A quebra do sigilo de Lulinha e o 'DNA social' brasileiro
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Obrigada e boa leitura!
🔸A CPMI do INSS aprovou a quebra de sigilo bancário de Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e do Banco Master, no âmbito das investigações sobre descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas. A votação ocorreu após um impasse sobre o formato da deliberação e terminou em confusão, com governistas alegando fraude na contagem. O Jota explica que, na votação em bloco, o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), considerou que apenas sete parlamentares se posicionaram contra os requerimentos e declarou sua aprovação. A base governista contestou o resultado: alegou que 14 aliados se levantaram e sete oposicionistas ficaram sentados, o que, segundo sua interpretação da votação simbólica, indicaria rejeição das medidas, e não aprovação. A decisão oposta provocou empurra-empurra e troca de acusações entre parlamentares.
🔸 Nas redes sociais, aliados de Jair Bolsonaro (PL) criaram uma ofensiva para desacreditar os índices econômicos oficiais, depois de números recentes apontarem boas notícias para o governo Lula, como o fato de o desemprego ser o menor da série histórica, a inflação dentro da meta e o crescimento do PIB. O Aos Fatos mostra que a estratégia combina distorções sobre a metodologia do IBGE com a disseminação de desinformações antigas – entre elas, a falsa alegação de que beneficiários do Bolsa Família não seriam contabilizados como desempregados. Os bolsonaristas ainda disseminam índices “alternativos” – sem base científica – para contestar inflação e emprego, além de explorar a crise interna do IBGE para insinuar manipulação política dos dados.
🔸 “Foi o primeiro ano dele na creche. Ele tinha entrado agora e se adaptou super bem. Era muito bonzinho, carismático, independente, uma criança tranquila”, dizia Yasmin Santos, sobre o pequeno Matteo, de 3 anos, morto nas fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora (MG). O menino era neto de Flávio Santos, que também perdeu a esposa, dois filhos e a nora no deslizamento de terra que levou sua casa, no Bairro Esplanada. A Tribuna de Minas acompanhou os velórios das vítimas dos temporais nos cemitérios Parque da Saudade e Municipal, onde familiares prestam homenagens enquanto outros ainda aguardam notícias de desaparecidos. “Minha esperança agora é só tentar encontrar o meu filho que ainda está lá”, disse Flávio. Segundo o Por Dentro de Minas, o número de mortes provocadas pelas chuvas na Zona da Mata mineira chegou a 59. São 53 mortes em Juiz de Fora e seis em Ubá, município vizinho.
🔸 As denúncias de abuso sexual contra o desembargador Magid Nauef Lauar, do TJ de Minas Gerais, chegaram ao Conselho Nacional de Justiça. A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) encaminhou ao órgão ao menos dois relatos de vítimas, detalha a CartaCapital. Entre os casos narrados, uma ex-estagiária conta que, aos 19 anos, foi beijada à força durante um almoço ao qual compareceu por receio de prejudicar sua carreira. O caso ganhou novo peso após a decisão de Lauar que absolveu um homem de 35 anos condenado por estupro de uma menina de 12 anos, ao considerar haver “vínculo afetivo consensual” entre eles. Dias depois, o desembargador recuou, após recurso do Ministério Público e a repercussão negativa do caso.
🔸 O desembargador, aliás, esqueceu um prompt de inteligência artificial no voto em que absolvia o acusado de estupro. O Núcleo revela que, no acórdão, aparece a instrução “Agora melhore a exposição e fundamentação deste parágrafo”, seguida de uma versão resumida do trecho jurídico, o que indica possível apoio de IA na redação da decisão. O caso levanta questionamentos sobre o uso de ferramentas digitais em processos sob sigilo, já que normas do Conselho Nacional de Justiça restringem o uso de IA em documentos sensíveis, especialmente em ações que envolvem estupro de vulnerável.
📮 Outras histórias
O pai de Renato Cléber da Corse manteve uma barraca de pipoca por 40 anos na Praça Brasil, na Cohab José Bonifácio, em Itaquera, zona leste de São Paulo. Quando Carlos Henrique Acorsi morreu, em 2023, Renato assumiu o negócio paterno: “O pai foi, mas ficou o empreendimento”. A Agência Mural reconstrói a trajetória do pipoqueiro Carlos, que começou em 1982 e consolidou o ponto depois de tentar outras atividades. O filho já o acompanhava antes de optar pelo comércio ambulante, diante da instabilidade de empregos formais. Hoje, Renato toca o negócio ao lado da companheira, Iara. Ele diversifica as vendas com bebidas, batatas e brinquedos e leva o carrinho também para a porta de escolas para garantir renda. A reportagem mostra como a rotina do casal reflete o peso do trabalho informal nas periferias – realidade que atinge cerca de 4 milhões de trabalhadores em São Paulo, segundo a PNAD Contínua.
📌 Investigação
A especulação imobiliária para o turismo de luxo em Porto Seguro (BA) avança sobre a restinga e já impacta a alimentação da população local. Sobre a areia, em toda a costa, estão muros de hotéis e condomínios, gigantescas barracas de praia e decks. A maioria é construção irregular sobre o ecossistema costeiro para atender os mais de 2 milhões de turistas anuais. O “Mapa das Perdas Alimentares”, projeto d’O Joio e O Trigo, revela como o desmatamento da restinga tem impactado no desaparecimento de plantas da cultura alimentar da região. A artista Diana Rodriguez relatou que ao menos 24 alimentos, entre frutas e frutos do mar, dos quais ela se alimentava na infância em Trancoso, já são raramente encontrados. “Todos os dias a gente comia frutas da restinga, pescava no mangue, catava caranguejo, moreia, guaiamum”, conta. O terreno em que nasceu e sobre o qual guarda essas memórias hoje está parcialmente coberto pelo deck de um condomínio.
🍂 Meio ambiente
“A seca não é apenas falta de chuva. Ela envolve gestão da água, planejamento urbano, modelo agrícola, desigualdade social e capacidade de resposta do poder público. Quando a gente limita o problema ao Nordeste, deixa de discutir suas causas e impactos nacionais”, diz o engenheiro agrônomo João Suassuna, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e especialista em questões de hidrologia do Semiárido. Segundo os dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, entre agosto e setembro de 2025, cerca de 57% do território brasileiro esteve sob algum grau de seca. Em entrevista à Cajueira, o pesquisador desconstrói o imaginário de que a escassez hídrica é um problema do Nordeste. “Talvez a maior lição do Semiárido para o restante do país seja esta: não se trata de esperar a chuva voltar ao ‘normal’, mas de planejar a vida considerando que a irregularidade climática faz parte da realidade.”
📙 Cultura
“A nossa experiência, como mulher asiática, é atravessada por um contexto de racialização, idealização e fetichização que faz parte do racismo da sociedade brasileira, do patriarcado e do colonialismo, que dividiu o mundo em raças, cores e territórios”, afirma a escritora e artista visual Tieko Irii, autora de “As Ruas Sem Nome”. A obra mergulha em uma narrativa autobiográfica que atravessa três gerações de imigrantes japoneses, conectando o histórico e o emocional sobre deslocamento, silenciamento e a busca por identidade. Ao Le Monde Diplomatique Brasil Tieko fala sobre o processo de elaboração do livro, que começou com a descoberta da autobiografia secreta de seu pai e se expandiu para o racismo anti-amarelo e estereótipos de gênero. “Durante a pesquisa fui descobrindo o quanto a história, a cultura, a sociedade, a ancestralidade, o saber, o não saber nos amálgama e determinam a pessoa que sou hoje.”
🎧 Podcast
O trabalho análogo à escravidão está próximo ao cotidiano de milhões de pessoas nas grandes cidades. A auditora-fiscal do trabalho Giuliana Cassiano atuou no resgate de uma jovem de 18 anos de uma cafeteria “descolada” em um bairro nobre de São Paulo. Ela passou meses sem receber salário, retido por sua empregadora. Nem mesmo seus colegas de trabalho percebiam que ela estava sendo explorada. O “Histórias de Combate ao Trabalho Escravo”, produção da Repórter Brasil, narra a trajetória de Cassiano na fiscalização trabalhista urbana, de cafeterias e boates a oficinas de costura, e como a servidora passou a se envolver de forma diferente com a situação das vítimas desde que se tornou mãe.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Mais do que festa, as multidões fazem parte do “DNA social” brasileiro. As estimativas deste ano indicam que mais de 65 milhões de foliões saíram às ruas no Carnaval. Algumas cidades, no entanto, têm reduzido ano após ano os investimentos na festa, com cortes destinados à logística, segurança, apoio técnico e infraestrutura que causam desafios crescentes de governança urbana. No Conversation Brasil, os pesquisadores Jannsen Santana, Daiane Scaraboto e Flavia Cardoso reforçam que o Carnaval de rua é uma identidade coletiva que precisa ser cuidada. “Em essência, cuidar das multidões é preservar um patrimônio imaterial que vai além do espetáculo. É proteger a vocação brasileira de ocupar a rua, compartilhar espaços e transformar encontros coletivos em experiências de alegria, pertencimento e identidade comum – um legado que se renova a cada celebração e integra a cultura do país.”




