A prisão domiciliar de Bolsonaro e o maior data center do continente no RS
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🔸O governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), desistiu de disputar a Presidência nas eleições deste ano e afirmou que vai concluir seu mandato até dezembro, indicando que abre mão também de uma candidatura ao Senado. Em nota, ele disse ainda que tomou a decisão após “refletir” e conversar com a família, sem detalhar os motivos. Segundo o Plural, a desistência de Ratinho veio depois de pressão da família Bolsonaro. O senador Rogério Marinho (PL-RN) pediu que Ratinho abrisse mão da candidatura, ou o PL se viraria contra ele, apoiando o senador Sergio Moro ao governo do Paraná. Dias depois, Flávio Bolsonaro anunciou apoio a Moro, o que fragilizou o cenário político do governador no estado. Sem Ratinho, o nome de Ronaldo Caiado ganha força no PSD para concorrer em outubro ao Planalto.
🔸 Além de abrir caminho para Caiado, a desistência de Ratinho devolve Sergio Moro ao bolsonarismo. Para voltar às origens de auxiliar da extrema direita, ele trocará o União Brasil pelo PL nesta semana. A CartaCapital destaca que a mudança de partido marca uma aliança formal entre Moro e Jair Bolsonaro, retomando uma trajetória que remonta a 2018, quando decisões de Moro como juiz da Lava Jato contribuíram para a exclusão de Lula da disputa eleitoral daquele ano. Depois de perder espaço nacional e ter um mandato discreto no Senado, o ex-juiz agora tenta se reposicionar como liderança regional da direita e se torna peça central da estratégia para fortalecer a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro no Paraná.
🔸 A Procuradoria-Geral da República mudou de posição e passou a defender a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro após a piora de seu estado de saúde. O ex-presidente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe teve o quadro clínico agravado por pneumonia e injúria renal depois da internação em 13 de março. O Congresso em Foco explica por que a PGR agora recomenda a prisão domiciliar de Bolsonaro. Em parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral Paulo Gonet afirma que o novo quadro tornou inadequada a permanência do ex-presidente no sistema prisional. O parecer sustenta que há risco de “alterações súbitas e imprevisíveis”, o que justificaria a prisão domiciliar humanitária, com monitoramento contínuo. A decisão final cabe ao ministro Alexandre de Moraes, que já negou pedidos anteriores e não é obrigado a seguir o entendimento da PGR.
🔸 Parlamentares bolsonaristas estão patrocinando a ofensiva contra a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), depois de sua eleição para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. Segundo levantamento feito pela equipe da parlamentar, ao menos 145 postagens com ataques a ela foram impulsionadas nas redes sociais. O Metrópoles teve acesso ao material e mostra que as publicações somaram cerca de R$ 15,3 mil e alcançaram 2,2 milhões de pessoas. Entre os responsáveis pelos impulsionamentos estão as deputadas federais Júlia Zanatta (PL-SC), Carla Dickson (União-RN) e Geovania Sá (PSDB-SC) e os senadores Margareth Buzetti (PP-MT) e Jorge Seif (PL-SC).
🔸 Os ataques contra Erika Hilton na Comissão da Mulher não são episódios isolados, mas parte de uma lógica histórica de exclusão que também atingiu, no ano anterior, a deputada indígena Célia Xakriabá. É o que afirma Bruna Benevides, em coluna na Revista AzMina. Secretária de articulação política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), ela afirma que, embora os alvos mudem, a lógica permanece: contra Célia operam o racismo e o colonialismo; contra Erika, a transfobia e o essencialismo biológico. “O que se vê é a continuidade de uma lógica que tenta eliminar tudo aquilo que desafia a norma imposta. O genocídio indígena e contra pessoas trans não são desvios do sistema, são parte de sua engrenagem histórica.”
📮 Outras histórias
Milhares de vestígios arqueológicos da Amazônia contam uma história diferente de tudo que já foi construído pelo Ocidente, mas seguem minimizadas pelas notícias a partir de um olhar colonial. A Sumaúma reúne três exemplos de patrimônio histórico e cultural deixados por sociedades indígenas milenares que viveram na região que são autossuficientes e devem ser valorizadas por elas mesmas, e não por semelhanças com as referências de outros continentes. É o caso da principal cidade dos Tapajó, onde hoje é a cidade de Santarém. Durante o genocídio indígena promovido pela colonização, corpos mumificados, que materializavam a importância de respeito aos antepassados, foram queimados. Locais simbólicos foram profanados e incendiados, objetos rituais jogados nas águas, festas e reuniões tradicionais foram proibidas e combatidas. Parte dos marcos arquitetônicos desses episódios podem ser observados no município atual, e a alcunha de “Jerusalém amazônica” é um processo de apagamento dessas histórias.
📌 Investigação
O governo do Rio Grande do Sul prometeu um licenciamento ambiental simplificado para a instalação do maior data center da América do Sul em Eldorado do Sul, a 16 km de Porto Alegre. A Ambiental Media teve acesso ao protocolo de intenções do empreendimento com exclusividade, que prevê licenças “no menor tempo possível”. A energia necessária para a estrutura operar em sua capacidade máxima, o que deve ocorrer depois de 2035, é de 5 GW – quantidade superior ao consumo do estado todo atualmente. Um dos efeitos do alto uso de energia elétrica é o encarecimento da conta para a população local, que já convive com a instabilidade da rede elétrica, com cortes de luz frequentes. “A energia cai o tempo todo, liga e desliga várias vezes ao longo do dia”, afirma Úrsula Silva Pedroso, moradora da área central da cidade.
🍂 Meio ambiente
Começou ontem a Conferência da ONU sobre Espécies Migratórias (COP15), em Campo Grande (MS). Este é o principal encontro dos países signatários do tratado da Organização das Nações Unidas criado para proteger animais que cruzam fronteiras ao longo de seu ciclo de vida. “As espécies migratórias demandam um planejamento que exige entendimento entre os diferentes países pelos quais elas passam, então, temos vários procedimentos que visam garantir maior proteção a elas”, afirma o presidente da COP15, João Paulo Capobianco, em entrevista a’O Eco. Secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, ele detalha que a pasta está trabalhando para aumentar o esforço brasileiro em relação a essas espécies por meio do financiamento para pesquisas. “Nós queremos ampliar o conhecimento sobre as áreas de passagem, para verificar a situação de conservação delas e entender se estão sob algum tipo de proteção já assegurada ou necessitam de ações específicas de proteção.”
📙 Cultura
O Museu Nacional dos Povos Indígenas enfrenta uma crise profunda, marcada por abandono institucional, falta de financiamento e disputas internas que colocam em risco sua própria existência. Após 73 anos de história, a instituição que reúne acervos fundamentais para a memória indígena no Rio de Janeiro opera em meio a instabilidade administrativa e ausência de um projeto para o futuro. O Amazônia Latitude detalha as condições do museu fechado ao público há mais de uma década. Há risco de fragmentação das coleções e de deterioração do prédio, que apresenta infiltrações e problemas estruturais. Um exemplo é o da coleção repatriada da Bélgica, com cerca de 600 peças indígenas, que permanece guardada sem acesso público ou uso acadêmico.
🎧 Podcast
Apesar de conflitos geopolíticos prejudicarem o compartilhamento de dados e o multilateralismo, a diplomacia científica tem o potencial de atuar como uma ponte entre países para facilitar acordos ambientais e o combate à desinformação. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, recebe Amâncio Jorge de Oliveira, coordenador executivo da Escola de Diplomacia Científica e da Inovação da Universidade de São Paulo (USP), para explicar como a geopolítica impacta a ciência e como ela pode ajudar a contornar esses desafios. Para o pesquisador, os cientistas precisam ocupar espaços públicos para defender a cooperação e lutar contra o isolacionismo.
👩🏾⚕️ Saúde
Na última sexta-feira, caiu a patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e de outros medicamentos usados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Assim, o laboratório Novo Nordisk perdeu a exclusividade comercial sobre a substância. No Conversation Brasil, Carlos Roberto Oliveira, pesquisador em Direito Biomédico, analisa o novo cenário de acesso a esses produtos: “Sem a cobertura do Estado, o uso dos medicamentos emagrecedores continuará restrito às camadas mais privilegiadas da população, e assim permanecerá por algum tempo, apesar de uma mais agressiva concorrência com o fim das patentes e do lançamento próximo de genéricos”. Para o especialista, a chegada de outros laboratórios no mercado depende do processo de regulação, que deve ocorrer de forma gradual, adiando uma redução mais expressiva dos preços.




