O protesto de 700 indígenas no Pará e os achados de uma expedição na Amazônia
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🔸 Entrou em vigor nesta semana a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, fruto do PL da Devastação, como ficou conhecido o texto que, na prática, afrouxa regras de controle ambiental e pode levar ao aumento do desmatamento em biomas como Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. O Eco lembra que a lei é alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF), apresentada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, pelo Partido Socialismo e Liberdade e por mais de 150 organizações do Observatório do Clima, que divulgou uma análise sobre os impactos da entrada em vigor da lei.
🔸 “Antes, uma obra de porte médio, como uma barragem de rejeitos, precisava passar por um processo complexo de licenciamento, de forma a diminuir os riscos de um desastre (...). A partir de hoje o empreendedor só precisa preencher um formulário na internet, a Licença por Adesão e Compromisso (LAC), e a obra está devidamente aprovada”, diz o texto do Observatório do Clima. Em coluna na Agência Pública, Giovana Girardi detalha os riscos apontados pela entidade e por ambientalistas. Segundo eles, a flexibilização pode facilitar novos desastres como os que ocorreram com as barragens de Mariana e Brumadinho, ambas em Minas Gerais. “Detalhe que ambas passaram pelo processo de licenciamento mais rigoroso que vigorava antes e ainda assim houve falhas. O medo é que agora erros como aqueles possam passar despercebidos mais facilmente”, afirma Girardi.
🔸 Pela segunda semana, 700 indígenas ocupam o acesso ao terminal de cargas da Cargill, multinacional do agronegócio, em Santarém (PA). São povos do Baixo, Médio e Alto Tapajós que passaram a pressionar diretamente o governo Lula pela promessa de consulta prévia sobre a hidrovia do Tapajós. A InfoAmazonia explica que o protesto cobra a revogação de um decreto que incluiu mais de 3 mil km de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização, e a suspensão imediata da dragagem do rio, que teria sido iniciada antes da conclusão dos estudos ambientais. “Essa infraestrutura que está vindo não é espaço para a gente, e nunca vai ser. É um projeto de morte para matar o nosso rio e os nossos locais sagrados. São projetos para tirar indígenas, ribeirinhos e pescadores do caminho”, afirma Alessandra Korap Munduruku, uma das principais lideranças indígenas do Brasil.
🔸 A propósito: empresa líder do pregão do governo federal para a dragagem do rio Tapajós, a DTA Engenharia, acumula três autos de infração do Ibama por irregularidades em obras semelhantes. As multas somam R$ 1,9 milhão e ainda tramitam na esfera administrativa, revela a Repórter Brasil. A empresa venceu a concorrência por R$ 61,8 milhões, valor 17% abaixo do orçamento estimado, num pregão que tem como único critério o menor preço, sem avaliação técnica. O Ministério Público Federal ajuizou ação pedindo a suspensão da dragagem por ausência de Estudo de Impacto Ambiental e de consulta às populações afetadas.
📮 Outras histórias
Paredes descascadas, fiação exposta e goteiras em dias de chuva são comuns na Escola Municipal Cláudio Manuel da Costa, em Vitória da Conquista (BA), que atende o bairro Pedrinhas e comunidades vizinhas. As condições adiaram o início das aulas em apenas um dia (de segunda para terça). Segundo as mães dos alunos, a estrutura precária do colégio é um problema antigo e exige muito mais do que reparos pontuais, conta o Conquista Repórter. No Quilombo de Vó Dôla, mais de 80% das crianças estudam na escola. “Eu acho que nem um presídio está naquela situação”, diz Laiz Gonçalves, líder comunitária do quilombo e mãe de uma aluna. A escola é a única a ofertar Ensino Fundamental 2 na região e atende majoritariamente crianças negras e quilombolas, o que, para as mães, evidencia racismo estrutural e descaso histórico com a educação de populações vulnerabilizadas.
📌 Investigação
Deepfakes e outros conteúdos desinformativos gerados por IA cresceram 308% em um ano, passando de 39 casos desmentidos em 2024 para 120 em 2025. O “Panorama da Desinformação no Brasil”, levantamento inédito da Agência Lupa, mapeou os materiais falsos que mais circularam no ambiente digital brasileiro e apresenta tendências, alvos e as principais táticas de desinformação. A pesquisa revela uma mudança estrutural no ecossistema desinformativo: em 2024, a inteligência artificial era usada majoritariamente para a criação de golpes digitais, como deepfakes de famosos fazendo propagandas de sites fraudulentos; já em 2025, as ferramentas passaram a ser empregadas como arma política, e quase 45% dos conteúdos com IA tinha viés ideológico, ante 33% no ano anterior. As principais vítimas de vídeos ou áudios com imagens de pessoas conhecidas foram o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
🍂 Meio ambiente
Em uma área que concentra importantes cursos d’água e territórios indígenas, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) autorizou a mineradora Potássio do Brasil a usar as águas do rio Madeira para fins industriais no município de Autazes (AM). A decisão da autarquia ocorre enquanto estudos técnicos produzidos por instituições acadêmicas e laudos periciais pelo Ministério Público Federal apontam os impactos socioambientais associados ao projeto de mineração de potássio na região. Segundo a Revista Cenarium, os relatórios e documentos também indicam que a exploração mineral tem efeitos diretos sobre os direitos territoriais e culturais do povo Mura, que não teve a consulta prévia, livre e informada respeitada, conforme prevê a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.
📙 Cultura
Uma nova geração de bailarinos, atores e designers de moda pernambucanos celebra as raízes da manguebeat em seus processos criativos. Movimento cultural surgido na década de 1990, o manguebeat uniu estética e contestação social, mesclando ritmos africanos e indígenas com rock e hip-hop. O Nonada ouviu artistas e pesquisadores para mostrar como o legado de Chico Science e da Nação Zumbi segue vivo. O espetáculo teatral “Medeia – Da Lama ao Caos”, por exemplo, faz menção direta às bases do movimento e reproduz nos atos o caranguejo, seu principal símbolo. “A gente usa o corpo caranguejo para trazer o animal corporificado. Tem muita presença do chão, do plano médio baixo. Acionamos essa corporeidade, fisicalidade do caranguejo no nosso corpo. Esses movimentos são acompanhados de guitarras e da sonoridade do manguebeat”, conta a atriz, co-escritora e uma das criadoras da peça Gabriela Cicarello.
🎧 Podcast
Diagnosticada com uma surdez progressiva, irreversível e intratável, a musicista Giovanna Andreo precisou correr contra o tempo para armazenar o máximo de memórias musicais possível e descobrir outros jeitos de perceber as sonoridades. Ela desenvolveu técnicas para usar as vibrações como uma forma de complementar ou substituir os sons que seu cérebro não consegue mais processar. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, narra a trajetória de transformação de percepção de Giovanna para seguir sua paixão – cantar e tocar violão. Sem ouvir com os ouvidos, a musicista ouve agora com o corpo todo, sentindo toda a pulsação da música.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Em quadrinhos: Ao contrário do mito do “vazio demográfico”, a Amazônia é ocupada há milênios, e os seres que a habitaram foram essenciais para sua formação florestal. Uma expedição com arqueólogos e comunidades locais reconstituiu parte da história amazônica. Por meio de evidências materiais e tecnologias avançadas, foi possível entender que a floresta é, na verdade, um patrimônio biocultural construído milenarmente por seus povos. A Sumaúma detalha a expedição e explica que a existência da Terra Preta – ou “terra de maloca” – é um dos principais indícios dessa ocupação: este solo não é natural, e sim um composto orgânico formado por restos de comida, carvão, ossos e cerâmicas a partir de uma permanência humana prolongada.




