🔸Lula lidera no Nordeste e Flávio aparece à frente no Sul e no Centro-Oeste, segundo dados da pesquisa Quaest divulgados na semana passada, que apontam um empate técnico nos principais colégios eleitorais do país, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O Nexo detalha o levantamento encomendado pela Rede Globo e suas afiliadas em 25 estados para traçar o panorama da disputa presidencial. Ao recalcular as margens de erro de acordo com as amostras de cada estado, a análise evidencia a forte polarização regional de votos: Flávio liderando em Rondônia, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso; e o petista, em Pernambuco, Rio Grande do Norte, Maranhão e Sergipe.
🔸 “Eu não subo em palanque com quem incentiva a invasão em território indígena”, afirma a ativista Neidinha Suruí ao criticar a estratégia do Partido dos Trabalhadores (PT) na Amazônia para angariar votos em prol da reeleição de Lula. A campanha vem costurando alianças espinhosas com políticos conhecidos por pautas antiambientais, como é o caso do candidato a governador pelo partido, Expedito Netto, que foi a favor do impeachment de Dilma Rousseff e apareceu em um documentário sobre a luta do povo Uru-Eu-Wau-Wau. A Sumaúma revela que essa guinada afeta os maiores colégios eleitorais do Norte, unindo o PT a defensores da pavimentação da rodovia BR-319, que corta um trecho conservado da Floresta Amazônica. Durante um ato em Manaus (AM), o presidente empunhou um rastelo e prometeu que “talvez seja a estrada que vai ser feita com o maior cuidado ambiental de qualquer estrada já feita em qualquer país do mundo”. Aliás, a fragilização do licenciamento ambiental que viabilizou a pavimentação da rodovia pode beneficiar ruralistas e grileiros.
🔸 “Quanto mais as mulheres conquistam autonomia econômica, sexual, familiar e política, mais aparecem movimentos que pretendem restaurar hierarquias que pareciam ser superadas”, diz Ana Prestes, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB). A Agência Pública destaca que falas de influenciadores e campanhas contra a participação eleitoral feminina ganharam força na internet. “A violência como linguagem é a regra”, alerta Carla Antloga, professora da UnB, ao analisar o avanço desses discursos, que, para ela, representam a “reativação de argumentos históricos que defendiam a exclusão das mulheres da vida política”. Um monitoramento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisou 7 milhões de conteúdos que circularam em 85 grupos do Telegram desde 2015 e mostrou que 87% deles classificavam o direito ao voto das mulheres como “um dos maiores erros da sociedade ocidental”. Segundo Prestes, “a misoginia digital também é um instrumento de mobilização política nas redes, e a falta de legislação e regulação permite a sensação de normalidade destas condutas”.
🔸 O líder Ashaninka Américo Pascual Tumisha foi localizado vivo e em segurança junto à família no Peru, ao contrário do que foi divulgado pela Organização Regional Aidesep Ucayali na semana passada. O Varadouro traz uma correção ao alerta falso sobre o suposto assassinato de Américo e explica como o próprio erro da informação expõe o nível de vulnerabilidade da fronteira do Acre. Do lado brasileiro, territórios indígenas sofrem com a invasão de narcotraficantes e madeireiros ilegais. Frente à escalada da violência, a liderança indígena Francisco Piyãko adverte: “O Estado tem que ter uma ação estrutural, com planejamento, inteligência. Marcar presença na região de fronteira. Eu acho que a fronteira está muito desprotegida para esse tipo de situação”. A Comissão Pró-Indígenas do Acre ressalta que essa violência não pode ser tratada como “uma sucessão de episódios isolados” pelos Estados peruano e brasileiro e que a ineficiência de ambos “na proteção das fronteiras e dos territórios indígenas amplia a vulnerabilidade das comunidades e pode resultar em novas mortes”.
📮 Outras histórias
“Olha quantas crianças tem aqui e perceba quantas delas estão sem o celular na mão. É uma coisa rara de se ver hoje em dia.” O relato do aposentado José Moisés Gonçalves, 57 anos, sintetiza a força de um festival noturno de pipas que colore Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário de Salvador (BA). A Entre Becos detalha como essa brincadeira promove o lazer intergeracional e aquece o comércio na periferia baiana. “Teve um dia que eu não levei nada de volta para casa. Trouxe 40 pipas e 30 carretéis de linha e vendi tudo. Tudo”, conta José. Para o pipeiro e funcionário público aposentado Antônio Mendes, 66, “a pipa fortalece laços de comunicação, relacionamento e amizade em todo país, além de promover qualidade de saúde e de vida, nos campos cognitivos, físicos, emocionais e sociais”. Apesar dos benefícios, os praticantes apontam barreiras, como a falta de espaços livres provocada pelo crescimento urbano desordenado, a marginalização da atividade e a baixa participação de mulheres.
📌 Investigação
Para restringir o direito ao aborto legal no Brasil, os Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) são usados por parlamentares como atalhos no Congresso Nacional. Aprovados de forma célere e sem necessidade de sanção presidencial, a maioria dos decretos visa anular portarias do Ministério da Saúde e resoluções de conselhos nacionais. A AzMina revela que, entre 2020 e julho de 2026, foram propostos 63 PDLs no Legislativo para limitar o acesso à interrupção da gravidez. Um dos casos é o do PDL 3/2025, aprovado no Senado em julho em menos de dois minutos, que dificultou o acesso de menores de 14 anos – vítimas de estupro de vulnerável – ao aborto legal. “Isso faz parte de uma estratégia para causar insegurança nos profissionais de saúde. A sensação que fica para a sociedade é que a resolução já não está valendo, o que pode gerar medo de perseguição ou represália entre os profissionais”, diz Amanda Nunes, advogada e pesquisadora do Anis – Instituto de Bioética.
🍂 Meio ambiente
As inundações recorrentes em comunidades do Rio de Janeiro e de Pernambuco causam prejuízo médio de R$ 22.344 por pessoa. É o que indica a pesquisa “Retratos das Enchentes”, do Instituto Decodifica em parceria com organizações comunitárias, que reuniu 718 entrevistas domiciliares em quatro territórios desses dois estados: Acari, Kennedy, Passarinho e Carneiros. A Fast Company Brasil ressalta que, diante da negligência governamental e de um severo “apagão de dados” oficiais, a própria comunidade cria e financia estratégias de sobrevivência. De acordo com a pesquisa, que alcançou 2.177 pessoas, cerca de 70% das famílias vivem com até dois salários mínimos e, em média, cada morador dispõe de R$ 503 a R$ 816 por mês. Em paralelo, aproximadamente 55% dos moradores afetados relatam que nunca recebem alertas prévios da Defesa Civil sobre tempestades, mais de um quinto dos domicílios não possui água encanada, e 43,3% não contam com esgoto tratado.
📙 Cultura
A Justiça suspendeu as obras no solo e subsolo da área onde funcionava o Samba do Cruz até a conclusão de estudos técnicos. Localizado na Casa Verde, zona norte de São Paulo, o Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança, foi fundado em 1958, se consolidou como um reduto de futebol de várzea e rodas de samba e ficou historicamente conhecido como “Pequena África” paulistana. A Alma Preta explica que, após ter sido demolido para a construção de um parque sob concessão privada, o terreno virou palco de um embate arqueológico devido ao alto potencial de preservação de vestígios de religiões afro-brasileiras e ocupação colonial, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “[A decisão] não devolve a posse, mas reconhece judicialmente a seriedade da questão cultural, religiosa e arqueológica, além de preservar a área contra novas intervenções”, afirma o advogado Razuen El Kadri, que representa o Cruz da Esperança no caso. “A ação e a nossa luta continuam.”
🎧 Podcast
A degradação acelerada dos manguezais mostra que a especulação imobiliária, a poluição urbana e a criação de camarões em cativeiro impactam as áreas de preservação no litoral do país, sobretudo em Sergipe e Santa Catarina. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, mergulha na situação desses ecossistemas e mostra como a exploração de petróleo na Margem Equatorial – que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte – tem críticas de pesquisadores. Segundo a oceanógrafa Sara Charlier Sarubo, os mangues possuem sensibilidade extrema ao petróleo, que “quando entra na lama, nas raízes, não tem como limpar, não existe hoje tecnologia ou técnica capaz e efetiva de retirar o mínimo possível”. As estimativas de extração são de até 41 bilhões de barris de petróleo no chamado “novo Pré-Sal”.
✊🏾 Direitos humanos
“Eu tenho um buraco no meu peito que só os meus filhos preenchem”, relata Clarice Cardoso Reis, mãe de duas crianças desaparecidas no início de janeiro em Bacabal (MA). Seu desespero reflete o de milhares de famílias brasileiras, diante de um recorde de 84.269 desaparecidos em 2025 – dez desaparecimentos por hora, segundo o Anuário de Segurança Pública de 2026. O #Colabora narra a dor de mães que lideram as buscas ante o descaso policial e das subnotificações. Após o sumiço da filha, há 17 anos, no Rio de Janeiro, a fundadora do movimento Mães Braços Fortes, Rogéria Alves, desabafa: “Eu sou a voz da Vitória, porque se eu não falar, quem vai falar por ela?” Para enfrentar e tentar resolver os casos de desaparecimento, o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, lançado em 2025, surge como integração de dados de todo o país, anteriormente dispersos. Dividida em informações públicas e sigilosas e informações genéticas e não genéticas, a ferramenta centraliza dados gerais sobre os casos, e a inserção da ocorrência é automática, a partir do registro de desaparecimentos da Polícia Civil nos estados.



