo relatório do governo federal. O avanço indica maior inclusão no mercado formal, com expansão da presença feminina e de mulheres negras nas grandes empresas. A Alma Preta mostra que, apesar disso, a desigualdade salarial persiste e até aumentou: em 2025, mulheres ganharam em média 21,3% a menos que homens, percentual maior que o de 20,7% registrado em 2023. No recorte por estados, Minas Gerais lidera na adoção de políticas de incentivo à contratação de mulheres, presente em 34,7% dos estabelecimentos.
🔸 “O que se apresenta como vocação, em muitos casos, é resposta à exclusão. O que se celebra como autonomia frequentemente nasce da falta de escolha.” Guibson Trindade, co-fundador da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial, se refere ao avanço do empreendedorismo no país: cerca de 16 milhões de pessoas negras empreendem, muitas vezes em condições precárias. Em artigo no Notícia Preta, ele lembra que 60,1% dos empreendedores negros atuam na informalidade e apenas 26% conseguem acesso a crédito. Entre mulheres negras, os indicadores revelam um padrão ainda mais frágil – 41% estão na informalidade e 92% mantêm negócios sem funcionários. “Ainda assim, essas trajetórias são frequentemente celebradas como símbolos de sucesso individual. Essa leitura é insuficiente. Ao transformar necessidade em virtude, corre-se o risco de naturalizar a precariedade e converter ausência de direitos em narrativa de liberdade.”
🔸 Falando em informalidade… mesmo após a PEC das Domésticas, o trabalho doméstico no Brasil segue marcado por precarização e desigualdade racial. Mais de 6 milhões de trabalhadoras – em sua maioria mulheres negras – enfrentam jornadas longas, baixos salários e ausência de direitos: cerca de 70% são trabalhadoras informais, sem carteira assinada, e apenas 28% têm acesso pleno às garantias legais. O Nós, Mulheres da Periferia reúne relatos e casos emblemáticos que evidenciam abusos e falhas institucionais, como situações de trabalho análogo à escravidão e dificuldades de acesso à Justiça. Um deles é o de Sônia Maria de Jesus, mulher negra, surda e analfabeta, resgatada após 40 anos em condição análoga à escravidão em Santa Catarina, mas que acabou obrigada pela Justiça a retornar ao convívio com a família que a explorava.
📮 Outras histórias
“A biblioteca é um lugar de proteção, escuta e construção de perspectivas para crianças e adolescentes. É um espaço que reafirma que esses sujeitos importam, que seus sonhos são possíveis e que o território também produz conhecimento, arte e futuro”, afirma a pedagoga e conselheira tutelar Mickelle Xavier. Ela criou em 2019 a Biblioteca Comunitária Miro Cairo, em Vitória da Conquista, na Bahia, e hoje busca doações para manter o projeto. O Conquista Repórter conta a história do espaço que atende gratuitamente cerca de 300 crianças e adolescentes com ações culturais e educativas. “O projeto nasce do compromisso social com a infância e juventude, especialmente em um território marcado por vulnerabilidades, mas também por muita potência”, lembra Mickelle. A iniciativa, reconhecida como Ponto de Cultura em 2024 e premiada em 2025 pelo Ministério dos Direitos Humanos, tem mais de 3.500 empréstimos de livros registrados.
📌 Investigação
Durante o primeiro mês de vigência do ECA Digital, conteúdos “copia e cola” com ataques à legislação foram amplamente distribuídos com automação no Telegram. A Agência Lupa analisou publicações que circularam entre 17 de março e 17 de abril em seis redes sociais e grupos públicos do WhatsApp e do Telegram. Além da resistência à norma, há uma crise de percepção pública, com narrativas alarmistas sobre vigilância estatal e supostas restrições à economia digital e ao entretenimento. A reportagem identificou uma campanha digital estruturada, com o uso de automação, canais oficiais e coordenação para desafiar a legislação. O Telegram aparece como principal meio para distribuição dos ataques.
🍂 Meio ambiente
Os editais de licitação para obras da BR-319 foram suspensos pela Justiça Federal do Amazonas. A decisão da juíza Mara Elisa Andrade atende a uma ação civil pública apresentada pelo Observatório do Clima e interrompe os pregões eletrônicos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) por 70 dias. O Amazonas Atual informa que a magistrada destacou que há indícios de irregularidade no enquadramento das obras como simples manutenção, o que permitiu dispensa de licenciamento ambiental, e considerou que a continuidade dos pregões poderia gerar danos ambientais de difícil reversão.
📙 Cultura
A Prefeitura de Osasco (SP) descartou dezenas de livros da Biblioteca Monteiro Lobato, fechada desde a pandemia, sob a justificativa de que o material havia sido contaminado por fungos – sem consultar especialistas em acervo ou em saúde. Não se sabe quais obras foram descartadas, mas escritores e ativistas culturais da cidade se preocupam pela possível perda de coleções importantes, como livros doados pela cidade de Tsu (Japão) e exemplares em Braille. Segundo o Farofafá, um grupo de bibliotecários, estudantes, professores e profissionais da cultura iniciaram um abaixo-assinado para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o descarte e a destruição do acervo da biblioteca.
🎧 Podcast
Com a infância e juventude no Morro do Andaraí, zona norte do Rio de Janeiro, Rosália Lemos percebeu desde cedo que existia uma relação com o meio ambiente e o acesso a direitos básicos na comunidade onde vivia. “Comecei a refletir que favelado fazia a luta ambiental também. A nossa luta era em defesa do saneamento básico e da água potável canalizada dentro de casa. Então, era uma luta ambiental da pobreza.” No “Escute As Mais Velhas”, produção da Rádio Novelo, a cofundadora da Rede de Mulheres Negras do Rio de Janeiro revisita sua trajetória na luta por direitos sociais e educação ambiental e discute os atuais rumos do feminismo negro.
✊🏾 Direitos humanos
Essenciais para garantir o acesso ao aborto legal no país, as Defensorias Públicas são afetadas pela desinformação e por limitações políticas, como orçamento, autonomia institucional, segurança das defensoras e divulgação do serviço à população. O Catarinas destrincha a pesquisa “Justiça Reprodutiva: Análise da atuação nas Defensorias Públicas estaduais na garantia do acesso ao aborto legal”, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, da campanha Nem Presa Nem Morta e do Ipas – Parceiros por Justiça Reprodutiva. O estudo analisou defensorias de 19 estados e do Distrito Federal para mapear fluxos e procedimentos na garantia da interrupção da gravidez nos casos previstos em lei. “É importante que haja ações de formação de todo o quadro de defensores e defensoras públicas, de pessoas que trabalham no administrativo, de pessoas que trabalham nas equipes multidisciplinares, para lidarem com esse tema livre de estigmas”, afirma a advogada Letícia Ueda Vella.




