🔸“A jornada prolongada [...] recai de modo desproporcional sobre os trabalhadores de menor renda e menor escolaridade. Reduzi-la é, nessa exata medida, providência de justiça distributiva, e não apenas de política laboral”, afirmou o senador Omar Aziz (PSD-AM) em relatório. A CartaCapital detalha o parecer favorável do relator à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala 6x1, com redução da jornada de trabalho semanal para 40 horas. Aziz rejeitou as alterações sugeridas pelo Senado e manteve o texto aprovado pela Câmara para acelerar a tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Segundo o senador, a mudança é uma “atualização há muito devida”, visto que o limite de 44 horas vigora há 38 anos sem alteração. Se aprovado o projeto, a transição será gradual: a carga cairá para 42 horas em dois meses, com dois dias de repouso, e atingirá 40 horas em um ano.
🔸 Só quatro das candidaturas presidenciais apresentam propostas concretas para a migração em seus planos de governo. Hertz Dias (PSTU), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) abordam a questão. O MigraMundo destaca que o cenário repete a tendência de pouca atenção ao tema verificada nos pleitos de 2018 e 2022. Lula foca na consolidação de uma “política migratória humanista e estratégica” e no “acolhimento digno de migrantes e refugiados”. Já Caiado prioriza a assistência e a valorização do brasileiro no exterior por meio de sua diáspora. Por sua vez, Zema propõe “abrir caminhos legais à imigração de talentos e profissionais qualificados”. Hertz propõe concessão imediata de nacionalidade e regularização de documentos, além da garantia de direitos civis, trabalhistas e sociais.
🔸 As simulações para um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL) devem ser interpretadas com cautela. O Congresso em Foco analisa as pesquisas de 2026 e compara com resultados de anos anteriores entre os principais concorrentes à Presidência. Na última semana, quatro pesquisas mostram o petista com vantagens estreitas de um a cinco pontos sobre o senador. Exemplo de que as pesquisas representam apenas o momento atual, em 2022, as projeções expressavam vantagem de até 18 pontos para Lula, mas a diferença nas urnas foi de apenas 1,8 ponto. Na ocasião, Jair Bolsonaro (PL) cresceu entre os turnos e recebeu mais de 7 milhões de votos novos devido à definição tardia do voto estratégico na reta final da disputa.
🔸 “Os territórios de matriz africana não são templos religiosos. Eles são espaços de prática de tradição e de existência de tradição e de valores civilizatórios”, afirma a historiadora e coordenadora nacional do Pontão de Cultura Ancestralidade Africana no Brasil, Silvany Euclênio. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o racismo religioso é uma realidade para mais de 76% dos terreiros brasileiros. O Nonada registra que a comunidade tradicional reivindica a aplicação da Lei 10.639 – que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas nas escolas – e a titulação de suas terras sagradas para frear invasões. Para Bárbara Stela, pedagoga e coordenadora da Biblioteca Ikòjópò Ála Omodé / Maria Stella de Azevedo Santos, em Salvador (BA), a juventude deve se aproximar dos pleitos, dos debates e das políticas públicas, “porque, lá no futuro – além do aqui e agora –, são essas questões que vão reverberar em melhores condições de existência”.
📮 Outras histórias
Por dois anos, duas tendas de lona foram salas de aula improvisadas para 125 estudantes indígenas na comunidade Mbyá-Guarani Nhe’engatu, em Viamão (RS). Em 7 de agosto, as tendas, que deveriam ser temporárias, caíram com as chuvas, conta o Matinal. “Manter 125 alunos no ‘relento jurídico e material’ por mais de dois anos é perpetuar uma violação contínua à dignidade da pessoa humana e ao princípio da prioridade absoluta da criança e do adolescente”, afirmou a juíza federal Maria Isabel Pezzi Klein em uma das primeiras decisões, em abril, com exigências ao governo estadual para regularização. Embora a Justiça tenha reconhecido o direito dos Mbyá-Guarani a uma estrutura escolar digna, o governo de Eduardo Leite (PSD) recorreu da decisão, o que prolongou a espera da comunidade. De acordo com o Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas de 2025, do Conselho Indigenista Missionário, o Rio Grande do Sul é o segundo estado com mais casos de desassistência na educação indígena do país.
📌 Investigação
Em 2025, quatro em cada 10 vídeos postados pela Polícia Militar de São Paulo em seu canal do YouTube continham deboche, humilhação ou espetacularização da violência – os vídeos foram gravados com câmeras corporais, descumprindo regras federais. “Foi de arrasta”, “cai, cai, ladrão” e “quase encontrou Jesus” são algumas das expressões adotadas para debochar de mortes e expor vítimas e policiais. O Intercept Brasil mostra como esse sensacionalismo engaja: vídeos violentos têm audiência mediana 24 vezes maior que os neutros. O formato viola a diretriz da própria corporação de preservar a dignidade das pessoas eventualmente identificadas. Ignorando a portaria federal que proíbe registros que causem constrangimento ou submetam a situações vexatórias, o governo paulista recebeu R$ 27 milhões da União, cuja fiscalização se restringe à análise burocrática de documentos.
🍂 Meio ambiente
O governo do Mato Grosso quer flexibilizar acordo que impede uso de madeira nativa na indústria. O Eh Fonte revela que a Secretaria de Meio Ambiente propôs alterar o Termo de Compromisso Ambiental para permitir que indústrias usem até 5% de madeira nativa desmatada como combustível depois de 2035. O acordo original, assinado há menos de um mês pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos), prevê a eliminação total desse uso. Enquanto a secretária da pasta, Mauren Lazzaretti, defende a flexibilização como aplicação de “economia circular” para evitar desperdícios, o Ministério Público do estado e o setor florestal criticam a medida. O presidente da Associação de Reflorestadores de Mato Grosso, Fausto Takizawa, diz que causou “estranheza a manobra” e que ela deve beneficiar quem busca matéria-prima barata ignorando a sustentabilidade.
📙 Cultura
“A periferia não pode ser tratada apenas como lugar onde a cultura precisa chegar”, escreve Emiliano Zapata, Diretor de Inovação da Spcine, empresa pública de fomento ao cinema e audiovisual da Prefeitura de São Paulo. Em artigo no Le Monde Diplomatique Brasil, ele contesta a noção tradicional de democratização cultural que foca apenas no acesso gratuito. Para Zapata, a verdadeira inclusão exige que a experiência artística esteja próxima de onde o morador vive, superando as barreiras e a desigualdade. Ele ressalta que bairros periféricos já são polos de criação e talentos, mas carecem de investimento em fomento, formação e circulação. “Cinema, games e audiovisual são cultura, mas também são setores que geram trabalho, renda e novas profissões. Quando aproximamos esses universos de quem historicamente teve menos acesso a eles, estamos ampliando oportunidades”, diz.
🎧 Podcast
“É uma luta necessária de aldear a política para que a gente refloreste esse Congresso”, afirma a liderança indígena e candidata à Câmara dos Deputados Vanda Witoto (MDB-AM). No “Sumaúma Debate: Repovoar o Congresso”, produção da Sumaúma, ela destaca que prioriza as demarcações e o acesso à água tratada na Amazônia, além de propor a criação de mecanismos legais que reconheçam as montanhas, os rios e a floresta como sujeitos com direito à existência. Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, climatologista e candidata a deputada federal, Luciana Gatti (PSOL-SP) também participou da conversa. Ela sugere um decreto emergencial para transformar todas as terras públicas sem destinação do país em uma reserva federal provisória. A partir disso, comissões técnicas fariam a avaliação para destinar essas áreas como terras indígenas, quilombolas ou reservas extrativistas. Outra prioridade é a decretação de um “estado de emergência climática” nacional para frear as devastações.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
“A ginecologia natural é um movimento de resgate da autonomia do corpo das pessoas com útero. Enxergo muito como um movimento político e também espiritual, em que a gente aprende sobre o próprio corpo por meio dos saberes tradicionais”, define a enfermeira, parteira e ativista Jéssica Caroline da Silva. De origem Kariri e Guarani, ela propaga saberes tradicionais em Parelheiros, extremo sul de São Paulo. A Agência Mural conta que Jéssica oferece cursos de fitoterapia e doulagem para compartilhar saberes sobre ervas medicinais e autoexame em sua casa. Para a enfermeira, falar sobre o corpo a partir de conhecimentos ancestrais é uma ferramenta política de autonomia, sobretudo diante do acesso desigual à saúde. “Em uma sociedade que cresce na perspectiva do capital, onde tudo é descartável, as parteiras compreendem e aprofundam o estudo sobre a vida. Elas são chamadas de guardiãs da vida, que cuidam desde a semente e aguardam esse momento da chegada”, afirma.



