As novas proibições impostas a Bolsonaro e o estudo de uma IA para o SUS
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🔸O ministro Alexandre de Moraes autorizou que Jair Bolsonaro (PL) cumpra prisão domiciliar por 90 dias depois que receber alta hospitalar. O ex-presidente, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, está internado em Brasília, desde 13 de março, em função de um quadro de broncopneumonia. Ele deixou a UTI e pode receber alta nos próximos dias, caso mantenha a recuperação. A Agência Pública informa que, na decisão, Moraes ponderou a excepcionalidade do quadro de saúde – segundo ele, o estado de Bolsonaro demonstra que “a concessão de prisão domiciliar humanitária temporária é a indicação mais razoável para a plena recuperação”. É a primeira vez que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) atende ao pedido de prisão domiciliar, feito reiteradamente pela defesa do ex-presidente.
🔸 Moraes impôs uma série de restrições para a prisão domiciliar temporária de Bolsonaro. Entre as principais medidas estão a proibição de acesso à internet, uso de redes sociais, gravação de áudios, vídeos e concessão de entrevistas sem autorização judicial. O Terra detalha as regras e conta que o ex-presidente voltará a usar tornozeleira eletrônica. Bolsonaro também não poderá receber visitas – com exceção de familiares que vivem na residência: a companheira Michelle, a filha Laura e a enteada Letícia, além dos advogados e da equipe médica. Moraes também determinou a proibição de manifestações, acampamentos e outras aglomerações em um raio de até 1 km da casa do custodiado.
🔸 “Há milhares de pessoas com quadros de saúde mais graves, deficiência, sofrimento mental, abandono terapêutico e nenhuma capacidade de fazer pressão em setores políticos, judiciais e midiáticos. Permanecem nas celas. Permanecem esquecidas”, afirma Reinaldo Santos de Almeida, advogado criminalista, doutor em Criminologia e Direito Penal (UERJ) e ex-professor da UFRJ e da UFSC. Em artigo na CartaCapital, ele mostra como o debate sobre a prisão domiciliar de Bolsonaro expõe desigualdades estruturais do sistema penal brasileiro. “O discurso humanitário articulado agora serve como véu ideológico para um privilégio concreto de classe”, avalia. “Superlotação, insalubridade, abandono, violência cotidiana, sofrimento psíquico e humilhação permanente definem a vida concreta de centenas de milhares de presos pobres. Bolsonaro não compartilha essa realidade”, completa Almeida.
🔸 O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), renunciou ao cargo na segunda, às vésperas da retomada de um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que poderia levá-lo à cassação e à inelegibilidade. A saída também ocorre dentro do prazo legal para disputar uma vaga no Senado, movimento visto como estratégia para reduzir os impactos políticos do processo. A Alma Preta lembra que as três chacinas mais letais do Rio desde 2007 ocorreram durante o mandato de Castro. A mais recente – a Operação Contenção, em 2025, nos Complexos do Alemão e da Penha – deixou 122 mortos e é considerada a maior chacina da história do Rio e do Brasil, superando as operações policiais de Jacarezinho, em 2021, e da Vila Cruzeiro, em 2022. Entre 2020 e 2025, a gestão Castro somou 1.846 mortes em operações policiais.
🔸 A propósito: a renúncia do governador altera a estratégia do grupo bolsonarista no estado com impacto nos planos do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro. O Jota destaca que a chapa desenhada por ele no início do ano – que combinava o então secretário de Cidades, Douglas Ruas, ao governo e dois nomes ao Senado, o próprio Castro e Márcio Canella – dependia da manutenção dos direitos políticos do ex-governador, ameaçados agora pelo julgamento no TSE. O plano era que Ruas assumisse o lugar de Castro e ganhasse visibilidade para as eleições em outubro. Mas a estratégia bolsonarista esbarra num problema: o STF passou a exigir afastamento prévio de seis meses para candidatos à eleição indireta, o que impede a candidatura de Ruas, já que ele ocupava um cargo no Executivo. Com isso, o grupo bolsonarista perde sua principal aposta para o governo do Rio.
📮 Outras histórias
O quilombo de Barreiro, na zona rural de Vitória da Conquista (BA), voltou a ficar isolado com o aumento do nível das águas do rio Pardo, na última semana, agravado por chuvas e pela abertura de comportas de uma barragem em Minas Gerais. O Conquista Repórter destaca que o problema é recorrente. “Quando o nível do rio sobe, ficamos sem acesso, tendo só o barco para poder atravessar e chegar na cidade”, diz Ingrid Queiroz, coordenadora do quilombo. A própria comunidade, com cerca de 45 famílias, se mobilizou para a construção de uma ponte sobre o rio, após as fortes chuvas de dezembro de 2021. Com a cheia recente, os moradores dependem de barcos para se deslocar, o que dificulta o atendimento de saúde, as idas de crianças à escola e até a compra de alimentos. “Será que o poder público vai tentar nos explicar porque nós ainda estamos vivendo nesse tempo? Século 21, e a gente está passando por isso”, questiona o trabalhador rural Reinaldo Ferreira.
📌 Investigação
Falhas estruturais no sistema de controle ambiental e na concessão de crédito rural no Acre abrem espaço para irregularidades – do desmatamento em áreas protegidas e a manipulação de cadastros ambientais aos financiamentos concedidos a propriedades com infrações ambientais. É o que revela documento do Núcleo de Apoio Técnico do Ministério Público do Estado do Acre, obtido com exclusividade por O Varadouro. Segundo os o estudo, os sistemas usados pelos órgãos que deveriam fiscalizar a região funcionam de forma fragmentada. Não há um fluxo institucional capaz de garantir que as atividades produtivas, os financiamentos rurais e o monitoramento ambiental estejam alinhados. Se o desmatamento na Amazônia diminuiu em 2024, no Acre, houve um aumento de 31,3% comparado com o ano anterior. Nos últimos cinco anos, o estado recebeu mais de R$ 2 bilhões em financiamento rural, e a pecuária foi o principal vetor da destruição da floresta.
🍂 Meio ambiente
Especialistas lutam para que a ariranha seja incluída na lista das espécies migratórias em risco de extinção, em revisão na Conferência da ONU sobre Espécies Migratórias (COP15). O Conexão Planeta explica que a espécie, endêmica da América do Sul, perdeu 40% de sua área de existência. Originalmente era encontrada em 11 países, mas já foi extinta no Uruguai e é classificada como criticamente ameaçada na Argentina, Paraguai e Equador, além de estar em perigo de extinção em todas as demais áreas de ocorrência. “Por mais que a área de distribuição pareça ampla, a ariranha não ocorre de forma homogênea, a ocorrência é limitada e fragmentada porque a espécie só sobrevive em rios com alta qualidade ambiental, boa quantidade de peixes, matas ciliares bem preservadas, água limpa e pouca perturbação humana”, explica Caroline Leuchtenberger, presidente do Projeto Ariranhas e coordenadora de espécie da União Internacional para a Conservação da Natureza.
📙 Cultura
“A capoeira não tá no pé e nem na mão. Tá no sangue e no coração”, afirma Francisco Thomé dos Santos Filho, o Mestre Bigo, que completou ontem 80 anos – dos quais 72 foram dedicados à Capoeira Angola. Nascido em Itaparica, na Bahia, desde 1989, ele comanda a Academia de Capoeira Angola Ilê Axé, no Jardim Pedreira, bairro periférico da zona sul de São Paulo, onde tem formado gerações de capoeiristas. A Periferia em Movimento narra a trajetória de Mestre Bigo e como ele mantém vivo o estilo mais tradicional da capoeira como herança e caminho nas periferias da capital paulista. “Celebrar os 80 anos de um homem preto, de um mestre da cultura popular, tem um significado gigante”, afirma o professor Jairo Souza – hoje Mestre Cabo Jairo, formado pelo próprio Bigo. “A longevidade dos meus mais velhos fala sobre a minha longevidade (…) Celebrar a vida dele é celebrar a nossa continuidade. Presente, passado e futuro”, diz Jairo.
🎧 Podcast
Considerado o clássico fundador da literatura argentina, “Facundo, ou Civilização e Barbárie” (1845), de Domingo Faustino Sarmiento, mistura de biografia, romance e ensaio, narra a vida do político Juan Facundo Quiroga e retrata o “aspecto físico, costumes e hábitos” da nova nação, cuja independência havia sido proclamada em 1816. O “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, conversa com o crítico literário Sérgio Alcides e o escritor Julián Fuks, sobre as raízes do autoritarismo na Argentina, a ditadura militar e seus ecos no governo de Javier Milei, a partir da obra de Sarmiento. “A gente não consegue deixar para trás essa violência grotesca, da qual Sarmiento fala de maneira muito vibrante no ‘Facundo’. E quando a gente retorna a uma obra assim, escrita quase dois séculos atrás, e tem essa sensação de atualidade, isso é de arrepiar”, diz Alcides. O golpe militar no país vizinho completou 50 anos ontem. Cerca de 30 mil pessoas foram mortas durante o regime.
👩🏽💻 Tecnologia
Uma ferramenta de IA está em desenvolvimento para ajudar profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) a identificar sinais de violência e apoiar decisões clínicas em atendimentos complexos, com populações consideradas mais vulneráveis, como pessoas LGBTQIA+ e mulheres. A pesquisa do enfermeiro e professor Hugo Fernandes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenha um chatbot que pode apoiar a decisão de profissionais da atenção primária, como médicos, enfermeiros e psicólogos. Segundo a Agência Diadorim, o sistema também inclui orientações sobre abordagem e linguagem. Dentro do chatbot há um personagem que sugere formas de acolhimento, como o uso de pronome neutro quando necessário e orientações sobre como conduzir a conversa dependendo do contexto da violência. “Informações podem se perder, as fichas são complexas e os encaminhamentos nem sempre são feitos de forma adequada”, diz Fernandes.




