🔸 Derrotado nas urnas, Flávio Bolsonaro (PL) foi intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes (comum e diplomático) e está proibido de deixar o país, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A intimação foi feita durante uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Segundo o Terra, o senador afirmou que uma fala do irmão Eduardo Bolsonaro foi usada como fundamento para a decisão do ministro. “Presumo que, se meu irmão não ganhar [a eleição], sou a favor que ele deixe o país”, declarou o ex-deputado ao podcast “Louder with Crowder”, na sexta-feira. Na mesma entrevista, Eduardo sugeriu que os Estados Unidos enviassem tropas ao Brasil. “Envie os fuzileiros navais”, disse, provocando risadas dos apresentadores. Em vídeo publicado nesta segunda-feira, Flávio criticou a decisão de prorrogar a votação até as 19h, embora a própria campanha do senador tenha solicitado ao TSE a ampliação do horário, alegando que fatores climáticos poderiam afetar municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
🔸 A propósito: depois das 17h de domingo, apenas 34,3 mil votos – o equivalente a 0,03% do total – foram registrados, segundo os registros oficiais das urnas eletrônicas disponibilizados pelo TSE. Desse conjunto, 5.469 votos, ou 15,9%, foram de eleitores habilitados sem biometria. Antes das 17h, a proporção era de 12,4%. O Jota ressalta que o horário do registro do voto não é necessariamente o mesmo da identificação do eleitor. A habilitação sem biometria leva, em média, 67 segundos, ante 29 segundos com biometria. Por isso, parte das pessoas identificadas antes das 17h só concluiu a votação depois desse horário. Quando se considera o momento da identificação, a proporção de eleitores habilitados sem biometria entre os que votaram após as 17h cai para 13,1%. Rondônia teve a maior proporção de votos registrados após as 17h, com 0,06% do total no estado. No Distrito Federal e em Roraima, o percentual foi de 0,05%. Os três estão entre os locais em que Flávio Bolsonaro obteve seus melhores resultados.
🔸 A eleição presidencial de 2026 registrou a maior queda da abstenção entre o primeiro e o segundo turno desde a redemocratização. A proporção de eleitores ausentes passou de 21,08% para 19,22%, uma redução de 1,86 ponto percentual. Quase 3 milhões de pessoas a mais compareceram às urnas na segunda votação. Levantamento do Congresso em Foco mostra que a abstenção caiu em 17 estados e no Distrito Federal, mas aumentou em nove estados. A Bahia teve a maior redução, de 19,97% para 16,71%, seguida por Pernambuco, onde a taxa caiu de 18,17% para 15,18%. Em números absolutos, São Paulo registrou o maior recuo: cerca de 932 mil eleitores a menos deixaram de votar. O Ceará terminou o segundo turno com a menor abstenção do país, de 13,89%. O Norte foi a única região em que as ausências cresceram, de 19,43% para 21,21%.
🔸 “O que mobilizou foi a emoção, o medo de uma vitória de Flávio Bolsonaro. Não existe comparação com a campanha do primeiro turno. Foi uma campanha muito mais abrangente, digital, que chegou muito mais nas pessoas, já que, querendo ou não, o espaço do debate hoje é o digital”, afirma Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de pesquisa MIDIARS (Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais) da Universidade Federal de Pelotas (UfPel). A tomada das redes pelo campo progressista, que chegou às ruas em grandes manifestações, envolveu jovens parlamentares como Ana Elisa (PT-MG). O maior destaque foi André Janones (Rede-MG) com o canal no WhatsApp “Exército do Lula”, de quase 11 milhões de participantes. A Agência Pública analisa a vitória de Lula com especialistas em comunicação e política. “O Janones entendeu a lógica das plataformas [digitais], no sentido de que não adianta só fazer conteúdo impulsionado e ou divulgado por influenciadores. O trabalho de formiguinha das pessoas para os seus grupos, das pessoas para as suas redes, é muito importante”, destaca Recuero.
🔸 “Se o Brasil não constituir, ao longo desses quatro anos de governo Lula, uma direita democrática, a gente vai ter uma outra eleição com questão democrática em jogo.” A afirmação é do sociólogo, cientista político e escritor Sérgio Abranches. Em entrevista ao Nexo, ele fala sobre a conquista e os desafios para Lula governar com um Congresso com uma forte bancada de extrema direita. “Mas o Centrão ainda é uma força fundamental lá. Somado com o PT, dá para fazer uma coalizão. Não é uma coalizão tão firme quanto eram as coalizões de Lula em seus dois primeiros mandatos e nos dois primeiros mandatos de Fernando Henrique [Cardoso], que eu chamo de coalizões mais sólidas”, diz. Ele completa: “Agora, com essa composição que o Congresso adquiriu desde 2018, quando ocorreu uma ruptura eleitoral, as coalizões passaram a ser líquidas e escorrem muito facilmente e deixam o presidente minoritário”.

📮 Outras histórias
Lula ampliou sua votação nas periferias da capital paulista entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial. No Grajaú, na zona sul, o presidente reeleito passou de 57,7% para 66,9% dos votos válidos; em Piraporinha, também na zona sul, subiu de 57,6% para 67%. Na zona leste, obteve 66,1% em Cidade Tiradentes, ante 57,4% na primeira votação. A Periferia em Movimento compilou os dados e ouviu especialistas sobre o resultado e as expectativas para o próximo governo. “Esse resultado pode indicar que continua existindo uma relação de confiança entre parte da população periférica e um projeto político associado à ampliação de direitos e melhoria das condições de vida nas periferias”, afirma Lidiane da Silva, pesquisadora periférica e mestre em semiótica. Segundo levantamento da Agência Mural, na Grande São Paulo, Lula recebeu 6,7 milhões de votos, cerca de 1 milhão a mais que Flávio Bolsonaro, e ficou à frente em 20 das 39 cidades da região. A abstenção na região caiu de 3,7 milhões para 3,2 milhões de eleitores entre as duas votações.
📌 Investigação
Escolhido para comandar a Secretaria de Meio Ambiente do Pará, o advogado Vinícius Borba foi indiciado pela Polícia Federal por incitação ao crime, difamação de servidores públicos e embaraço à fiscalização ambiental. Conhecido como “advogado do agro”, ele representava pecuaristas atingidos por uma operação para retirar gado criado ilegalmente na Terra Indígena Ituna-Itatá, entre Altamira e Senador José Porfírio. O relatório da PF, obtido pela Repórter Brasil, foi concluído em agosto, dois meses antes de Borba ser anunciado para o cargo pelo governador eleito, Dr. Daniel (Podemos). A área estava sob restrição de uso para proteger indígenas isolados desde 2011, quando foi interditada pela Funai. A medida, renovada ao longo dos anos, impedia a exploração agropecuária por particulares. Em 2023, órgãos federais iniciaram a Operação Eraha Tapiro, que significa “levar boi” na língua do povo Assurini, para retirar os animais. Segundo a PF, Borba publicou vídeos nos quais afirmava que a área não era uma terra indígena e contestava a legalidade da remoção do gado. As publicações teriam estimulado a resistência à operação e atingido a reputação de dois fiscais do Ibama que a coordenavam.

🍂 Meio ambiente
Kyxaxexuxa Parakanã viajou um dia e meio de barco e de carro para votar no segundo turno em Altamira (PA). A jovem de 24 anos estava entre os 118 indígenas que saíram da Aldeia Xingu, na Terra Indígena Apyterewa, para participar da eleição. No primeiro turno, eles não tiveram combustível para fazer a viagem. “A gente não quer Flávio Bolsonaro, a gente quer Lula como presidente. Ele demarcou a nossa terra, homologou, por isso que a gente vem votar nele”, disse. A Sumaúma acompanhou indígenas de diferentes povos que percorreram longos caminhos por terra e água para votar e ouviu deles que a proteção de seus territórios motivou a escolha. Kyxaxexuxa relatou ameaças de retorno de invasores à Apyterewa caso Flávio fosse eleito e demonstrou preocupação com os incêndios na região. “Fica muito difícil, tem idoso, tem criança, a gente não consegue dormir com o tanto de preocupação”, afirmou. Katoprore Xikrin, da Terra Indígena Trincheira Bacajá, viajou um dia e uma noite para votar.
📙 Cultura
Em “Metrópolis”, de Fritz Lang, uma elite vive entre arranha-céus e jardins suspensos, enquanto operários trabalham no subterrâneo para manter a cidade funcionando. Baseado no romance homônimo de Thea von Harbou e lançado em 1927, o filme imagina uma sociedade dividida em classes no ano de 2026. Em artigo no Outras Palavras, Erick Kayser revisita a obra e aproxima sua crítica à exploração e à manipulação dos trabalhadores das disputas políticas atuais. Na trama, o dono da cidade ordena a criação de uma versão robótica de Maria, jovem que inspira esperança entre os operários. A falsa Maria incita os trabalhadores à destruição das máquinas, criando as condições para uma repressão violenta. Para Kayser, a personagem encontra equivalentes atuais em deepfakes nas redes sociais. “O que Lang e von Harbou intuíram com precisão é que a dominação mais sofisticada não se limita a esmagar a esperança popular; ela a falsifica, apropria-se de sua linguagem, de seu rosto e de sua voz, e a devolve às massas convertida em instrumento de sua própria derrota.”
🎧 Podcast
O crédito rural pode ajudar a aumentar a produtividade ou estimular a expansão sobre áreas de floresta na Amazônia, a depender de onde é concedido. Em regiões onde a produção já está consolidada, o financiamento pode melhorar a eficiência e poupar terra. Já nas áreas de fronteira e nas regiões intermediárias, onde há condições para a expansão, os recursos podem pressionar a floresta. Em “A Natureza da Conversa”, produção d’O Eco, a pesquisadora da USP Patricia Ruggiero explica essa dinâmica e defende a adoção de salvaguardas adequadas a cada território e a articulação do crédito com outras políticas, como fiscalização e governança fundiária. Coautora de um estudo da Rede de Pesquisa em Produtividade e Sustentabilidade (Rede PP&S), ela também destaca a importância de sinalizar aos produtores que haverá controle e prioridade para áreas regulares.

✊🏾 Direitos humanos
Uma denúncia de omissão do Brasil diante de violações de direitos humanos, apresentada à ONU após o assassinato da menina Ana Clara, 5 anos, será analisada entre 18 e 24 de dezembro por um grupo de trabalho ligado ao Conselho de Direitos Humanos da organização. A menina foi morta por um tiro de fuzil em frente à sua casa, em Niterói (RJ), em 2021. Um cabo da Polícia Militar foi preso em flagrante e denunciado por homicídio qualificado. Segundo a Agência Nossa, a petição acusa políticos brasileiros de proteger milícias e cita, entre outros, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e o então governador do Rio, Cláudio Castro. Em entrevista antes do segundo turno, Cristiane, mãe de Ana Clara, questionou a atuação de Flávio na defesa do policial e afirmou que os recursos contribuíram para a demora do julgamento: “Conseguiram adiar o julgamento para quase o meio do ano que vem. Já são cinco anos, vários meses de espera e mais a metade de um ano para talvez acontecer”.
