A Perna Cabeluda no Oscar e um serviço de gramática por telefone
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🔸 “O Agente Secreto” chega ao Oscar com prestígio. As quatro indicações ao prêmio – Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco – consagram uma trajetória que começou no Festival de Cannes, em maio do ano passado, quando Wagner Moura foi escolhido Melhor Ator e Kleber Mendonça Filho reconhecido como Melhor Diretor. O Tangerina traz a lista completa de indicados ao Oscar e lembra que “O Agente Secreto” se equipara ao recorde do cinema nacional na premiação, “Cidade de Deus” (2002). No Oscar de 2004, o longa dirigido por Fernando Meirelles também concorreu em quatro categorias, mas não conquistou estatuetas. A 98ª edição do Oscar será realizada no dia 15 de março.
🔸O longa brasileiro, aliás, já conquistou mais de 50 prêmios em festivais e associações de críticos no Brasil e no exterior. O Portal Terra enumera as vitórias do filme, como o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator de Drama, o Critics Choice Awards de Melhor Filme Internacional e prêmios das três principais associações de críticos dos Estados Unidos, como New York Film Critics Circle, Los Angeles Film Critics Association e National Society of Film Critics. A reportagem lembra ainda que o desempenho nas premiações impulsionou o público nos cinemas brasileiros, com crescimento de 261% na bilheteria após as vitórias no Globo de Ouro.
🔸 O êxito internacional de “O Agente Secreto” é fruto de uma trajetória centenária do cinema recifense, como afirmou o diretor Kleber Mendonça Filho, um dos principais nomes do cinema nacional da atualidade. O Nexo mostra como Recife é um dos polos cinematográficos pioneiros no país e reconstrói o percurso da sétima arte na capital pernambucana, desde as primeiras exibições no início do século 20, passando pelo Ciclo do Recife nos anos 1920, pela retomada experimental com o uso da Super 8 nos anos 1970 e pelo Cinema da Retomada a partir dos anos 1990, com marcos como “Baile Perfumado”, (1996), com direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. “É um cinema humano, é um cinema que acredita na sua voz, no seu sotaque, na sua potência. Isso acaba se vendo em tela”, diz Mariana Jacob, diretora de produção de “O Agente Secreto”, sobre o audiovisual recifense.
🔸 Será que a Perna Cabeluda vai ao Oscar? Lenda urbana pernambucana dos anos 1970, o mito ganhou projeção internacional ao integrar “O Agente Secreto”, então transformada em alegoria da violência e do autoritarismo do período da ditadura. Representada no filme por um protótipo em silicone de uma perna em tamanho real, pesando cerca de 2 kg, a perna circulou no tapete vermelho de diversos festivais. A revista piauí acompanhou a prótese de aparência arroxeada e purulenta na estreia do longa no Cinema São Luiz, em setembro do ano passado, em Recife. O adereço esteve com o elenco também no tapete vermelho do Festival de Cinema do Rio e, depois, em Cannes – lá, interagiu com o público nas ruas e praias da cidade francesa. Segundo Silvia Cruz, diretora da Vitrine Filmes, produtora responsável pela divulgação do filme no Brasil, a Perna Cabeluda serve para “potencializar a conexão do público com o filme”.
🔸 Em tempo: o Brasil chega ao Oscar com uma quinta indicação além de “O Agente Secreto”. O diretor de fotografia Adolpho Veloso concorre à estatueta de Melhor Fotografia pelo trabalho em “Sonhos de Trem”, dirigido por Clint Bentley. A CartaCapital traça a trajetória de Veloso, que construiu carreira entre o cinema independente brasileiro e produções internacionais, passando por trabalhos em publicidade e colaborações anteriores com Bentley, como “Jockey” (2021). O trabalho de Veloso no longa já foi reconhecido nesta temporada de prêmios, com a conquista do Critics Choice Awards de Melhor Direção de Fotografia.
📮 Outras histórias
No bairro de Cajazeiras XI, em Salvador, o terreiro Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza foi alvo de um ataque de intolerância e racismo religioso na noite de sábado passado. No muro da casa, foram pichadas em tinta vermelha as palavras “assassinos” e “Jesus”, informa a revista Afirmativa. O babalorixá Pai Mutá conta que só soube do ataque na manhã seguinte, avisado por filhas de santo: “Fiquei muito irritado, nervoso. Bate uma sensação de impotência”. Ele questiona o uso do nome de Jesus no ato de ódio. “Jesus é um ser de luz, de amor. Deveriam estar pregando o amor, a união, não se pode ter paz sem amor”. Com mais de 33 anos de atuação e histórico de trabalhos sociais na comunidade, o terreiro registrou boletim de ocorrência e o caso foi encaminhado à Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa.
📌 Investigação
Em uma hora e 40 minutos, o cantor Leo Chaves, da dupla sertaneja Victor&Leo, recebeu da Secretaria de Educação do Estado de Sergipe R$ 143 mil – o equivalente a mais de dois anos de salário de um professor estadual em começo de carreira. Segundo a Mangue, o contrato foi feito por inexigibilidade de licitação, e o governo alega que “a contratação direta mostra-se plenamente justificada, em razão de sua notória especialização, singularidade técnica e elevada relevância para o contexto educacional nacional”. A notória especialização, neste caso, é um “bacharelado em Coaching pela Florida Christian University e formação em Pedagogia”. A universidade pela qual Chaves diz ter se formado teve a atuação proibida pelo governo do Rio Grande do Norte, sob a alegação de propaganda enganosa e oferecimento de cursos sem validação no Brasil.
🍂 Meio ambiente
Em meio ao avanço do agronegócio, que carrega o uso intensivo de agrotóxicos, no Matopiba – fronteira agrícola que engloba partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, pesquisadores da Universidade Estadual do Sul do Maranhão descobriram uma bactéria capaz de reduzir a dependência de fertilizantes e pesticidas. Batizada de Mycobacterium agroflorensis, a cepa atua como biofertilizante natural e possui características morfológicas e fisiológicas inéditas. A Amazônia Vox destaca como a nova técnica pode revolucionar o manejo agrícola em regiões sensíveis, como o Cerrado e a Amazônia. Após uma série de testes microbiológicos, agronômicos e genéticos, os pesquisadores confirmaram se tratar de uma cepa que não pode causar doenças. O grupo de mutações tem um elevado poder de fixação biológica de nutrientes essenciais ao crescimento vegetal. “A germinação com fertilizante químico é mais rápida, mas o crescimento com a microbactéria é mais saudável. A planta cresce mais, fica mais verde, consome menos água e não carrega resíduos químicos”, afirma o professor de Ciências Biológicas e coordenador da pesquisa, Zilmar Timóteo Soares.
📙 Cultura
“Eu cresci com poucas referências de mulheres pretas na TV, e, quando existiam, elas estavam em papéis estereotipados. E, com uma mãe professora de História, sou fascinada por estudar o passado, em especial, filmes de época”, afirma a diretora, roteirista e produtora curitibana Marina Barancelli. No ano passado, ela lançou seu segundo filme, “Rapsódia em Azul: Balé, Resistência e Ancestralidade Negra”, inspirado na vida da cantora e dançarina francesa Josephine Baker, importante nome da luta feminista e antirracista. Com mais de 15 anos de experiência em artes, a cineasta foi a primeira não britânica aceita na National Youth Film Academy do Reino Unido. Em entrevista ao Plural, Barancelli revisita a própria trajetória artística e detalha o processo de produção do curta-metragem. “Josephine ilustra perfeitamente o que significa ser um artista preto nos dias de hoje. Ainda temos exemplos de mulheres pretas que, mesmo com talento enorme e com histórias que não se resumem à pobreza, ao trabalho ou ao sacrifício, acabam sendo reduzidas a isso.”
🎧 Podcast
Enquanto os serviços telefônicos desaparecem aos poucos, o Telegramática completou 40 anos em 2025. Mantido pela Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, o serviço resolve dúvidas de Língua Portuguesa, de segunda a sexta, em horário comercial. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, narra a história do Telegramática e conversa com Rita Fonseca, professora de Português, que atua no serviço há seis anos. Embora a equipe tenha diminuído em consequência da redução da demanda ao longo dos anos, frequentemente recebem ligações de clientes fiéis. “Pela voz, a gente já sabe quem é. Tem um senhor que já há muitos anos nos acompanha aqui. O Seu Oliveira, ele escreve romances, crônicas e tem um vocabulário muito rebuscado. Às vezes, escreve e acha que aquela palavra está muito comum. E então ele liga: ‘Não quero essa palavra. Eu quero um sinônimo mais elaborado’”, conta Fonseca.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
“Agora nos colocamos enquanto mulheres negras evangélicas para dialogar e lutar. Eles não mandam em nós – nem na nossa fé. A nossa fé é em Jesus, e não neles [líderes religiosos]”, afirma Andressa Oliveira, militante antirracista do Movimento Negro Evangélico do Rio de Janeiro. A ativista fez parte do Comitê de Evangélicas da 2ª Marcha das Mulheres Negras. À Gênero e Número ela fala sobre como a espiritualidade não é dissociada da experiência concreta e como a luta se por justiça de gênero e raça se manifesta dentro e fora das igrejas. “Há diversas passagens que falam sobre proteger as mulheres. O próprio Jesus protegeu uma mulher que ia ser apedrejada. Nós dialogamos com as irmãs para que elas não se submetam às violências. Para que entendam que não estão desagradando a Deus se denunciarem um marido agressor. E mais: se o pastor disser para apenas orar e perdoar, ela denuncia o marido, e denuncia o pastor também.”




