Um pacote bilionário para o agro e a 'uberização' do trabalho doméstico
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
🔸A Câmara dos Deputados entra nesta semana na fase decisiva da PEC do fim da escala 6x1, mas o texto ainda não tem relatório final concluído. Embora a análise em plenário esteja prevista para quinta-feira, persistem dúvidas sobre a transição para a jornada de 40 horas semanais com dois dias de folga. Segundo o Metrópoles, o principal impasse envolve o prazo de adaptação para as empresas. Deputados defendem uma transição gradual de até três anos, com redução de uma hora na jornada ainda em 2026, duas horas em 2027 e mais uma em 2028. Já o presidente Lula (PT) pressiona por uma implementação imediata e afirmou que o governo vai “mostrar para o povo quem é quem neste país” durante a tramitação da proposta. A PEC também prevê veto à redução salarial, fortalecimento das convenções coletivas e possibilidade de jornadas específicas por categoria.
🔸 Na última semana, a Câmara acelerou a tramitação de projetos de interesse do agronegócio que flexibilizam regras ambientais no país. Com apoio do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), a chamada “Semana do Agro” colocou em pauta ao menos quatro propostas. Duas já foram aprovadas e seguem para o Senado: um projeto que restringe fiscalizações ambientais com base em imagens de satélite e outro que reduz a área protegida da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará. A Repórter Brasil resume as propostas e seus impactos sobre os possíveis impactos ambientais e sociais das propostas. Os outros dois projetos que não foram avaliados – PL 364/2019, sobre os Campos de Altitude, e o PL 5900/2025, que amplia o poder do Ministério da Agricultura sobre regulações ambientais – aguardam votação no plenário da Câmara.
🔸 A propósito: o Senado deve votar amanhã um pacote bilionário para o agro. O projeto cria uma linha especial de crédito para renegociação de dívidas do agronegócio com recursos do Fundo Social do Pré-Sal e prevê prazo de até dez anos para pagamento, além da possibilidade de um fundo garantidor para o setor. O Congresso em Foco explica que a proposta se tornou prioridade da bancada ruralista e está em negociação com o governo para reduzir o impacto fiscal. A equipe econômica calcula que o projeto pode atingir até R$ 1,4 trilhão em dívidas rurais e gerar custo de R$ 817 bilhões em 13 anos. Renan Calheiros (MDB-AL), relator do texto, contesta os números e afirma que a proposta trata de cerca de R$ 170 bilhões em créditos problemáticos, com impacto estimado em R$ 100 bilhões ao longo de uma década.
🔸 O ministro Flávio Dino rejeitou o pedido de prisão domiciliar da influenciadora Deolane Bezerra, presa por suposto elo com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo a investigação, iniciada a partir de bilhetes apreendidos em um presídio de Presidente Venceslau em 2019, a facção usava uma transportadora de fachada para movimentar recursos do tráfico sob comando de familiares de Marcola. Segundo a CartaCapital, os investigadores afirmam que Deolane atuava como receptadora de dinheiro ilegal e a descrevem como uma espécie de “caixa do crime organizado”. Entre 2018 e 2021, ela teria recebido mais de R$ 1 milhão em depósitos fracionados inferiores a R$ 10 mil – prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar o rastreamento financeiro.
📮 Outras histórias
Gabriel Silva, de 18 anos, morador do Complexo do Alemão, vai disputar o Rio Fall International Open, campeonato internacional de jiu-jítsu organizado pela IBJJF, principal entidade da modalidade no mundo. A competição acontece nos dias 5 e 6 de junho, no Rio de Janeiro, e reúne atletas de vários países. Para conseguir participar do torneio, o atleta lançou uma rifa solidária para arrecadar dinheiro para despesas como transporte, alimentação e inscrição. O Voz das Comunidades conta a trajetória de Gabriel, que começou a competir ainda criança e, no último ano, passou a lutar na categoria adulta. “Estou bastante animado na competição. As lutas vão ser bastante duríssimas, como sempre foi nos campeonatos que eu lutei, desde garoto, desde os 12 anos de idade. Sempre lutei os campeonatos duríssimos, né?”, diz o atleta.
📌 Investigação
Presidido por Karina Ferreira da Gama, proprietária da empresa envolvida no filme sobre Bolsonaro financiado por Daniel Vorcaro, o Instituto Conhecer Brasil manteve contratos com a Prefeitura de São Paulo, sobretudo na gestão de Ricardo Nunes (MDB). O principal é de 2024, no valor de mais de R$ 100 milhões, e prevê a instalação de 5 mil pontos de wi-fi em comunidades de baixa renda da cidade. A Agência Pública obteve dois relatórios que mostram que entre 2024 e 2025 funcionários da prefeitura tentaram “inúmeras vezes” com a organização. “Não conseguimos localizar a OSC há mais de 3 meses”, diz parecer. “Os funcionários do edifício cujo endereço nos foi fornecido enquanto sede da OSC afirmaram a inexistência do Instituto no local”, diz outro trecho do documento. O dinheiro do contrato continuou sendo repassado mesmo diante dos problemas apresentados pelos técnicos.
🍂 Meio ambiente
“Na COP28, em 2023, foi a primeira vez que a inteligência artificial apareceu em uma decisão do balanço global e foi considerada como uma ferramenta que pode ser eficiente para o clima, mas ao mesmo tempo que ressaltamos esse aspecto positivo da IA, também chamamos atenção para o fato de que ela tem um passivo ambiental expressivo, como o consumo energético, as emissões associadas, o consumo hídrico, o espaço dos data centers”, afirma o diplomata Pedro Ivo Ferraz da Silva, presidente do Comitê Executivo de Tecnologia da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. Em entrevista ao Correio Sabiá, ele fala sobre o papel dos países do Sul Global para as soluções tecnológicas para a crise climática, o uso de IA na agenda de tecnologia climática e a presença do Brasil pela primeira vez na presidência do colegiado da ONU que atua na intersecção de tecnologia e clima.
📙 Cultura
Considerado criador do estilo “dor-de-cotovelo”, com canções que expressam desilusões amorosas com profundidade poética, o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues é um dos grandes ícones da cultura de Porto Alegre e da música popular brasileira. “Ficou muito evidente pra mim que ele é um personagem, uma coisa que se criou. Não apenas com as músicas, mas também com o que se falou sobre ele. Hoje, anos depois da morte dele, o legado é o próprio mito”, afirma a escritora e pesquisadora Luciana Hoppe, que lançará o livro “Lições para Esses Moços: as Canções e Histórias de Lupicínio Rodrigues” na próxima semana. Segundo o Sul21, a obra reúne histórias fantásticas e relatos marcantes que cercam vida e obra do artista. “Ele pegava o que vivia e transformava em música. Uma história que ele ouviu no bar, uma história que ele viveu, uma história que ele viveu com os amigos”, conta Hoppe. “Vida e obra são inseparáveis. Não tem como entender um sem entender o outro. Por isso que, quando a gente ouve, parece que ele está contando uma história pra gente.”
🎧 Podcast
O patrimônio cultural nas cidades não deve ser tratado como “decoração”, mas como um elemento de construção de significados para a sociedade. É o que afirma o historiador Paulo Knauss, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e ex-diretor do Museu Histórico Nacional. No “Diálogos com a Inteligência”, produção do Meio, o pesquisador debate os desafios da preservação do patrimônio cultural, desde os monumentos nas ruas até a gestão de museus. “Eu sempre defendo que as cidades deveriam ter uma equipe de curadores para promover eventos, valorizar os monumentos, os vestígios mais antigos, os acontecimentos. É comum vermos placas com as referências, mas não há propriamente uma prática social que faça as pessoas perceberem essas placas. A cultura e a arte não podem ser pensadas como objetos, mas como práticas sociais.”
✊🏾 Direitos humanos
Sustentado por décadas pelas raízes escravocratas do Brasil, o trabalho doméstico vive uma nova onda de precarização por meio da “uberização”, aprofundando as desigualdades históricas sob a roupagem de modernização e inovação. Atualmente há ao menos 15 plataformas no país que oferecem serviços como limpeza, cuidados com crianças e idosos, cozinha e faxina pós-obra, tanto residencial quanto comercial. Em artigo na Gênero e Número, a jornalista Fernanda Valienti analisa a situação das trabalhadoras domésticas em plataformas, em que o pagamento é feito por diária, hora ou serviço prestado, sem garantia automática de direitos trabalhistas, como férias remuneradas, FGTS, 13º salário, licença ou estabilidade. “Não é aceitável que empresas lucrem com a intermediação desses serviços sem assumir compromissos com proteção legal, acesso à seguridade social, transparência algorítmica, remuneração digna, mecanismos efetivos de denúncia e reparação, além do direito à negociação coletiva”, afirma.




