🔸 Nossa Senhora Aparecida entrou na disputa eleitoral depois que um projeto de lei arquivado em 2008 voltou a circular nas redes sociais. A proposta retirava da santa a designação de “padroeira do Brasil” na lei que instituiu o feriado de 12 de outubro, substituindo-a por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A CartaCapital destaca que o projeto foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli, aliado de Jair Bolsonaro que mais tarde trabalhou em seu governo. Publicações nas redes associaram o projeto a Flávio Bolsonaro (PL), embora ele não seja seu autor. A polêmica ocorre em um cenário no qual o voto religioso tem peso na eleição presidencial. Na pesquisa Quaest de 21 de setembro, Lula tinha 43% das intenções de voto entre católicos, contra 27% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio tinha 49% e Lula, 23%.
🔸 O presidente Lula (PT) assinou na sexta-feira a Medida Provisória (MP) que proíbe as bets de funcionar no Brasil. Pela medida, os apostadores têm até 5 de outubro para resgatar seus saldos, e os sites e aplicativos devem sair do ar no dia 6. A publicidade e os patrocínios de bets ficam proibidos também a partir do dia 5. A MP vale por 120 dias e precisa ser aprovada pelo Congresso para virar lei, explica a Agência Pública. O governo também pretende enviar um projeto de lei com penalidades para quem continuar a operar no país. Segundo estimativa do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda citada na reportagem, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com apostas no ano passado. Na cerimônia em que assinou a MP, Lula lembrou o caso de uma mãe que perdeu o filho de 26 anos após ele contrair dívidas com apostas. Era Vânia de Souza Borges, mãe de Rafael Borges Amaral. Vânia se encontrou com o presidente em setembro e pediu a proibição das plataformas. Segundo ela, influenciadores tiveram papel decisivo no agravamento do vício e das dívidas do filho.
🔸 Quase 200 pessoas se declararam indígenas ao registrar suas candidaturas nas eleições. Desse total, 57 nomes têm o apoio de associações reunidas na Campanha Indígena, iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O objetivo das organizações é ampliar a presença indígena nas decisões sobre demarcação de terras, direitos territoriais e proteção da floresta. A lista inclui candidatos ao Congresso, aos legislativos estaduais e a governos estaduais, além de suplentes ao Senado. A Sumaúma reúne as candidaturas em uma ferramenta de consulta por estado, com partido, cargo e valores recebidos pelas campanhas. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mais de 500 propostas prejudiciais aos direitos indígenas foram apresentadas no Congresso desde 1991. “Durante muito tempo, decisões fundamentais sobre nossa vida foram tomadas dentro do Congresso com uma presença indígena muito pequena”, diz Alana Manchineri, da coordenação da Campanha Indígena.
🔸 Embora representam só 6% dos candidatos à Câmara, os 434 deputados federais que tentam a reeleição concentram 33% das receitas de campanha já declaradas. Levantamento do Congresso em Foco mostra que eles receberam R$ 1,02 bilhão, uma média de R$ 2,35 milhões por candidato. Os outros 6.930 concorrentes dividem R$ 2,1 bilhões, ou R$ 303 mil por pessoa, em média. Os dez candidatos à Câmara com mais recursos são deputados em exercício. Entre os cem primeiros, 67 já ocupam uma cadeira. Na outra ponta, 955 candidaturas não tinham receita registrada na base consultada, nenhuma delas de um deputado identificado no levantamento. As direções partidárias decidem a distribuição interna do fundo eleitoral, de R$ 4,96 bilhões neste ano, respeitadas as reservas legais para mulheres, pessoas negras e indígenas.
🔸 Na Bahia, estado em que mulheres negras são 41% da população, o número de candidatas negras à Assembleia Legislativa caiu de 250 em 2022 para 168 em 2026, uma redução de 33%. Nenhuma mulher negra disputa o governo estadual. A queda acompanha a tendência nacional: as candidaturas de mulheres negras às assembleias passaram de 3.054 para 2.048 no mesmo período, também 33% a menos, segundo análise da Gênero e Número a partir de dados do TSE. A presença nas urnas tampouco tem se convertido em mandatos na mesma proporção. Em 2022, a Bahia elegeu quatro mulheres negras entre 250 candidatas, menos de 2%. A candidata a deputada estadual Vilma Reis (PT) defende que a proporção de mulheres negras na população brasileira se traduza em poder de decisão. “Isso não vai vir por generosidade de ninguém. Vai vir de organização, de continuarmos nos apresentando, elegendo umas às outras, protegendo umas às outras”, afirma.
📮 Outras histórias
Na ocupação conhecida como Favelinha, no loteamento Miro Cairo, em Vitória da Conquista (BA), famílias moram em barracos feitos de materiais reaproveitados, sem rede de esgoto ou abastecimento regular de água. O Conquista Repórter conta a história de Jéssica Sudário Mendes, 21 anos, que se mudou para lá em 2024 com o namorado e a filha porque não conseguia pagar aluguel. Ela construiu uma fossa no terreno e recebe água por uma ligação improvisada por um vizinho. A história da família atravessa três gerações de dificuldade para conseguir uma moradia digna. A mãe de Jéssica se inscreveu em um programa habitacional e nunca foi contemplada. Jéssica também se cadastrou no Minha Casa, Minha Vida, mas ficou fora da lista de beneficiários. Em 2025, mais de 8 mil pessoas se inscreveram no programa em Vitória da Conquista – e a fase atual prevê a entrega de 1.644 unidades.
📌 Investigação
“Ontem foi raio-X do pulmão, hoje foi uma visita ao hospital”, conta Marta (nome fictício), sobre a rotina do neto de 6 anos. Numa caixa de sapatos, ela guarda os remédios usados pelo menino. A família vive em Piauí Poço Dantas, comunidade a menos de 1 km da Grota do Cirilo, a maior mina de lítio a céu aberto do Brasil, operada pela canadense Sigma Lithium entre Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha (MG). Marta suspeita que a poeira da mineração tenha agravado os problemas respiratórios do neto. Levantamento da Repórter Brasil mostra que, entre 2021, antes da construção da mina, e 2025, as internações de crianças de até 14 anos por asma, pneumonia, bronquite e bronquiolite cresceram 628% em Araçuaí e 350% em Itinga. No mesmo período, a alta foi de 221% no Vale do Jequitinhonha, 157% em Minas Gerais e 102% no país. Os dados não demonstram que a mina tenha causado as internações, mas o Ministério Público de Minas Gerais investiga a possível piora da qualidade do ar em quatro comunidades próximas.
🍂 Meio ambiente
“O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas.” A afirmação é do climatologista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Em entrevista à Marco Zero, o cientista explica o que é o fenômeno e quais são seus impactos diretos e indiretos, a grande influência do oceano no clima e o que já se sabe sobre como serão os próximos meses. Segundo ele, a previsão mais preocupante para o Nordeste é a do oeste da região, especialmente Maranhão, Piauí e oeste da Bahia, além de Tocantins, que compõem o Matopiba. A estação chuvosa ali começa em outubro, mas Barbosa prevê um início abaixo da média e efeitos da seca até pelo menos o começo de 2027. “Essa região vai ser muito castigada pela seca. Essa tendência se mantém até pelo menos o início de 2027”, afirma.
📙 Cultura
Uma única edição de uma roda de samba em São Paulo movimenta, em média, R$ 48,7 mil em gastos do público com transporte e lazer. Somando uma edição de cada uma das 56 rodas analisadas na pesquisa Comunidades e Rodas de Samba da Cidade de São Paulo, o valor estimado chega a R$ 2,7 milhões. A Agência Mural detalha o levantamento, realizado entre novembro de 2025 e junho de 2026 pelo Observatório Ibira30 e pelo Bloco do Beco, organizações do Jardim São Luís, em parceria com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Foram ouvidas 1.267 pessoas, entre frequentadores, músicos e organizadores, nas cinco regiões da capital. Apesar da movimentação econômica, 75% dos organizadores ouvidos apontam a falta de recursos como obstáculo para manter as rodas, e 72,5% citam a ausência de políticas públicas. Para 57,5%, o diálogo com o poder público é ruim ou inexistente. As rodas aparecem ainda como espaços de memória e sociabilidade negra. Entre as pessoas ouvidas, 72,8% se identificam como pretas ou pardas; na zona sul, essa proporção chega a 80%.
🎧 Podcast
“Grave, ainda que não surpreendente.” É assim que o jornalista Paulo Roberto Pires descreve os relatos de censura a “O Sol na Cabeça”, de Geovani Martins, em escolas e bibliotecas da rede Sesi no Rio de Janeiro. Segundo o escritor, professores relataram uma retirada silenciosa da obra após pressão de pais; a Firjan, responsável pela rede, nega que os livros tenham sido retirados. Na estreia do “Encontro Marcado”, novo formato de mesa-redonda do “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, Pires atribui a reação ao modo como Martins retrata personagens da periferia sem caricaturas. A editora Ana Lima Cecilio diz que a escrita do autor dá “vida pensante, literária, poética e afetiva” a pessoas historicamente deixadas à margem da literatura. Em conversa com o apresentador Paulo Werneck, os convidados também lembram leituras que os marcaram.
✊🏾 Direitos humanos
O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição em São Paulo, lançou em 22 de setembro um batalhão da Polícia Militar para combater roubos e furtos na capital, especialmente de celulares. Chamado BRAvo, reúne 250 policiais e 150 motocicletas; alguns agentes circulam com fuzis por áreas movimentadas. O lançamento ocorreu 11 dias antes das eleições, e o batalhão também aparece no plano de governo de Tarcísio. Especialistas ouvidos pela Ponte questionam a eficácia e os riscos da estratégia. Jacqueline Sinhoretto, da UFSCar, vê uma contradição entre patrulhar de moto, em contato próximo com a população, e portar armamento de alto poder de fogo: “São duas lógicas de policiamento totalmente diferentes. Ou ele está usando uma arma de guerra ou ele está num policiamento de proximidade. Não é para usar armamento de guerra nesses lugares”. A medida é examinada à luz da letalidade policial no estado: foram 834 pessoas mortas por policiais em 2025, ante 421 em 2022, alta de 98,1%, segundo a Secretaria de Segurança Pública.



