A pressão do agro sobre editoras de livros e uma nova cracolândia em SP
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🔸 Prioridade do governo federal em 2026, a PEC que põe fim à escala de trabalho 6x1 terá que enfrentar a resistência de líderes da oposição na Câmara e no Senado, que apoiam propostas para manter apenas uma folga semanal na Constituição. A Repórter Brasil detalha o movimento dos parlamentares que pretendem barrar a Proposta de Emenda à Constituição. Deputados como Cabo Gilberto Silva (PL-PB) e Gustavo Gayer (PL-GO) assinaram a PEC 40/2025, que ratifica a jornada de 44 horas e condiciona mudanças a acordos entre patrões e empregados. No Senado, Ciro Nogueira (PP-PI) e Rogério Marinho (PL-RN) também defendem que eventuais reduções ocorram via negociação coletiva. Já os governistas apostam no avanço da PEC: “Ninguém quer ser contra o trabalhador às vésperas de uma eleição”, diz o senador Rogério Carvalho (PT-SE).
🔸 Editoras de livros escolares têm sofrido pressão do agronegócio para suavizar conteúdos sobre desmatamento, mudanças climáticas e agrotóxicos. O Aos Fatos ouviu, sob a condição de anonimato, 12 trabalhadores do mercado editorial, que denunciaram sofrer pressão para retirar dos livros escolares conteúdos verdadeiros, mas considerados negativos para o agronegócio. Um exemplo: um livro de Ciências substituiu, entre 2020 e 2026, o termo “agrotóxicos” por “defensivos agrícolas”, após ofensiva liderada pela ONG De Olho no Material Escolar (Donme), financiada por grandes empresas do setor. Com a pressão, editoras cederam ao lobby. O caso mais citado é o da Somos Educação (dona das marcas Ática, Saraiva, Scipione, Anglo e Pitágoras). “Não pode falar que as queimadas têm a ver com as pastagens. Se for mencionar, tem que colocar a fonte”, conta um editor.
🔸 Na maior cadeia montanhosa do país, a Serra do Espinhaço, a mineração se expande e ameaça áreas estratégicas para a produção de água e conservação da biodiversidade. O Eco mostra os dados concretos do avanço, publicados em estudo da revista “Science of the Total Environment”. Segundo os pesquisadores, 3.668 processos minerários já incidem na serra, entre Minas Gerais e Bahia: 1.360 em operação ou em fase avançada e outros 2.308 em planejamento, todos concentrados justamente nas regiões de maior valor ambiental da maior cordilheira do país, que abastece bacias como as dos rios São Francisco, Doce e Jequitinhonha. “Há espécies que praticamente só existem em determinados afloramentos rochosos, numa serra específica”, explica a bióloga Leila Meyer, coautora do estudo. “Quando uma mina ocupa esse espaço, não há para onde a espécie migrar.”
🔸 Depois da dispersão da cracolândia no centro de São Paulo, o uso de crack se espalhou ao longo da Marginal Tietê. Desde maio de 2025, a revista piauí percorreu 11 vezes a pé trechos em toda a extensão da via para conversar com homens e mulheres que fazem uso de drogas a céu aberto. Em alguns pontos, é possível contar até cinquenta pessoas reunidas, em fluxo contínuo, sob pontes e em praças, expostas à poluição, ao risco de atropelamento e à violência. O avanço ocorreu no semestre seguinte às operações conjuntas do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e da Prefeitura, que anunciaram o “fim” da cracolândia. “A cracolândia não foi resolvida. Agora, está mais difícil localizar essa população. Muitos grupos se afastaram dos projetos que se dedicavam ao resgate da dignidade dessas pessoas. Estão em lugares distantes dos equipamentos que poderiam, ao menos, fornecer alimentação”, afirma o frei Marcos Melo, que trabalha no Sefras – Ação Social Franciscana, instituição que presta assistência à população de rua.
📮 Outras histórias
No Rio Grande do Norte, movimentos protestam contra uma lei que criminaliza a luta pelo direito à moradia no estado. Aprovado no final de 2024, o projeto de lei de autoria do deputado Gustavo Carvalho (PL) foi vetado pela governadora Fátima Bezerra (PT) por inconstitucionalidade – mas o veto acabou derrubado em dezembro de 2025, como conta a Saiba Mais. Para Bia Soares, integrante da coordenação nacional do MLB, o projeto “criminaliza as ocupações urbanas”, prevendo inclusive a perda de direitos para integrantes desses movimentos de luta pelo direito à moradia. “É uma lei inconstitucional, que em vez de debater um problema central, que é o déficit habitacional, criminaliza aqueles que lutam por um direito constitucional, que é o de ter um teto sobre sua cabeça”, diz.
📌 Investigação
Pré-candidato ao Senado por Goiás, o delegado Humberto Teófilo (Novo) usa as estruturas da Polícia Civil para viralizar nas redes sociais. Ele publica vídeos em que leva crianças e adolescentes a celas vazias, sem camas, com paredes pichadas e sem higienização. Uma publicação do tipo somou mais de 696 mil curtidas no Instagram. O Núcleo analisou as postagens do delegado, que compartilha também informações sobre ocorrências policiais, prisões de suspeitos, exibição de drogas e armamentos. Os conteúdos violam uma portaria que estabelece as regras da comunicação da Polícia Civil de Goiás. O texto proíbe que os servidores exibam em plataformas digitais logos, viaturas, armas e equipamentos da corporação. Os policiais também não podem publicar informações sobre ocorrências que não tenham sido divulgadas pelos canais oficiais da Polícia Civil – norma que o delegado desobedece com frequência.
🍂 Meio ambiente
Mesmo após denúncias de violações a direitos de povos tradicionais de Silves (AM) e de potenciais impactos socioambientais, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis autorizou a expansão do Projeto Azulão, administrado pela Eneva S/A. O novo gasoduto integra a infraestrutura necessária ao funcionamento do Cluster 8 de Azulão, conjunto de poços produtores que compartilham sistemas de coleta e transporte de gás. A Revista Cenarium lembra que a empresa é alvo de um inquérito do Ministério Público Federal (MPF) por suspeita de ameaçar lideranças indígenas na área que vem sendo utilizada para extração de combustíveis fósseis. O MPF também sustenta que o licenciamento ambiental estadual – que liberou o Complexo do Azulão – não avaliou de forma adequada os impactos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais potencialmente afetados, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.
📙 Cultura
Pelo terceiro ano consecutivo, blocos tradicionais do Carnaval de São Paulo relatam má vontade política da prefeitura, com o estreitamento das verbas, dependência extrema de patrocinadores, mudanças de horários e discursos do prefeito Ricardo Nunes (MDB) dizendo que os blocos precisam ser empreendedores e não depender de recursos públicos. A Escotilha ouviu os representantes dos blocos, que acreditam que, se a política da atual gestão for mantida, o Carnaval de rua de São Paulo será sufocado nos próximos anos. “O que está acontecendo é que a prefeitura está transformando o Carnaval muito mais em um show onde vem blocos e artistas consagrados de fora da cidade do que naquela ideia original de fortalecê-lo surgido da comunidade e da manifestação espontânea das pessoas e coletivos dos bairros”, afirma o vereador Nabil Bonduki (PT), ex-secretário de Cultura de São Paulo, que tem atuado como interlocutor entre as agremiações e os órgãos municipais.
🎧 Podcast
Um grupo de pais de crianças com síndrome de Down abriram uma ação no Supremo Tribunal Federal contra duas leis do Paraná, que davam à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e entidades semelhantes o mesmo status de escola. Segundo a ação, as legislações estaduais criam um ambiente segregado na educação das pessoas com deficiência, contrariando as bases da Constituição. A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, mergulha no embate jurídico e busca entender os interesses por trás das leis paranaenses – que vão contra o consenso mundial sobre a educação inclusiva.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Ao menos 16,6 milhões de pessoas estavam direta ou indiretamente empregadas no setor de energias renováveis, mas apenas 32% são mulheres – abaixo da média global da força de trabalho, de 43,4% –, segundo o relatório da Agência Internacional de Energias Renováveis. A “Diálogos da Transição”, newsletter da Eixos, reúne os dados do documento, que revela a falta de mulheres em funções técnicas e executivas. Enquanto elas representam 45% das funções administrativas em empresas de energia eólica e solar, entre outras, esse percentual despenca para 28% em vagas ligadas a STEM, como engenheiras, cientistas de dados e especialistas técnicos, e apenas 22% dos empregos de média qualificação, como instalação de sistemas solares ou construção. Nos níveis mais altos de tomada de decisão, a presença feminina é ainda mais reduzida: 26% dos cargos de gerência intermediária e 19% dos altos executivos ou membros de conselhos.




