O PCC na lista de terrorismo de Trump e a maior viagem de baleias-jubarte
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
Oi, gente! Bom dia!
Na próxima segunda-feira, a Brasis vai fazer uma pausa. Isso porque, neste fim de semana, a equipe estará reunida no Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, realizado pela Ajor, no Rio de Janeiro.
O evento promove debates, oficinas e encontros que ajudam a pensar os caminhos do jornalismo digital no Brasil. Para participar, reserve seu ingresso no Sympla.
Voltamos na terça-feira.
Até já!
🔸 Os EUA decidiram classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas globais na lista do governo de Donald Trump. O Departamento de Estado do país também afirmou que ambos os grupos devem passar a ser considerados organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 junho. Segundo o Jota, essa lista tem grupos como o Hamas, da Palestina, e o IRA, da Irlanda do Norte. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que PCC e CV comandam milhares de integrantes e são responsáveis por ataques contra policiais, agentes públicos e civis brasileiros. “Sua influência e redes ilegais ultrapassam muito as fronteiras do Brasil e afetam nossa região e nosso país”, disse, em comunicado. Segundo Rubio, o governo Trump continuará usando “todas as ferramentas disponíveis” para combater “narcoterroristas violentos” e impedir a circulação de drogas ilegais nos EUA.
🔸 O fim da escala 6x1 pode estar próximo, mas não está garantido. O texto que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas sem corte salarial precisa passar por dois turnos de votação no Senado, com apoio mínimo de três quintos dos parlamentares. Nesta semana, lideranças empresariais se reuniram com Davi Alcolumbre (União-AP) e líderes partidários para discutir a tramitação do tema. A Agência Pública destaca que o encontro reforçou a expectativa de que o Senado se torne o principal espaço de pressão por alterações no texto aprovado pela Câmara. Há ainda as “pegadinhas” na PEC aprovada. Uma delas é a ampliação da figura do trabalhador “hipersuficiente”, criada na reforma trabalhista de 2017. Pela proposta, empregados com ensino superior e salário acima de cerca de R$ 21 mil poderão negociar individualmente suas escalas, o que abre brechas para manter jornadas superiores às 40 horas previstas na PEC.
🔸 Embora os homicídios de mulheres tenham caído 27,7% em dez anos, o Brasil não conseguiu diminuir os assassinatos cometidos dentro de casa. Segundo o Atlas da Violência 2026, as mortes em espaços públicos passaram de 3,47 para 2,17 por 100 mil habitantes, mas os homicídios domésticos permaneceram praticamente estáveis entre 2014 e 2024. A Ponte ressalta que a casa segue como o principal local de risco para mulheres brasileiras: 79,9% das agressões registradas pelo sistema de saúde ocorreram dentro da residência da vítima em 2024. O Atlas mostra ainda que a violência atinge de forma desproporcional mulheres negras – a taxa de homicídios foi 66,7% maior nesse recorte do que entre mulheres não negras.
🔸 A propósito: o apagamento do debate de gênero nas escolas alimenta a violência contra mulheres. O próprio Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, lançado pelo governo federal neste ano, reconhece a “reprodução de estereótipos de gênero” na educação como uma das causas centrais da violência. Apesar disso, o termo “gênero” foi retirado do novo Plano Nacional de Educação após pressão de grupos conservadores. A Gênero e Número mostra como esse silenciamento tem sido impulsionado por pressões políticas, ofensivas conservadoras no Congresso e campanhas digitais antigênero. A ofensiva começou ainda em 2011, com a suspensão do material “Escola sem Homofobia”, apelidado de “kit gay” por Jair Bolsonaro, e se intensificou nos últimos anos com propostas ligadas ao PL e ao Novo.
🔸 Nas últimos 30 anos, todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro foram presos, cassados ou renunciaram para escapar da cadeia. Hoje, o estado é administrado por um desembargador no qual ninguém votou – Ricardo Couto assumiu o cargo (antes ocupado por Cláudio Castro) sem ter disputado eleições após o colapso da linha sucessória do estado. No Intercept Brasil, Cecília Olliveira destrincha o sistema que fabrica corrupção no governo do Rio. O governador interino já demitiu mais de 2,7 mil cargos comissionados ligados ao grupo político de Castro e prometeu dar autonomia às perícias policiais. As medidas provocaram reação imediata da Alerj, que tentou no STF recolocar o presidente da Casa, Douglas Ruas (PL), no comando do governo. Couto, segundo a reportagem, virou uma “anomalia” por não depender de partidos ou alianças eleitorais.
📮 Outras histórias
“Quando saio pra dar um giro, esqueço de tudo.” A frase de um jovem motociclista resume o que muitos praticantes do “grau” dizem ao explicar por que empinam motos pelas periferias de São Paulo. Apesar de ser considerada infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro, motociclistas descrevem a prática como uma forma de lazer e identidade. A Agência Mural mergulha no universo do “grau” e conta que muitos praticantes começaram ainda na infância, empinando bicicletas nas ruas da quebrada e observando os mais velhos. Wesley, 21 anos, conta que começou aos 13, inspirado pelos motociclistas que via na porta da escola: “A gente, menorzão, ficava olhando e pensando: ‘Quero fazer igual também’”. Mas há muitas tensões em torno da atividade. Além da repressão policial e das punições previstas na lei, moradores reclamam do barulho das motos ( o “randandandan”) e dos riscos de acidentes.
📌 Investigação
Responsável por fiscalizar plataformas digitais no Brasil, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu apenas um processo de fiscalização em 2026: uma investigação contra a rede X pelo uso indevido de imagens de crianças e adolescentes na ferramenta Grok. A Lupa revela que o número representa queda de 30 vezes em relação ao mesmo período de 2025, quando 38 procedimentos foram instaurados. A redução coincide com o momento em que a ANPD recebeu novas atribuições, como a implementação do ECA Digital e a fiscalização de decretos que ampliam a responsabilização das big techs por violações online. “O risco de ampliar competências sem garantir estrutura, capacidade técnica, orçamento e clareza regulatória é gerar sobrecarga institucional sem um aumento efetivo na proteção de direitos”, diz a coordenadora do Instituto de Defesa dos Consumidores (Idec), Julia Abad.
🍂 Meio ambiente
Duas baleias-jubarte quebraram um recorde inédito: cruzaram o oceano entre Brasil e Austrália, um percurso de 15 mil quilômetros. A Eco Nordeste conta que uma delas foi fotografada na Bahia, em Abrolhos, em 2003, e reapareceu 22 anos depois na costa australiana. A outra fez o caminho inverso: registrada na Austrália em 2007 e 2013, surgiu no litoral de Ilhabela (SP) em 2019. Segundo Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte e um dos autores de um artigo recém-publicado na “Royal Society Open Science”, trata-se do “deslocamento mais longo já documentado para uma jubarte”. Ao todo, existem sete populações da espécie no Hemisfério Sul. A população brasileira já teve contato com pelo menos outros quatro grupos, incluindo agora a da costa leste da Austrália. O intercâmbio entre elas, segundo Marcondes, pode modificar uma das características mais marcantes das jubartes: o canto. “Quando deixam uma população e vão para outra, estão levando conhecimento e cantos daquela população.”
📙 Cultura
“Sou instrumento de alguma coisa. O livro, o poema, é maior que eu. Ele é sempre maior que eu. Não saio dizendo: ‘Ai, o meu livro. Ai, a minha obra.’ Que bobagem. Se você tem essa consciência de ser um instrumento, não dá para ficar uma pessoa metida”, diz Adélia Prado, que publicou 12 livros de poesia e dez de prosa. Em dezembro de 2025, às vésperas de completar 90 anos, ela conversou com a revista piauí numa chamada de vídeo, direto de Divinópolis, cidade mineira onde nasceu e ainda vive. Contou que, quando fez 40 anos, preferia ter feito 42. Supunha que seria mais simples. No aniversário de 90 anos, o sentimento se repetiu: pensou que fazer 92 deve ser mais fácil que fazer 90 anos. “O rim está com cem anos, mas o espírito tem 18 anos incompletos”, brincou. Nesta semana, a poeta recebeu alta depois de 15 dias de internação para tratar uma infecção sistêmica no Hospital São Judas Tadeu, em Divinópolis.
🎧 Podcast
“Nosso corpo é corpo-território.” A frase da cacica Katia Silene, do povo Gavião-Akratikatejé, sintetiza a reflexão da pesquisadora Flávia Marinho Lisboa sobre o papel das mulheres indígenas, negras e quilombolas na resistência à devastação da Amazônia. No “LatitudeCast”, produção da Amazônia Latitude, Lisboa explica que o corpo dessas mulheres se tornou a “primeira trincheira” contra o avanço do capital sobre a floresta. A pesquisadora usa conceitos de Michel Foucault, como o “corpo utópico”, para analisar formas de vida que resistem ao modelo econômico imposto à Amazônia. Segundo ela, comunidades indígenas, quilombolas e camponesas representam modos concretos de existência que desafiam a lógica capitalista de exploração da floresta. “A forma como esses sujeitos teimam em viver nesse espaço já é, por si, uma forma de resistência”, afirma.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Laura Vitória, 24 anos, trocou o trabalho CLT por um negócio de fotografia criada com inteligência artificial no Grajaú, extremo sul de São Paulo. Ela recebe fotos de clientes, cria comandos em plataformas de IA e entrega imagens editadas em menos de 24 horas. Segundo ela, o novo trabalho já rendeu mais de R$ 60 mil. A Periferia em Movimento mostra como empreendedoras das periferias têm usado ferramentas de IA para gerar renda. Aos 62 anos, a costureira Sandra Penna, do Jardim Vergueiro, conta que usa IA para criar fotos de modelos fictícias vestindo roupas produzidas por ela. Depois, divulga no Instagram. Especialistas alertam que plataformas gratuitas coletam informações e imagens de usuários sem transparência suficiente sobre como esses dados serão reutilizados. “Você tem uma impressão de oportunidade, de igualdade, mas o sistema já é enviesado, em forma de pirâmide”, diz a pesquisadora Marina Frid, do DeepLab da University College Dublin.




