O pacto nacional contra o feminicídio e as fazendas do 'rei do ovo'
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
Oi, gente! Bom dia!
Para seguir aprimorando a curadoria da Brasis, convidamos você a participar da nossa pesquisa anual. É rápida e fundamental para orientar nossas escolhas editoriais ao longo do ano.
O último dia para responder é 20 de fevereiro. É só clicar aqui.
Obrigada e boa leitura!
🔸 Executivo, Legislativo e Judiciário lançaram um pacto nacional para enfrentar o feminicídio, crime que bateu recorde no Brasil em 2025, com 1.470 casos registrados. O texto estabelece diretrizes iniciais para articular ações de proteção às mulheres, responsabilização de agressores e enfrentamento da violência digital, mas ainda depende de detalhamento por um comitê interinstitucional. Pesquisadoras ouvidas pelo Nexo avaliam que o documento tem alto impacto simbólico ao reconhecer o feminicídio como falha estrutural do Estado. Alertam, porém, que o enfrentamento permanece no plano declaratório se não vier acompanhado de recursos e coordenação entre União, estados e municípios. “O potencial transformador [do pacto] dependerá menos do texto e mais de sua capacidade de se desdobrar em ações, recursos e mecanismos de acompanhamento que respondam à gravidade do feminicídio no país”, diz Silvana Mariano, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios.
🔸 O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), abriu o ano legislativo de 2026, já em clima eleitoral: defendeu que o Congresso entregue pautas “em sintonia com as ruas” e prometeu priorizar neste semestre o fim da escala 6x1, o combate ao feminicídio e a regulamentação do trabalho por aplicativos. A Agência Pública analisa o esforço de reposicionamento do Congresso que, em 2024, travou projetos como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e tentou avançar com a PEC da Blindagem, para proteger e beneficiar os próprios parlamentares. “O Congresso simplesmente não votava porque avaliava que o governo ganharia com aquilo. Só que quebrou a cara: o PT foi eficiente, ganhou as redes sociais e conseguiu mostrar que o Congresso se comportava como inimigo do povo”, diz Carlos Melo, cientista político e professor da Insper. Com as eleições no horizonte, eles buscam agora dividir os dividendos políticos de agendas sociais antes apropriadas pelo Executivo.
🔸 Os principais partidos do Centrão seguem sem definir lado na disputa presidencial de 2026 e resistem tanto a um apoio formal a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto a uma aliança com Flávio Bolsonaro (PL). O PSD e a federação União Brasil-PP afirmam que aguardam gestos mais concretos antes de fechar posição e não descartam uma candidatura própria de centro. Nesse contexto, segundo o Jota, Lula intensificou a ofensiva sobre o Centrão, retomou o diálogo com lideranças do Congresso e avançou em articulações regionais, como a construção de um palanque em Minas Gerais com Rodrigo Pacheco. Do outro lado, as dificuldades de Flávio Bolsonaro nas alianças ficaram mais visíveis após a revelação de conversas do senador Ciro Nogueira com o Planalto, vistas como um apoio velado a Lula no Piauí.
🔸 Trabalho, renda e moradia são as prioridades de moradores de favelas para 2026. É o que mostra a pesquisa “Sonhos da Favela 2026”, do Data Favela, realizada com 4.471 entrevistados em todas as regiões do país. A Alma Preta detalha os resultados que refletem um cenário de forte vulnerabilidade econômica: 60% dos moradores vivem com até um salário mínimo, a mesma proporção não tem renda fixa e apenas 30% possuem emprego formal. A falta de dinheiro aparece como o principal obstáculo aos planos profissionais – e as carências estruturais em saneamento, educação e saúde seguem como demandas centrais nos territórios.
📮 Outras histórias
“Quando estou lá, participando das atividades ou vendo arte, me sinto parte de algo importante. Se eu pudesse mandar um recado para outros jovens, diria: ‘vá conhecer, vai valer a pena’.” A adolescente Mariana Cristina,15 anos, se refere à Pinacoteca do Beiru, em Salvador (BA). A Entre Becos conta a história do espaço cultural, criado em 2021 pelo artista visual Anderson AC, com o propósito de aproximar a arte da população do Cabula, bairro na região central da capital. A Pinacoteca se consolidou como lugar de formação, convivência e valorização das produções locais, com impacto na autoestima e no pertencimento dos moradores. Jovens como Wanderson Souza, 17 anos, relatam que a vivência no espaço ampliou referências e possibilidades: “A Pinacoteca me mobilizou e me proporcionou experiências e aprendizados”.
📌 Investigação
Magnata das granjas, o empresário brasileiro Ricardo Faria, que entrou para a lista de bilionários da Forbes em 2024, está entre os maiores controladores de fazendas no Matopiba – fronteira agrícola que inclui partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, incluindo áreas com denúncias de conflitos por desmatamento e grilagem de terras. O Joio e O Trigo identificou quatro fazendas no sul do Piauí que possuem indícios de estarem sob o controle de Faria. Duas foram arrendadas e as outras duas são de empresas das quais o empresário é sócio. A expansão do “rei do ovo” na região já encurrala as comunidades tradicionais e conta com recursos de fundos da Universidade de Harvard e de bancos brasileiros, como o Banco do Nordeste do Brasil e o Banco do Brasil.
🍂 Meio ambiente
“O rio Manicoré tem muitas riquezas e também muita pressão de influências políticas”, afirma Maria Cleia Delgado Campino, a Caia, uma das “mães” do primeiro Território de Uso Comum (TUC) do Amazonas. Essa categoria foi criada no estado para dar o mínimo de proteção fundiária e segurança social a moradores de comunidades tradicionais fora de áreas protegidas. A história do TUC do Rio Manicoré é protagonizada por mulheres que resistem a ameaças e invasões de madeireiros e garimpeiros. “Eles não dizem que vão matar. Dizem que o nosso caixão já está pronto”, relata a professora Marilurdes Cunha da Silva, também liderança histórica do local. N’O Varadouro, a jornalista Izabel Santos, que retornou à região em dezembro passado, narra a luta das lideranças femininas para proteger o território e suas próprias vidas em meio a um cenário de destruição cada vez maior.
📙 Cultura
Coletivos e produtores culturais denunciam atrasos orçamentários e descumprimento de diretrizes da Lei de Fomento à Cultura das Periferias de São Paulo. Representante da Rede Viva Periferia Viva, Mariana Torres (nome fictício) relata atrasos nos pagamentos da nona edição do programa, realizada em 2024. Segundo ela, no ano passado, os coletivos receberam notificações da Secretaria Municipal de Cultura orientando a interrupção das atividades sob a justificativa de que só receberiam a segunda parcela em 2026 – paga em janeiro. “Isso prejudica projetos e fragiliza trabalhadores da cultura na periferia.” O Desenrola e Não Me Enrola ouviu agentes culturais de diversas iniciativas da zona leste da capital paulista que têm lutado para manter os projetos de forma independente com o abandono do poder público e diante da dificuldade de acessar os editais.
🎧 Podcast
A crônica ganhou o Brasil durante o século 20 e se adaptou ao ambiente literário nacional ao ser impulsionada por grandes escritores de outros gêneros, como Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues e Clarice Lispector. Segundo o cronista Luís Henrique Pellanda, o gênero foi “um recurso para entregar literatura a um público não habituado a ler literatura de uma forma mais ou menos democrática”. O “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, recebe Pellanda e o também cronista Humberto Werneck para falar sobre a origem da crônica e seu desenvolvimento no país, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1960. “Não é um gênero brasileiro; é uma coisa que veio da França, trazida em meados do século 19. A comparação que eu faço é com o futebol. Ele chegou com o Charles Miller e não tinha a ‘cintura’ que o futebol veio a ganhar no Brasil”, explica Werneck.
✊🏾 Direitos humanos
O novo Plano Nacional de Cuidados receberá R$ 25 bilhões até 2027. O investimento anunciado pelo governo federal serve para estruturar uma rede pública nacional que reconhece o cuidado como um direito social e uma responsabilidade compartilhada entre o Estado, as famílias e a sociedade civil. Apresentada em dezembro de 2025 pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, a estratégia, que busca promover a igualdade de gênero no país, reúne 79 ações intersetoriais. O Catarinas reúne alguns dos principais serviços e programas que compõem o plano, como lavanderias comunitárias – projetadas para reduzir a sobrecarga de tarefas domésticas –, cuidotecas – espaços de acolhimento noturno para crianças de 3 a 12 anos para que os responsáveis possam estudar – e expansão dos Centros-Dia, que oferecem atendimento assistido a idosos e pessoas com deficiência durante o dia.




