O poder dos algoritmos nas eleições e o tráfico de meninas indígenas
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🔸Vídeos gerados por inteligência artificial vêm sendo usados para simular agressões a mulheres por motivação política, com cenas explícitas de violência que circulam nas redes desde dezembro de 2025. A Lupa identificou conteúdos com mais de 3 milhões de visualizações em plataformas como TikTok, Instagram, Facebook e YouTube. Os vídeos seguem um padrão: mulheres vestidas com camisetas do PT aparecem sendo agredidas por figuras como supostos pastores. Eles dizem frases como “Sai desse corpo, petista”. Um único perfil no TikTok, com centenas de milhares de seguidores, concentra grande parte das postagens e ainda lucra com cursos que ensinam a produzir esse tipo de conteúdo. Um vídeo em que um pastor dá tapas nos rostos de mulheres vestidas com uma camiseta do PT soma mais de 1,6 milhão de visualizações. Há também conteúdos racistas e violentos contra pessoas negras e desinformação direcionada a figuras públicas, como a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).
🔸 A propósito: os sistemas digitais passaram a definir a dinâmica social com o mesmo peso do Congresso ou da Constituição. É o que afirmam Virgilio Almeida, Ricardo Fabrino Mendonça, Fernando Filgueiras, autores do livro “Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social”. Eles alertam para os efeitos desse poder nas eleições de 2026, as primeiras no país sob o impacto massificado da inteligência artificial generativa. Em entrevista ao Intercept Brasil, Almeida e Filgueiras explicam que o principal risco está na manipulação invisível, baseada no uso de dados pessoais e em interações diretas com sistemas de IA. Como decidem o que ganha visibilidade ou é ocultado, esses sistemas afetam diretamente processos como campanhas eleitorais. “Os algoritmos não são neutros, nem mágicos. Eles têm intenções e essas intenções são definidas pelos humanos”, destaca Almeida.
🔸 Para ouvir: nesta semana, o impeachment de Dilma Rousseff completa 10 anos, um marco que alterou a dinâmica política do país. A abertura do processo foi aprovada na Câmara por 367 votos a 137, em uma sessão marcada por discursos de ódio e episódios como o voto de Jair Bolsonaro (PL), então deputado, que homenageou um torturador da ditadura. Em entrevista ao “Pauta Pública”, podcast da Agência Pública, o ex-deputado federal e pré-candidato à vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo pelo PT, Jean Wyllys, relembra o clima daquele dia em que também foi ofendido por Bolsonaro com falas homofóbicas e reagiu com uma cusparada. “Setores do PT meio que entregaram a Dilma de mão e não fizeram nada. O lado das pessoas contra o impeachment era menor, mas, se você olhava do ponto de vista étnico-racial, eram os pretos, os sem terra, as mulheres feministas e o movimento LGBT. No lado direito, eram os brancos, vestidos de verde e amarelo abrindo champanhe.”
🔸 Nas eleições deste ano, há três pré-candidatos à Presidência autodeclarados negros, em um cenário com ao menos 12 nomes na disputa até o momento. São eles: Samara Martins Silva (UP), Hertz da Conceição Dias (PSTU) e o ex-deputado federal Cabo Daciolo (Mobiliza). A Alma Preta mostra um breve perfil de cada um deles. Samara Martins é a única mulher entre os pré-candidatos, com trajetória ligada ao movimento estudantil e à militância negra, além de atuação na União Popular e na Frente Negra Revolucionária. Já Hertz Dias é professor, historiador e ativista do movimento negro no Maranhão, com atuação política associada à cultura hip-hop e à luta por moradia e direitos. Cabo Daciolo, por sua vez, é o nome mais conhecido nacionalmente, tendo disputado a eleição presidencial de 2018, quando obteve cerca de 1,3 milhão de votos.
📮 Outras histórias
Em Boca do Acre, cidade do Amazonas, a execução de Luciano Machado, de 43 anos, expõe a atuação de pistoleiros na região da tríplice fronteira Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia), marcada por conflitos agrários e ausência do Estado. Suspeito de envolvimento em roubo de gado, ele foi emboscado por homens armados e morto com cerca de 20 tiros em março, em um crime tratado por moradores como uma execução ligada à chamada “justiça dos jagunços”. O Varadouro explica que se trata de uma lógica paralela de poder, em que suspeitas, como o suposto roubo de gado, são resolvidas fora do sistema legal, por meio de execuções encomendadas por fazendeiros ou seus intermediários. Assim, a Amacro, como descreve a reportagem, é o “cangaço amazônico”, onde conflitos são resolvidos à bala para impor a lei do mais forte numa das regiões mais conflagradas da Amazônia.
📌 Investigação
A exploração sexual e o tráfico de pessoas atingem meninas e mulheres indígenas, sobretudo dos povos Manchineri e Jaminawa, no Acre. A fiscalização precária na fronteira favorece o aliciamento, com ramais, estradas vicinais e travessias não oficiais dificultam o controle e ajudam organizações criminosas. A Revista AzMina identificou 3.443 casos de violações de direitos humanos denunciados no Disque 100 com indícios de tráfico de pessoas não foram classificados dessa forma. A apuração se baseou no Protocolo de Palermo, adotado pelo Brasil, que define o tráfico de pessoas como recrutar, transportar ou abrigar alguém mediante fraude, ameaça ou abuso para exploração. Foram analisados 16 mil registros que envolviam vítimas mulheres que cruzou diversos tipos de violência para detectar a possível subnotificação de tráfico humano. A reportagem mostra que a identidade étnico-racial também é apagada no processo em que mulheres indígenas passam a se apresentar como pardas.
🍂 Meio ambiente
“Se a gente tem a agroecologia como uma das formas de enfrentamento às mudanças do clima, com o seu papel de manutenção da biodiversidade, da conservação do solo, das tecnologias de captação de água, por exemplo, quando a gente pensa em políticas públicas que fortalecem a agroecologia, a gente consegue fazer uma leitura de que essas políticas públicas são soluções climáticas super importantes”, afirma a Helena Lopes, pesquisadora da Agenda de Saúde e Agroecologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). À Eco Nordeste ela fala sobre como se define um território agroecológico na prática, sua relação com o Semiárido brasileiro e os desafios políticos que aguardam as populações desses territórios neste ano. “Defender a democracia é fundamental para garantir a continuidade da agroecologia, nos governos democráticos a gente tem uma capacidade de participação, de incidência, de diálogo muito mais ampliado.”
📙 Cultura
Por meio do audiovisual, as artistas indígenas Maiara Astarte, Vicka Tupi e Karol Kaysá narram a ideia de retomada indígena e buscam desmistificar estereótipos que não condizem com a realidade cultural dos povos. Elas fundaram juntas o Coletivo Sementes Urbanas e com videocasts, idas às aldeias e diálogos, as artistas têm construído narrativas para o meio digital para refletir sobre a vivência dos indígenas na cidade. O #Colabora explica que o termo retomada remete a uma prática dos povos indígenas na luta pela demarcação de terras. Além da busca por recuperar um território ancestral, o conceito também está ligado com as relações culturais, espirituais e cosmológicas com o ambiente. “O Sementes Urbanas realmente é um presente dos encantados, das nossas ancestrais, e eu sinto que estamos sendo usadas para realizá-lo. Transformar essas inquietações em arte”, afrma Kaysá.
🎧 Podcast
Apresentada como revolucionária para restaurar movimentos em pessoas paraplégicas, a polilaminina, proteína descoberta pela pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, enfrenta ceticismo da comunidade científica por possíveis falhas metodológicas em estudos iniciais e pela ausência de grupos de controle rigorosos. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, narra como a pressão pública e a comoção social podem prejudicar o desenvolvimento científico ao criar um ambiente de expectativas desproporcionais – o que pode atropelar o rigor e as etapas fundamentais da pesquisa. É o caso da liberação mais rápida de testes pela Anvisa e uso em pacientes fora do ambiente de estudo clínico via decisões judiciais. O episódio traça ainda paralelos com casos anteriores de falsas promessas médicas e alerta para os riscos de se priorizar o entusiasmo midiático ao invés do rigor científico.
👩🏽💻 Tecnologia
A minuta de projeto para a Lei Geral de Cibersegurança foi celebrada por especialistas da área. Apresentado pelo Comitê Nacional de Cibersegurança, o documento estabelece princípios, diretrizes e regras para a segurança cibernética, além de instituir o Sistema Nacional de Cibersegurança, criar a figura da Autoridade Nacional de Cibersegurança e integrar autoridades setoriais e demais órgãos num arranjo cooperativo. Segundo o Mobile Time, o texto funciona como uma espécie de Marco Civil do setor e reduz a ambiguidade jurídica ao apresentar definições sobre conceitos como ciberameaça, invasão ética e até mesmo ciberespaço.”O maior mérito da minuta é organizar, pela primeira vez, uma arquitetura nacional de cibersegurança”, afirma Antonielle Freitas, advogada especialista em privacidade e proteção de dados. “Essa estrutura vem acompanhada de uma lógica regulatória baseada em gestão de riscos e proporcionalidade.”




