🔸 O presidente Lula (PT) protocolou ontem no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma autorização para divulgar seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, sob a condição de que Flávio Bolsonaro (PL) faça o mesmo. O Jota informa que o documento formaliza o desafio lançado pelo petista no debate da Band, no domingo, e abrange dados dos últimos oito anos de Lula, de sua esposa, Janja, de seus cinco filhos e da empresa de palestras da qual é sócio. Em contrapartida, pede a divulgação das mesmas informações de Flávio, de sua esposa, de seus pais e de seus três irmãos, além de cinco empresas. Entre elas está a Alcazar Holdings, do advogado Willer Tomaz, investigado com o senador por suspeita de lavagem de dinheiro. E-mails encontrados pela Polícia Federal apontavam Flávio como “usuário master” de uma conta bancária da companhia, descrita no pedido como uma offshore registrada na Ilha da Madeira, em Portugal.
🔸 Sete ex-integrantes do governo Bolsonaro concentram 71% das 41,6 mil interações de Daniel Vorcaro com políticos identificadas em um de seus celulares. O levantamento da revista piauí, em parceria com o InterSecLab, examinou mensagens e registros de ligações extraídos pela Polícia Federal após a primeira prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Dos contatos com 56 políticos, 90% ocorreram com nomes de direita, 9% de centro e 1% de esquerda. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, lidera com 19,3 mil interações, seguido pelo ex-advogado-geral da União Bruno Bianco, com 4.782, e pelo ex-ministro da Casa Civil Ciro Nogueira, com 3.967. Essas relações serviam aos interesses do Banco Master. Além das interações preservadas no WhatsApp, foram identificados também registros de mensagens apagadas ou que expiraram por serem temporárias. Nesse quesito, destaque para Alexandre de Moraes, com 307 interações – 94% delas expiradas –, e Flávio Bolsonaro, com 115 interações omitidas.
🔸 “Você vai poder plantar, criar gado, vai fazer o que quiser. Tudo o que explorar da sua terra é seu.” Em discurso a apoiadores em Marabá, no sudeste do Pará, nesta segunda-feira, Flávio Bolsonaro prometeu promover uma ampla regularização fundiária e acabar com o que chamou de “entraves ambientais”. O Amazônia Vox compara as declarações ao plano de governo do candidato, que prevê substituir a “punição cega” por orientação e regularização e eliminar supostas sobreposições entre Ibama, Funai e ICMBio, sem especificá-las. O documento também promete fortalecer a fiscalização, combater organizações criminosas e zerar o desmatamento ilegal até 2029. As promessas, porém, contrariam o histórico do candidato.
🔸 Um eventual governo de Flávio, aliás, pode aprofundar o desmonte da política ambiental iniciado pelo pai dele. O Nexo relembra como foi o governo Bolsonaro na área ambiental e explica o que a eleição de Flávio pode representar para o setor, com a combinação entre um Executivo alinhado à flexibilização de regras, o avanço da extrema direita no Congresso e a possibilidade de indicação de ao menos três ministros do STF no próximo mandato. Segundo o Observatório do Clima, Flávio apresentou ao menos 17 iniciativas antiambientais como senador, entre elas propostas para extinguir reservas legais, flexibilizar o licenciamento e restringir demarcações de terras indígenas.
🔸 A propósito: “A extrema direita tem uma perspectiva no sentido de que os povos indígenas devem ser descartados. É uma perspectiva genocida, que já se demonstrou na história”, afirma Luis Ventura Fernández, secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ligado à Igreja Católica. Em entrevista à Repórter Brasil, ele alerta que uma vitória de Flávio Bolsonaro, combinada ao crescimento de PL e Novo no Congresso, pode favorecer propostas que dificultam demarcações e abrem territórios à exploração por terceiros. O Cimi identificou 83 proposições contrárias aos direitos territoriais indígenas na atual legislatura. Ventura também critica os resultados do governo Lula, embora reconheça avanços como a criação do Ministério dos Povos Indígenas e o fortalecimento da Funai. “Apesar disso, não conseguiu avançar significativamente na demarcação dos territórios indígenas. Não conseguiu ter uma política sistemática de enfrentamento e de prevenção da violência nos territórios”, diz Fernández.

📮 Outras histórias
A pesca artesanal foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Santos, mas a expansão portuária ameaça os territórios e o sustento das comunidades que mantêm essa tradição há mais de três séculos. O reconhecimento abrange conhecimentos sobre espécies, marés e períodos de pesca, além dos modos de fazer e de viver das comunidades caiçaras. Na Ilha Diana, essa herança permanece no cotidiano dos pescadores e das marisqueiras que coletam o marisco bico de ouro, exemplo da transmissão desses saberes pelas mulheres. O Juicy Santos conta que um estudo na revista científica “Anthropocene Coasts” ouviu 40 pescadores de nove comunidades em oficinas realizadas em 2024. Os relatos confirmam a perda de áreas de pesca, a queda da rentabilidade, impactos sobre a saúde física e mental e dificuldades para participar das decisões sobre seus territórios.
📌 Investigação
Eleito deputado estadual pelo PL no Maranhão, Ulisses Gonçalves declarou R$ 155,5 milhões em bens ao TSE, o maior patrimônio entre os parlamentares eleitos no Nordeste em 2026. O valor corresponde a mais de 10% dos R$ 1,47 bilhão declarados pelos 510 eleitos da região. Segundo a Agência Tatu, ele também foi o candidato com o maior valor acumulado em multas ambientais no país: R$ 3,2 milhões, ligados ao desmatamento e à destruição de mais de 650 hectares de vegetação nativa na Amazônia Legal, no Maranhão. A declaração reúne 70 itens, concentrados no agronegócio e em operações financeiras. Empréstimos, adiantamentos e valores a receber somam R$ 94,2 milhões, ou 60,6% do patrimônio, incluindo R$ 45 milhões ligados a contratos com a Heringer Táxi Aéreo. Há ainda R$ 35 milhões em benfeitorias e investimentos rurais e R$ 14,7 milhões em máquinas, veículos e aeronave. O segundo maior patrimônio entre os eleitos da região é o de Jadyel Alencar (Republicanos-PI), eleito deputado federal, com R$ 107,1 milhões.

🍂 Meio ambiente
As queimadas se concentraram mais perto de Manaus em 2026, com 1.920 focos de calor em um raio de até 300 km da capital em setembro, o maior número para o mês desde 2021. A InfoAmazonia analisou dados do Inpe e identificou que essa área reuniu 15,3% dos focos do bioma Amazônia, proporção que variou de 1,8% a 6,7% nos cinco anos anteriores. O Ministério do Meio Ambiente suspeita de uso intencional do fogo para facilitar a derrubada da floresta e a conversão do solo para outras atividades, diante da concentração de ocorrências em floresta primária em outubro. A fumaça afeta a rotina de trabalhadores ao ar livre e agrava problemas respiratórios: a rede estadual de saúde registrou 156 atendimentos relacionados à exposição entre agosto e setembro. Diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar afirma que há um risco “muito grande, nesses próximos dois, três meses, de piorar se as chuvas não começarem”.
📙 Cultura
O último dirigente da Ancine indicado por Jair Bolsonaro, Alex Braga Muniz, deixou a agência. Seu mandato terminou nesta segunda-feira, após cinco anos como diretor-presidente e quase nove na diretoria, à qual chegou por indicação de Michel Temer em 2017. Segundo o Farofafá, Patricia Barcelos, nomeada por Lula em setembro de 2025, assumiu a presidência como substituta e deve ser efetivada. Com a saída de Braga, o colegiado passa a ser inteiramente composto por indicados do atual governo. Em dezembro de 2020, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação contra Braga e outros dirigentes, acusados de interromper a tramitação de centenas de projetos do Fundo Setorial do Audiovisual, omitir informações e não estabelecer prazos para regularização. A ação foi acolhida pela Justiça Federal. Braga também foi acusado de censura e aparelhamento e, nos últimos dias no cargo, exonerou auxiliares ligados ao bolsonarismo.
🎧 Podcast
“A ideia de família pra mim é muito ampliada. Porque sempre incluiu muita gente, não só a família de sangue, mas a comunidade que frequentava a casa da minha avó.” Criado por dona Deda, mãe de santo de um terreiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, o historiador e escritor Luiz Antônio Simas cresceu numa casa em que comida, trabalho e educação eram compartilhados. Em conversa com Vera Iaconelli no “Isso Não É uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, ele explica que essa família incluía também os mortos: receber recomendações de um caboclo ou brincar com entidades crianças fazia parte do cotidiano. Na adolescência, tentou se afastar daquele universo e ser ateu, mas voltou a aprofundar seus vínculos com o terreiro após a morte da avó. Mais do que a fé, diz, o que o mobiliza são os ritos e a convivência com as diferenças, presentes nas histórias, nos comportamentos e nas comidas de cada orixá.

🧑🏽🏫 Educação
Aproximar os jovens da participação política exige escuta, diálogo e discussões conectadas às suas experiências, apontam educadores ouvidos pelo Porvir. Uma pesquisa da Fundação Friedrich Ebert Stiftung mostra que, no Brasil, 57% dos jovens não confiam em partidos políticos e 58% preferem líderes fortes a instituições ou partidos. Para Natália Gil, professora da UFRGS, a formação para a cidadania precisa ir além das eleições, sem indicar em quem votar. “A escola tem que ensinar as implicações do convívio em sociedade. Isso significa, por exemplo, compreender como as decisões dos governantes afetam a nossa vida e também repercutem na vida dos outros”, afirma. A professora Gina Vieira Ponte propõe partir de situações próximas dos alunos: em uma atividade, transformou casos de cyberbullying da turma em histórias com personagens fictícios para discussão em grupos. “Quem está na posição privilegiada de ouvi-los, de construir vínculo com eles, de ajudá-los a se sentirem pertencentes, somos nós. Esse é o superpoder que a escola nos dá e que não pode ser subestimado.”
