A pausa na votação do fim da escala 6x1 e a 'fofoca literária' no TikTok
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🔸A votação da PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 foi adiada ontem, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O relator Paulo Azi (União Brasil-BA) apresentou parecer favorável à proposta, mas a análise foi interrompida por um pedido de vista de Lucas Redecker (PSD-RS). Segundo a CartaCapital, ele argumentou que a proposta exige uma análise mais aprofundada por tratar de mudanças sensíveis nas relações de trabalho. A Proposta de Emenda à Constituição reúne duas propostas: uma da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que prevê jornada de quatro dias, e outra do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), com redução gradual para 36 horas semanais. O adiamento ocorre em meio a uma disputa política mais ampla sobre o tema. O governo Lula enviou ao Congresso nesta terça um projeto alternativo. Já o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tenta manter a PEC como forma de manter o protagonismo do Legislativo no tema.
🔸 O projeto de lei do governo substitui a escala 6x1 pelo modelo 5x2. A proposta estabelece um limite de 40 horas semanais, garante dois dias de descanso remunerado por semana e proíbe qualquer redução salarial. A Repórter Brasil lista perguntas e respostas sobre o tema e explica que, para entrar em vigor, a PEC ainda precisa passar por comissões e votações na Câmara e no Senado. Já o projeto de lei do governo pode tramitar mais rápido, já que esse tipo de proposta exige menos votos e pode tramitar em regime de urgência. Nesse caso, o texto precisa ser analisado em até 45 dias na Câmara dos Deputados e outros 45 dias no Senado.
🔸 “Gente, eu estou aqui revoltado com essa escala 6 por 1. Eu tô querendo saber quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução neste país relacionada à escala 6 por 1. É uma escravidão moderna. Moderna não, ultrapassada.” Assim Ricardo Cardoso Azevedo começava um vídeo no TikTok. Era 2023, e o funcionário de uma farmácia em Niterói, então com 29 anos, estava de mau humor porque havia sido convocado para entrar no trabalho mais cedo. O vídeo viralizou. A revista piauí lembra que o trabalhador dava início ali a uma mudança radical na própria vida – e no debate das leis trabalhistas do Brasil. Um ano depois, ele foi eleito vereador no Rio de Janeiro pelo PSOL com 29 mil votos e se tornou um dos principais rostos do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que pressiona pelo fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso.
🔸 Depois de quase três anos, dois réus foram condenados pelo assassinato de Mãe Bernadete, como era conhecida a líder quilombola Maria Bernadete Pacífico, executada em 2023, aos 72 anos, na Bahia. Arielson da Conceição dos Santos recebeu pena de mais de 40 anos de prisão, e Marílio dos Santos, apontado como mandante, foi condenado a quase 30 anos, ambos por homicídio qualificado. A investigação reuniu 80 depoimentos e milhares de mensagens que mostram que o crime teria sido motivado pela atuação da líder contra o tráfico de drogas no Quilombo Pitanga dos Palmares. A Revista Afirmativa destaca que organizações de direitos humanos apontam que o Estado falhou em proteger Mãe Bernadete, mesmo depois de sua inclusão no programa oficial de proteção. “É uma falha do Estado brasileiro não reconhecer e titular Quilombos, que são uma figura existente na história do Brasil desde antes do Brasil ser o Brasil”, afirma Jurema Werneck, diretora Anistia Internacional, que acompanhou o julgamento.
🔸 Dois dias depois de ser preso nos Estados Unidos, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL) foi solto. O Metrópoles informa que ele deixou ontem o centro de detenção do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), em Orlando. Ramagem está nos EUA desde setembro de 2025, quando fugiu do Brasil durante julgamento no STF que o condenou a 16 anos de prisão por envolvimento na trama golpista. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) agradeceu ao presidente Donald Trump por soltar o aliado e “pela sensibilidade em tratar do caso deste verdadeiro herói nacional, que, mesmo perseguido, não se abate”.
📮 Outras histórias
Um aluno da Universidade Federal da Bahia (UFBA) desenvolveu um exoesqueleto para reduzir o desgaste da lombar em trabalhadores braçais. Rafael Figueiredo, estudante do programa de Pós-Graduação Engenharia Mecatrônica, é o autor do projeto. O Bahia Notícias explica que o equipamento, usado como um colete, busca melhorar a ergonomia e diminuir a sobrecarga física em atividades repetitivas, sobretudo na indústria. Os testes iniciais com voluntários indicaram redução da frequência cardíaca e melhora na oxigenação, embora a pesquisa ainda precise de novas etapas para validação. “Sensação de dever cumprido, foi uma pesquisa que considero bem sucedida. Tem um impacto social. Unimos engenharia e saúde. Nós terminamos com resultados importantes como base e futuras pesquisas podem explorar o que fizemos”, diz o estudante.
📌 Investigação
Até setembro de 2024, quatro mineradoras extraíram bilhões de reais de minério de ferro da Serra do Curral, em Minas Gerais, sem a necessidade de licença ambiental. Isso foi possível por meio de duas modalidades de acordo ambiental que se expandiram desde janeiro de 2019, quando Romeu Zema (Novo) assumiu o governo mineiro: os termos de ajustamento de conduta (TACs) e os termos de compromisso (TCs). A Agência Pública revela que apenas em seu primeiro mandato, entre 2019 e 2022, Zema aprovou 358 TACs ou TCs. Entre as empresas beneficiadas estão a Tamisa, a Empabra, a Gute Sitch e a Fleurs Global. A Tamisa tinha como acionista a WJ Consultoria, administrada por Fabiano Zettel, e o Victoria Falls Fundo de Investimento, controlado pelo Banco Master, como sócio majoritário.
🍂 Meio ambiente
Países da Amazônia ignoram a Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis em Santa Marta, na Colômbia. Entre os nove países e territórios que compartilham o bioma, até agora, apenas Brasil e França (Guiana Francesa), além da nação-sede, confirmaram a participação no evento. Segundo o Amazônia Vox, o encontro, que ocorre no fim do mês, busca definir metas para a Conferência do Clima deste ano (COP31) e tenta usar a crise energética como alavanca para a expansão de fontes de energia renovável. Atualmente, os nove países amazônicos compõem uma fronteira de combustíveis fósseis: juntos, somam 3.028 blocos de exploração de petróleo, dos quais 871 (29%) estão dentro da floresta.
📙 Cultura
Comunidade de leitores do TikTok, o BookTok soma bilhões de visualizações no Brasil e redesenha o modo como crianças e adolescentes descobrem livros. Por meio da hashtag, criadores de conteúdo compartilham resenhas rápidas, listas temáticas, reações emocionadas num estilo que ficou conhecido como “fofoca literária”. Diferentemente da crítica literária tradicional ou das resenhas acadêmicas, a comunicação é guiada pela emoção e pela experiência pessoal. O Lunetas mergulha no universo BookTok, seu impacto no mercado tradicional e na formação de jovens leitores. Apesar do potencial de democratizar o acesso a autores e obras, o fenômeno ainda expõe desigualdades. “Produções de mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+ e indígenas ainda permanecem à margem da plataforma”, afirma Samira Soares, pesquisadora de literatura e cultura na Universidade Federal da Bahia.
🎧 Podcast
Com uma infância marcada pela morte precoce do pai e pela centralidade da relação com a mãe – uma ativista feminista –, o neurocientista e escritor Sidarta Ribeiro repensou o que significa ser homem no mundo contemporâneo. No “Isso Não É Uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, ele revisita sua trajetória familiar e reflete sobre a reaproximação de seu irmão depois de um período de afastamento. Como filho, pai e homem, o neurocientista aborda a desconstrução de comportamentos patriarcais em seus próprios casamentos, a importância de assumir o cuidado doméstico e a presença ativa na criação dos filhos.
👩🏽💻 Tecnologia
O mercado de trabalho em inteligência artificial é marcado por alta disparidade de gênero no mundo todo No Brasil, 80,16% dos talentos profissionais em IA são homens. O país só fica atrás de Japão (82,5%) e Coreia do Sul (81,44%). Os dados são do relatório “AI Index Report 2026”, realizado pela Universidade de Stanford. O Núcleo reúne os principais achados do documento, que revela que nenhum país está próximo à paridade de gênero no setor. O país que apresenta a maior proporção de mulheres na área é a Arábia Saudita, com 32,3% de representação feminina, seguida de Austrália (30,1%), Canadá (29,6%) e Itália (29,5%). “As disparidades de gênero no setor de profissionais em IA continuam profundamente enraizadas, sem nenhum progresso significativo em nenhum país desde 2010”, diz o relatório.




