O novo ataque dos EUA à Justiça brasileira e o burnout materno no país
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🔸O governo dos EUA afirmou ter “séria preocupação” com decisões da Justiça brasileira que, segundo avaliação do país, restringem a liberdade de expressão online. A declaração do Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, foi feita em resposta a críticas feitas por parlamentares republicanos ao Brasil. Segundo o Metrópoles, o comunicado menciona decisões judiciais consideradas “amplas e desproporcionais” e afirma que teriam restringido conteúdos e opiniões políticas, inclusive de jornalistas e autoridades eleitas, “sem o devido processo legal”. Embora não cite nomes, o posicionamento ocorre após relatório do Comitê Judiciário dos EUA – atualmente controlado pelo Partido Republicano – criticar diretamente as decisões de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O texto acusa o magistrado de promover uma “campanha de censura” com impacto potencial nas eleições de 2026 e cita aliados da família Bolsonaro, como Flávio Bolsonaro (PL), ao apontar possíveis efeitos sobre a atuação política online.
🔸 Falando em EUA… O apoio do país à ditadura militar brasileira foi mais complexo e conflituoso do que a narrativa tradicional sugere. A partir de documentos históricos e pesquisas recentes, a Agência Pública revela que, embora os EUA tenham apoiado o golpe de 1964, as relações com o regime foram marcadas por tensões, divergências e cobranças mútuas ao longo dos anos. Um episódio emblemático foi a visita de Nelson Rockefeller ao Brasil, em 1969, como emissário de Richard Nixon. Em reuniões com o presidente Arthur da Costa e Silva, surgiram conflitos sobre censura, direitos humanos e apoio militar, além de críticas brasileiras à limitada ajuda dos EUA após o golpe.
🔸 O Senado confirmou que recebeu a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). A confirmação formaliza o início da tramitação depois de meses de atraso – de forma extraoficial, o presidente Lula (PT) anunciou Messias em novembro de 2025, mas seu nome enfrentou resistência no Senado, sobretudo por parte do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O Congresso em Foco explica como funciona o trâmite a partir de agora. A mensagem enviada por Lula será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça, onde ocorrerá uma sabatina, antes de seguir para votação secreta no plenário. Para ser aprovado, Messias precisa de ao menos 41 votos favoráveis. Se confirmado, assumirá a vaga de Luís Roberto Barroso na Corte.
🔸 Mesmo após a entrada em vigor do ECA Digital, conteúdos que sexualizam crianças e adolescentes continuam circulando nas redes sociais. A Lupa identificou publicações que expõem menores a comentários com teor sexual no Facebook, Instagram, TikTok e Kwai, além de anúncios pagos, usados para aumentar o alcance nas redes. Entre os dias 17 e 24 de março, foram encontrados perfis que impulsionaram conteúdos proibidos pela lei, muitas vezes direcionando usuários para grupos no Telegram. Também foram registrados comentários predatórios recentes em vídeos de adolescentes, o que revela a persistência desse tipo de abordagem mesmo após a nova regra. “A velocidade da violência é muito maior que a velocidade da regulação, um ponto crítico, que nos faz reforçar a importância dos adultos cuidadores como primeira linha de defesa desses direitos”, afirma a psicóloga Nay Macêdo, co-fundadora da organização de educação digital com foco em proteção à criança Aldear.
📮 Outras histórias
“Só quem tem coragem mesmo se propõe a enfrentar o mangue”, resume a marisqueira Jaci França de Jesus, 63 anos, que criou 11 filhos a partir da coleta de crustáceos em Sergipe. O Meus Sertões narra sua trajetória em Terra Caída, povoado de Indiaroba, onde há pelo menos quatro décadas o manguezal garante sustento à família. A reportagem descreve a rotina das marisqueiras, que trabalham de madrugada até a noite, dependendo das marés para capturar o aratu, espécie valorizada na culinária local. A atividade exige técnica, resistência física e expõe as trabalhadoras a riscos frequentes, como cortes, quedas e ataques de animais. Hoje, aliás, Jaci já não vai mais para o manguezal. A função de catar aratus e siris no mangue foi herdada por um dos filhos, e ela trabalha extraindo a carne dos crustáceos. O segredo, ela conta, está em bater com uma faca no casco do crustáceo para soltar a carne e retirá-la limpa.
📌 Investigação
A contaminação das águas do rio Alalaú assombra os indígenas do território Waimiri Atroari, entre o Amazonas e Roraima. As comunidades são vizinhas da Mineração Taboca, a maior produtora do país de estanho refinado, insumo que chega às cadeias produtivas da Toyota e da Tesla. Os indígenas denunciam a contaminação das águas há 40 anos e exigiram um laudo independente para verificar a situação. A Repórter Brasil teve acesso exclusivo ao documento, produzido pela startup de biotecnologia Aqua Viridi, que confirma a presença de metais na água e nos sedimentos do rio e indica uma “ameaça imediata” aos indígenas e ao meio ambiente. Os resultados fizeram o Ministério Público Federal retomar uma investigação que se arrasta há cinco anos sobre a possível relação entre a atividade minerária e a contaminação na terra indígena.
🍂 Meio ambiente
Berço das águas do país, o Cerrado está no centro da crise hídrica brasileira: um estudo em fase de revisão pela revista científica “Sustainability” analisou 81 bacias hidrográficas do bioma e revela que 88% delas apresentam redução de vazão. As projeções indicam que o Cerrado pode perder até 35% de suas reservas hídricas. O desmatamento, em grande parte provocado pela expansão do agronegócio, é o principal vetor de destruição do bioma. O #Colabora lembra que o Cerrado abriga bacias estratégicas como as dos rios São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata, que funcionam como uma infraestrutura natural de produção e distribuição de água. O comprometimento das águas da região impacta o abastecimento urbano, a produção de alimentos, a geração de energia e a estabilidade climática do país todo.
📙 Cultura
O Projeto de Lei 811/2025 do Amazonas ameaça a liberdade de expressão artística. A proposta da deputada estadual Débora Menezes (PL) pretende proibir manifestações políticas de artistas em eventos financiados com recursos públicos. Sem uma política pública estruturada e permanente de financiamento cultural, a suposta “neutralidade” do projeto abre espaço para silenciar a cultura e seus trabalhadores. Em artigo no Le Monde Diplomatique Brasil, Loren Lunière, produtora cultural e conselheira municipal de cultura de Manaus, explica os efeitos práticos da proposta. “Quando a cultura depende de recursos públicos escassos e concentrados para existir, qualquer tentativa de controlar o que pode ou não ser dito nesses espaços se converte em censura direta. A mensagem implícita é simples e brutal: ou você se cala, ou você não trabalha.”
🎧 Podcast
A partir de uma visão colonialista, a indústria alimentícia e pesquisadores do Norte Global – muitos financiados pelas corporações – tentam deslegitimar a Classificação NOVA. Este é um sistema elaborado por pesquisadores brasileiros que define o que são produtos ultraprocessados e os coloca no centro do debate sobre obesidade. O “Prato Cheio”, produção d’O Joio e O Trigo, mergulha no conflito entre cientistas do Norte e do Sul Global e como o discurso sobre “rigor acadêmico” pode estar, na verdade, disfarçando interesses econômicos e colonialismo. A tensão colocou em disputa quem tem direito à inovação e como a ciência produzida no Sul Global desafia paradigmas estabelecidos.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
“Quando se fala em políticas públicas para mães, a discussão não deveria ser apenas ampliar o número de creches, mas garantir que elas funcionem com estrutura adequada e horários que dialoguem com a realidade das famílias”, afirma Sarah Nascimento, profissional do marketing e gestão empresarial, que cotidianamente tenta conciliar o trabalho com a maternidade. A realidade de Sarah reflete um esgotamento físico e mental vivido por boa parte das mulheres que maternam no país. Uma pesquisa de 2024 feita com 872 mães mostrou que 97% se sentem sobrecarregadas quase todos os dias e 94% relataram estar esgotadas. O Nós, Mulheres da Periferia explora o burnout materno e o Projeto de Lei 5.063/2023, que cria uma política de apoio e prevenção à estafa mental relacionada à maternidade. A proposta prevê ações integradas entre os órgãos de saúde, assistência social e educação.




