O novo tarifaço de Trump e os abusos no coral de meninas de Petrópolis
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🔸O governo dos EUA propôs um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Desta vez, a tarifa será de 25%. O argumento é de que o país mantém práticas comerciais “irrazoáveis”. A proposta ocorre na esteira da investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O Nexo explica que a recomendação foi feita pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) depois de uma investigação iniciada em 2025. A decisão ainda depende da aprovação do presidente Donald Trump. Produtos considerados estratégicos para os EUA, como café, carne bovina, aeronaves, fertilizantes e minerais críticos, ficariam de fora da sobretaxa. Entre as justificativas apresentadas pelos EUA estão decisões da Justiça brasileira envolvendo plataformas digitais e supostos favorecimentos ao Pix em detrimento de empresas americanas de pagamentos. “O Brasil não vai acabar com o Pix, e isso é com o Banco Central. Pode não ser perfeito, mas é assim que funciona”, diz a professora de Economia e de Relações Internacionais da Uerj, Lia Valls.
🔸 Não é a primeira vez que os EUA se valem da Seção 301 da Lei do Comércio de 1974. O mecanismo permite impor sanções unilaterais contra países acusados de adotar práticas consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos. A Agência Pública lembra que o mesmo dispositivo foi usado no tarifaço de 100% imposto ao Brasil entre 1988 e 1991 e também nas tarifas de até 50% aplicadas em 2025. Nos anos 1980, empresas como a Apple e a indústria farmacêutica pressionaram os EUA contra políticas brasileiras de proteção à informática nacional e de não reconhecimento de patentes de medicamentos. Em 2025, o alvo passou a incluir temas ligados à economia digital, com as críticas ao Pix e a influência de grandes empresas de tecnologia e do setor de cartões de crédito.
🔸 A propósito: a quatro meses da eleição, os EUA mostram que a interferência começou, avalia o Jota. A decisão do tarifaço e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas são duas mostras de como a política externa terá peso inédito nesta eleição. As medidas de Trump têm potencial para influenciar a campanha eleitoral tanto da oposição ligada ao clã Bolsonaro quanto do presidente Lula (PT). O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta dificuldades para dissociar sua aproximação com Trump da ameaça tarifária. Já o governo Lula tenta transformar o episódio em uma narrativa de defesa da soberania nacional, estratégia que já trouxe ganhos políticos durante o tarifaço de 2025. Mas ainda não há evidências de ganhos eleitorais claros para nenhum dos lados.
🔸 Dados de usuários que acessaram o WiFi gratuito da Prefeitura de São Paulo podem ter sido compartilhados para campanhas de marketing e disparos em massa de mensagens sem consentimento dos titulares. O Intercept Brasil revela que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG responsável pelo serviço, firmou contratos que previam o fornecimento de contatos de usuários a empresas terceirizadas, apesar de o edital vedar o uso dos dados para finalidades diferentes da operação da rede pública. O ICB é comandado por Karina Ferreira da Gama, produtora executiva do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL). A ONG recebeu um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo e contratou a empresa Talk Communications por R$ 2,7 milhões para campanhas promocionais via WhatsApp e SMS. Os documentos indicam a possibilidade de até 8,1 milhões de disparos de mensagens.
📮 Outras histórias
Às vésperas do inverno, a baixa vacinação contra a gripe no Rio Grande do Sul preocupa instituições de saúde no estado. Segundo o Sul21, até o final da campanha, no último sábado, apenas 43,1% do público prioritário recebeu a vacina contra a influenza, com cobertura ainda menor entre crianças (32%) – e os hospitais já registram aumento nas internações por doenças respiratórias desde março. “A influenza pode levar as pessoas a apresentarem quadros graves respiratórios, como pneumonias, com necessidade de internação e uso de oxigênio, eventualmente levando à morte. Com a vacinação, há uma redução na chance destas complicações”, explica a infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Caroline Deutschendorf. Há ainda a preocupação com o retorno do fenômeno El Niño, que deve provocar chuvas acima da média na região Sul nos próximos meses.
📌 Investigação
Cobranças excessivas, assédio moral e abuso sexual marcaram a vida das Meninas Cantoras de Petrópolis. O grupo de coral formado por meninas entre 5 e 15 anos marcou a TV brasileira e fez parte de álbuns como “25 de Dezembro”, da cantora Simone. Em meio à disciplina rígida dos ensaios, elas viveram situações dolorosas. A escolha das integrantes e a formação musical estavam nas mãos do maestro e professor Marco Aurélio Xavier, que fundou o grupo em 1976, aos 24 anos, no colégio católico Santa Isabel. Na revista piauí, a repórter Cristina Fibe ouviu 17 mulheres, hoje com idades entre 24 e 60 anos, das quais nove preferiram não se identificar por temor de ataques com a repercussão do caso, ou porque não dividiram nem com a família os abusos que relataram à reportagem. “Eu já fui com catapora, com febre, vomitando. Já desmaiei, porque estava passando tão mal que, durante a apresentação, caí dura para trás”, conta Aline Barino, 41. Como parte de uma conduta disciplinar, elas não podiam faltar. A ausência em um único dia implicava perder a “medalha de ouro” no fim do ano e passar a receber um tratamento com silêncio ou hostilidade do maestro.
🍂 Meio ambiente
O desmonte da agenda de ESG e climática no mercado de capitais se concretizou na última sexta. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda responsável por fiscalizar, normatizar e desenvolver o setor, revogou completamente a obrigatoriedade e tornou voluntários os reportes financeiros relacionados à sustentabilidade e ao clima por companhias abertas no país. O Reset mergulha no retrocesso dessa agenda no órgão, com pressão política de parlamentares e mudança na presidência e nos cargos. O único voto contrário ao fim dos informes obrigatórios foi da diretora Marina Copola. Para a executiva de sustentabilidade e clima Ana Luci Grizzi, a decisão da CVM é uma “assimetria informacional” e “o que a própria CVM havia construído com rigor técnico e, em decisão divulgada numa sexta-feira à noite, foi desmontado”.
📙 Cultura
“Manter o Yaathe vivo é uma das maiores formas de resistência do povo Fulni-ô pois são mais de 400 anos de contato com a sociedade não indígena”, afirma Awassury Araújo de Sá. Ele é professor de Yaathe, a língua do povo Fulni-ô, a única do Nordeste que sobreviveu funcionalmente às políticas de extermínio provocadas pela colonização. A Revista Afirmativa detalha que a resistência ancestral está ligada ao território e às práticas culturais que sustentam a identidade da etnia, formada por uma população de 7.867 pessoas, que vive no município de Águas Belas, no Agreste pernambucano. Para Awassury, mesmo diante dos desafios do contexto contemporâneo, a continuidade do Yaathe encontra principal sustentação nos rituais sagrados. “O ritual e a língua tornam-se interdependentes: um fortalece e sustenta o outro. A escola contribui para orientar o aprendizado, oferecendo a base e o tino necessários, e a prática efetiva da língua é vivida no cotidiano e, sobretudo, nos rituais, onde ela se manifesta de forma plena e significativa.”
🎧 Podcast
Voz por trás de “Paciência”, “Hoje Eu Quero Sair Só” e outros grandes hits da música popular brasileira, o cantor e compositor Lenine cresceu em um lar onde o amor, a música e a política se cruzavam. Filho de um ex-seminarista comunista e de uma mãe que sustentava a casa nos bastidores, o artista acredita que a educação libertária que recebeu foi o motor de sua carreira musical desde o início, quando saiu ainda jovem de Recife para tentar alcançar esse sonho. No “Isso Não É Uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, Lenine revisita a própria trajetória, conta como exerce a paternidade e fala sobre o papel de avô hoje, à luz dos vínculos que marcaram sua vida. Para ele, o afeto é a maior tecnologia já inventada pelo ser humano.
✊🏾 Direitos humanos
As regiões e unidades militares de São Paulo que mais mataram durante os Crimes de Maio, em 2006, ainda são as mais violentas 20 anos depois. Levantamento da Alma Preta mostra que na capital e na Baixada Santista, os batalhões das áreas com mais mortos durante aquelas semanas de 2006 são os mesmos que lideram o ranking de letalidade policial hoje. É o caso dos distritos de Parque São Rafael, São Mateus e Teotônio Vilela, na zona leste, que correspondem ao 38º Batalhão de Polícia Militar – 55º DP, 49º DP e 69º DP –, responsável pelo maior número de execuções durante os Crimes de Maio. Atualmente, a região ocupa o segundo lugar em letalidade policial na capital paulista, com 270 mortes cometidas por policiais entre 2013 e março de 2026. As áreas mais letais são também as mais vulneráveis socialmente. São Rafael e São Mateus, por exemplo, têm mortalidade infantil acima de 15 por mil nascidos vivos, e a taxa de gravidez na adolescência está entre as mais altas da cidade.




