O pedido da OAB a Moraes e como os narradores lidam com derrotas
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🔸 A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorize Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a se comunicar com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na condição de advogado do pai. A OAB afirma que o pedido busca garantir as prerrogativas da advocacia e solicita que a comunicação seja restrita a finalidades profissionais, sem interferir nas demais determinações judiciais. O requerimento foi apresentado dois dias após Moraes proibir, por 90 dias, o contato entre os dois por entender que Flávio descumpriu uma medida cautelar ao ler, em público, uma carta de Bolsonaro que o apresentava como porta-voz político. O Jota apurou que ministros do STF avaliam reservadamente que a leitura da carta teria sido uma tentativa de provocar a revogação da prisão domiciliar de Bolsonaro para fortalecer a narrativa política do grupo.
🔸 Ao menos R$ 1,3 bilhão em emendas de comissão da Câmara dos Deputados foi distribuído em 2025 sem que os documentos oficiais identificassem quais parlamentares escolheram os beneficiários dos recursos. É o que revela estudo da Transparência Brasil, que chama esse mecanismo de “emendas de liderança”, já que as indicações aparecem apenas em nome dos líderes partidários, e não dos deputados que efetivamente destinaram o dinheiro. A CartaCapital destaca que a prática respondeu por 16% dos R$ 7,9 bilhões movimentados nessa modalidade de emenda e foi adotada por sete bancadas: PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante, Podemos e Solidariedade. O PP, aliás, concentrou R$ 427,7 milhões dessas emendas, e mais da metade foi para o Piauí, estado do presidente do partido, Ciro Nogueira.
🔸 A propósito: as decisões do ministro Flávio Dino que bloquearam R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e R$ 6,1 milhões do ex-deputado Eduardo Cunha reacenderam o debate sobre como pessoas sem mandato conseguem influenciar a destinação de emendas parlamentares. O Nexo explica que, embora a Constituição reserve essa prerrogativa a deputados e senadores, as investigações da Polícia Federal apontam que ambos direcionaram recursos por meio das “emendas de liderança”. “Uma pessoa que não tenha mandato não tem direito de indicar emendas parlamentares. Emendar orçamento é prerrogativa do Congresso. O que temos aqui são parlamentares usados como laranja por pessoas com muito poder, ainda que não tenham mais um mandato”, avalia Juliana Sakai, diretora-executiva da organização Transparência Brasil.
🔸 Cinco cidades com menos de 1 milhão de habitantes receberam juntas R$ 173,9 milhões em “emendas Pix” em 2025. Nessa modalidade de transferência, recursos são repassados diretamente a estados e municípios, sem a exigência de convênios ou projetos prévios. Levantamento da Agência Tatu, com base em dados do Transfere.gov, mostra que Macapá (AP), Sena Madureira (AC), Tauá (CE), Mucajaí (RR) e Maceió (AL) lideram o ranking nacional. Quando o critério é o valor por habitante, Mucajaí aparece na primeira posição, com mais de R$ 1,5 mil por morador – cerca de 662 vezes o valor registrado em São Paulo. A concentração dos recursos em cidades médias e pequenas reflete tanto a distribuição populacional do país quanto a estratégia de parlamentares de fortalecer suas bases eleitorais.
📮 Outras histórias
Em Poço das Trincheiras, no sertão de Alagoas, as comunidades Mendes e Vila Carão vivem etapas distintas do reconhecimento oficial como remanescentes de quilombo. A Vila Carão já deu entrada no processo junto à Fundação Cultural Palmares. Já a comunidade Mendes trabalha na organização da documentação necessária para iniciar oficialmente a solicitação. Além da burocracia, dos custos e da falta de apoio técnico, os moradores enfrentam problemas como escassez de água e dificuldades para garantir a subsistência. A revista Alagoana narra a mobilização dos quilombos para a futura regularização dos territórios. “Ser uma comunidade quilombola e fazer parte dessa história significa muita coisa. Significa ter a força, a coragem e a fé que os quilombos sempre tiveram”, resume Luciano Honorato, uma das lideranças da comunidade Mendes.
📌 Investigação
Edifícios públicos do governo de São Paulo são postos à disposição do mercado imobiliário sem que informações como laudos de avaliação, valores das negociações e repasses estejam facilmente disponíveis ao público. A Agência Pública destrincha como o Fundo de Investimento Imobiliário do Estado de São Paulo (FIISP) é usado usado pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) para vender imóveis considerados subutilizados. No portfólio do fundo, que opera por meio de uma plataforma, estão desde o histórico edifício do antigo Banco de São Paulo, no centro da capital, até áreas de pesquisa científica, fazendas, escolas técnicas e outros patrimônios públicos. A plataforma oferece informações incompletas sobre os imóveis e dificulta o acompanhamento das negociações, com dados dispersos entre diferentes órgãos e registros. “Acho que fazem de tudo para não serem entendidos”, declarou à reportagem uma gestora de carteiras, que preferiu não se identificar.
🍂 Meio ambiente
As terras indígenas da bacia do Alto Juruena,no noroeste de Mato Grosso, perderam 55% da superfície de seus corpos d’água entre 1985 e 2025. É o que mostra análise da InfoAmazonia a partir de dados do MapBiomas. Na Terra Indígena Tirecatinga, em Mato Grosso, a redução chegou a 75%, alterou o regime de chuvas, secou lagoas e nascentes, reduziu a oferta de peixes, caça e frutos nativos e agravou a insegurança hídrica e alimentar. Os povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti têm respondido a essas mudanças. Depois de mapear os impactos das mudanças climáticas em um calendário ecológico, passaram a resgatar cultivos tradicionais por meio da agricultura familiar e usam o diagnóstico para cobrar políticas públicas de adaptação. “A gente trouxe a araruta de volta para o território. Duas aldeias plantaram. Foi emocionante o dia em que conseguimos colher”, destaca Suyani Terena, que até então só ouvira falar do tubérculo nas histórias que sua mãe, Cleide, contava sobre as roças tradicionais dos avós.
📙 Cultura
Aracaju foi a cidade brasileira que mais gastou com cachês de artistas entre janeiro de 2024 e março de 2026, somando R$ 39,2 milhões, segundo o ranking nacional elaborado pelo observatório De Olho nos Ruralistas. A Mangue detalha o documento e mostra que a maior parte dos recursos se concentrou nos dois principais festejos juninos de Aracaju: o Arraiá do Povo, promovido pelo governo de Sergipe, de Fábio Mitidieri (PSD), que destinou cerca de R$ 24 milhões a contratações de artistas, e o Forró Caju, organizado pela Prefeitura de Aracaju, de Emília Corrêa (Republicanos), com cerca de R$ 13 milhões em cachês. Artistas como Wesley Safadão e Natanzinho Lima figuram entre os que mais receberam recursos públicos no período. “São eventos importantes e devem continuar existindo. A questão é entender por que os recursos acabam concentrados em um número tão pequeno de artistas e produtoras, enquanto tantos outros artistas locais e regionais ficam fora desse circuito”, diz Tonsk Fialho, pesquisador do observatório.
🎧 Podcast
“O narrador conta uma história sobre a qual ele não tem domínio.” Marcelo Barreto, apresentador do “Redação SporTV”, colunista do jornal “O Globo” e jornalista que cobre esportes desde os anos 1990, decidiu pesquisar no mestrado como o narrador esportivo lida, em tempo real, com uma derrota. No segundo ato do “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, ele explica como os narradores constroem a expectativa da vitória ao longo de uma partida e, quando o resultado muda de rumo, precisam reorganizar a narrativa. A conversa lembra de transmissões marcantes, como o “Hoje não! Hoje não! Hoje sim!”, de Cléber Machado, no GP da Áustria de Fórmula 1, em 2002, quando Rubens Barrichello parecia caminhar para a vitória até a decisão da Ferrari de inverter as posições na última curva.
🧑🏽🏫 Educação
“Sem aula, sem merenda escolar, sem rotina, o que sobra é o improviso dos educadores e a solidão dos acolhidos. E o tédio, nesse contexto, não é moleza. É violência. A violência aumentava consideravelmente a partir do tédio.” O educador social Gabriel dos Santos Carvalho descreve as férias de crianças e adolescentes acolhidos em serviços de abrigo. Em artigo na Periferia em Movimento, o autor, que trabalhou por dois anos em três SAICAs (Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes) de São Paulo, conta que a falta de atividades, recursos e planejamento faz com que o período de recesso amplifique conflitos e restrinja o acesso ao lazer. “Eu me lembro de uma menina de seis anos. Quando perguntava se ela sonhava durante a noite, ela me contava que tinha sonhos de ‘estar sendo adotada’. E que, quando isso acontecesse, ela ia poder sonhar com outra coisa. Mas que, por enquanto, era só com isso que ela sabia sonhar.”



