Uma medida inédita contra o racismo religioso e as 'cunhadas' nas prisões
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🔸 Formada por União Brasil e PP, a Federação União Progressista declarou neutralidade na disputa presidencial, mas suas alianças estaduais mostram maior proximidade com o PL, partido de Flávio Bolsonaro. Levantamento do Metrópoles a partir das atas das convenções partidárias identificou coligações da federação com o PL em 11 estados e com o PT ou a Federação Brasil da Esperança em quatro. A neutralidade foi oficializada pelo União Brasil na convenção de 4 de agosto, e os filiados foram liberados para definir apoios de acordo com os cenários locais. A reportagem destaca que a estratégia é recorrente entre partidos do Centrão: sem se vincular nacionalmente a um presidenciável, as legendas preservam liberdade para fazer acordos distintos nos estados e espaço para negociar participação na base de quem vencer a eleição, sobretudo no Congresso.
🔸 A propósito: os dez maiores colégios eleitorais do país chegam ao fim das convenções partidárias com cenários bastante distintos nas disputas pelos governos estaduais, entre favoritos consolidados, viradas recentes e corridas ainda indefinidas. O Nexo mostra como está o desenho em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Ceará, Pará e Santa Catarina, e explica como os palanques estaduais se conectam à eleição presidencial. Os partidos têm até 15 de agosto para registrar oficialmente as candidaturas. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece com 41%, contra 26% de Fernando Haddad (PT), que aceitou disputar o governo para garantir um palanque a Lula no maior colégio eleitoral do país.
🔸 Os alertas de desmatamento na Amazônia Legal caíram 36% entre agosto de 2025 e julho de 2026, na comparação com os 12 meses anteriores. O Eco destaca que esta é a maior redução da série histórica do Deter para o período acumulado, iniciada em 2016. O resultado encerra o calendário do desmatamento do terceiro mandato do presidente Lula (PT) com reversão da trajetória de alta iniciada no governo Michel Temer e intensificada durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL). No Cerrado, os alertas também recuaram, mas em ritmo menor, com uma queda de 7,8%. “A redução dos índices de desmatamento é o maior legado ambiental do governo Lula e uma das maiores contribuições dadas à agenda de clima nos últimos anos. Porém, o fim da destruição de nossas florestas só será possível com uma grande mudança no Parlamento, além de equacionar contradições dentro do próprio governo”, avalia Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
🔸 A Justiça do Rio de Janeiro aplicou pela primeira vez no país a Lei da Escuta Protegida em um processo de racismo religioso contra uma criança de família umbandista. A Lei 13.431/2017 prevê depoimento especial para que crianças e adolescentes vítimas de violência sejam ouvidos por profissionais capacitados, em ambiente acolhedor e sem exposição à revitimização. O depoimento ocorreu em 31 de julho, mas o caso é de 2025. A criança tinha 5 anos quando sofreu a violência, em novembro de 2025, numa escola em Santa Cruz, na zona oeste do Rio. Ela presenteou uma professora com uma flor amarela e explicou que representava Oxum. Segundo a Alma Preta, a docente gritou que a flor “pertencia ao diabo”, jogou-a no chão, pisoteou-a diante da turma e associou a religião da criança ao demônio. “A Lei do Depoimento Especial foi criada para proteger crianças vítimas de violência, mas permaneceu durante nove anos sem alcançar aquelas que sofrem uma das formas mais perversas de discriminação, o racismo religioso. Essa decisão rompe uma barreira histórica e reconhece que a violência contra crianças de religiões de matriz africana produz traumas que exigem proteção especializada”, afirma o presidente do Idafro, Hédio Silva.
📮 Outras histórias
Cineastas das periferias de Salvador têm usado o audiovisual para narrar seus territórios a partir de dentro, levando infâncias pretas, memórias, sons e experiências locais ao centro das narrativas. A Entre Becos conversa com realizadores do cinema periférico da capital baiana, como Marcos Alexandre, 29 anos. Criado em Abrantes, na Região Metropolitana de Salvador, ele é diretor de “Sonho de Arrocha” (2026), sobre Biel, um menino preto de 12 anos, morador da Ribeira, que sonha em ser cantor de arrocha. O filme, produzido em parceria com a TV Globo, alcançou mais de 16,5 milhões de espectadores e entrou no Top 2 do Globoplay. “A ideia era trazer a infância preta e periférica para um lugar de destaque, reconhecendo as múltiplas diferenças de crianças, de jovens e de sonhos. Entender essa pluralidade de corpos e pensamentos faz parte do meu fazer artístico e do meu entendimento sobre o que o cinema pode vir a ser”, diz o cineasta.
📌 Investigação
A morte de Gustavo Veloso Feitosa, 3 anos, encontrado com graves sinais de violência na casa do pai, em Palmas (TO), pode se tornar um dos primeiros casos de grande repercussão a discutir a aplicação do crime de vicaricídio – morte de uma pessoa ligada à mulher, como um filho, com a finalidade de causar a ela sofrimento, punição ou controle –, incorporado ao Código Penal em abril de 2026. É o que sustenta a advogada Stella Bueno, que representa a família. O menino estava na casa do pai, Igor Gustavo Veloso de Sousa, 33 anos, que alegou à polícia que o filho havia se afogado. O laudo do IML, porém, descartou afogamento e apontou múltiplas lesões e violência sexual. Igor e a atual companheira foram presos preventivamente e são investigados pela morte. O Catarinas detalha o caso e revela que Igor já havia sido denunciado pelo Ministério Público em outro caso de violência doméstica. A mãe de Gustavo, Sabrina Feitosa, também o havia denunciado por ameaças de morte e obtido medida protetiva em 2023. “Para nós que estamos vivendo essa realidade com a Sabrina, é muito claro que isso se trata de um crime de ódio, que ele projetou a raiva que ele tinha na Sabrina para o Gustavo”, afirma Bueno.
🍂 Meio ambiente
Um dos peixes mais consumidos no Amazonas, o tambaqui entrou na lista nacional de espécies ameaçadas de extinção, classificado como “Vulnerável” pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Estudos do ICMBio mostram que houve redução dos estoques naturais e projetam uma possível queda populacional entre 30% e 40% até 2044. O Amazonas Atual conta que a inclusão do tambaqui na lista abriu uma disputa política. O senador Eduardo Braga (MDB-AM) apresentou um projeto para sustar a medida, sob o argumento de que ela pode afetar pescadores, ribeirinhos e aquicultores e não diferencia a pesca na natureza da criação em cativeiro. O ICMBio, por sua vez, recomenda, entre outras medidas, uma moratória de cinco anos para a pesca comercial do tambaqui na Amazônia brasileira. O biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira pede cautela: “Com os dados que temos atualmente, creio que seja mais um alerta, válido somente para algumas áreas da bacia, onde exista maior pressão de pesca, pois em outras áreas estamos capturando tambaquis de 30 kg, que há décadas não encontrávamos mais”.
📙 Cultura
“Quando falamos de cultura preta, de cultura de terreiro, existe o preconceito e a intolerância religiosa. Então, ocupar esses espaços também é uma forma de resistir”, diz a musicista Yasmin de Carvalho Oliveira, 29 anos, uma das fundadoras do Samba do Seu Lua, em Mogi das Cruzes (SP). A Agência Mural narra a história da iniciativa que surgiu em 2024, na inauguração do Terreiro Lua Negra, como “Encontro de Tambores”, dedicado à cultura preta e a manifestações como samba, jongo, capoeira e cantos tradicionais. Com o tempo, cresceu, mudou de nome e reúne hoje cerca de 350 pessoas por edição. O projeto ajuda a financiar as atividades do terreiro e a gerar renda para empreendedores ligados às comunidades de matriz africana, integrando pessoas de diferentes terreiros. “Tem muitos locais na sociedade em que a gente não consegue expressar isso com tanta alegria e naturalidade. Quando nos reunimos num samba de terreiro, podemos cantar nossos pontos em um espaço seguro. É aí que a magia acontece”, afirma Yasmin.
🎧 Podcast
Conhecidas como “cunhadas”, as mulheres de detentos no Brasil vivem uma rotina atravessada pela prisão dos companheiros: percorrem longas distâncias para visitá-los, arcam com os custos das viagens, levam alimentos e produtos de higiene e precisam seguir regras que chegam a determinar as roupas que podem vestir. A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, destrincha como a pena imposta aos homens transforma também a vida dessas mulheres e conversa com a antropóloga Natália Lago, professora da Unirio e autora de “Nos Arredores da Prisão”, resultado de uma pesquisa sobre as relações entre presos, familiares e as cidades que abrigam unidades prisionais. Ela acompanhou esse universo numa cidade no extremo oeste paulista, onde os fins de semana são marcados por ônibus e vans que levam familiares ao presídio. Lá, a unidade estabelece cores e materiais permitidos para as roupas, além de regras informais sobre o corpo feminino. “É muito doido, né? Como é que tem um uniforme para a população prisional e tem um uniforme para as mulheres que vão visitar também”, diz Lago.
🧑🏽⚕️ Saúde
Mulher negra, mãe solo de três filhos e moradora da periferia de Fortaleza (CE), Zenaide Oliveira já criava dois filhos sozinha quando teve o caçula, posteriormente diagnosticado com autismo. A rotina de terapias e cuidados intensificou uma sobrecarga que ela demorou a reconhecer como esgotamento. “Eu vivia num estado de alerta e exaustão tão profundo que mal conseguia respirar, mas achava que o problema era eu não estar sendo forte o suficiente”, conta. O Lunetas mergulha no esgotamento parental, condição semelhante ao burnout, caracterizada por cansaço persistente, irritabilidade, sensação de inadequação e, em estágios mais avançados, distanciamento dos filhos e culpa. A sobrecarga atinge sobretudo as mulheres. Dados da PNAD Contínua mostram que elas dedicavam, em 2022, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, ante 11,7 horas dos homens. Já o Report Burnout Parental, de 2024, identificou sinais moderados ou graves de esgotamento em nove de cada dez mães que trabalham, com taxa 2,5 vezes maior entre mães solo.



