A nova lei contra a misoginia e como o Pinterest expõe dados de usuários
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🔸O Senado aprovou por unanimidade o projeto de lei que criminaliza a misoginia no Brasil, inserindo o crime na Lei do Racismo com penas de até cinco anos de prisão. Conhecido como PL antimisoginia, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), o projeto que agora segue para a Câmara ganhou força após casos recentes de violência de gênero – só em 2025, o país registrou 1.568 feminicídios, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A Agência Lupa mostra que, apesar da aprovação, houve mobilização de parlamentares bolsonaristas para tentar adiar a votação. Nas redes, grupos alinhados a Jair Bolsonaro (PL) difundem narrativas em dois eixos: o primeiro sustenta que a aprovação da lei levaria à censura nas redes sociais, e o segundo afirma que o projeto imporia agendas ideológicas contrárias a valores tradicionais. A reportagem destaca que o projeto de lei não pune pensamentos, mas a exteriorização dessas condutas, com ofensas, discriminação ou incitação à violência.
🔸 Falando em misoginia… A ausência de dados raciais nos registros de violência contra mulheres compromete a formulação de políticas públicas eficazes no Brasil. A avaliação é de pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança, autores do boletim “Elas vivem: a urgência da vida”, lançado em março de 2026. Segundo o documento, 86,7% dos casos monitorados não trazem informação sobre raça ou cor das vítimas, o que dificulta identificar quais grupos estão mais expostos à violência. A Alma Preta destaca que o problema afeta sobretudo populações vulneráveis, como mulheres negras e meninas indígenas, cujas realidades deixam de aparecer no debate público. Sem considerar fatores como raça, território e etnia, a leitura da violência permanece incompleta.
🔸 Fotos de Duda Salabert (PDT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) estão numa lista de suspeitos usada pela polícia de Pernambuco para o reconhecimento de criminosos. As deputadas federais consideram a inclusão na lista um caso de racismo e transfobia institucional, informa a Revista Afirmativa. “Não vamos aceitar que identidade de travestis vire critério de suspeição”, escreveu Salabert, nas redes sociais. A irregularidade foi identificada pela Defensoria Pública do Estado de Pernambuco, que enviou um ofício ao gabinete de Salabert. Segundo o órgão, não há justificativa plausível para a inserção das parlamentares na lista além do fato de serem mulheres negras e trans, o que indica que o critério adotado foi identitário, e não baseado em semelhança com a suspeita descrita pela vítima, como seria o procedimento padrão.
🔸 Ao autorizar a prisão domiciliar de Bolsonaro, Alexandre de Moraes tenta se blindar: “Um eventual agravamento do estado de saúde de Bolsonaro poderia gerar ainda mais desgaste para o ministro, além de um desgaste institucional para o Supremo Tribunal Federal”, afirma Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas. O Nexo repercute com a cientista política e com Leandro Consentino, professor do Insper, os efeitos da prisão domiciliar do ex-presidente tanto para Moraes quanto para Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência nas eleições de outubro. “Há o contexto em que Moraes está inserido, por causa das questões que envolvem o caso do Banco Master. Tomar essa decisão agora ajuda a amenizar o tom das críticas que ele vem recebendo”, destaca Santana. Para Consentino, “a decisão fortalece a narrativa de Flávio Bolsonaro de que houve uma vitória e um recuo do Supremo”.
🔸 Falando em Flávio Bolsonaro… o senador aparece numericamente à frente de Lula em um eventual segundo turno, embora ainda haja empate técnico, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada ontem. Há dois meses, Lula tinha vantagem de quase cinco pontos, o que mostra uma virada recente no cenário. A CartaCapital explica o que pode ter levado à mudança. Para o analista Yuri Sanches, o avanço de Flávio se deve a um conjunto de fatores negativos para o governo: crises de imagem, desgaste com escândalos, como o caso envolvendo o INSS e o Banco Master, e a associação, por parte do eleitorado, de Lula a decisões do STF contra o bolsonarismo. Sanches lembra ainda que casos de corrupção, mesmo difusos, tendem a impactar mais quem está no poder, alimentando a desconfiança nas instituições.
🔸O Brasil não está dividido em dois, mas sim em cinco. É o que afirma o jornalista Pedro Doria. Sua premissa é a base de “Ponto de Partida, A Série – Nós, Brasileiros”, produção original do Meio. O primeiro episódio, “A Sociedade”, propõe uma nova lente para compreender o Brasil além da divisão tradicional entre esquerda e direita, criando um mapa para entender como os diferentes brasileiros pensam, votam e se posicionam, e por que leituras simplificadas já não dão conta de explicar o país.
📮 Outras histórias
Durante duas semanas, familiares de pessoas presas no Rio Grande do Sul ocuparam a Praça da Matriz, em Porto Alegre, em protesto contra as mudanças nos protocolos das penitenciárias. Formada principalmente por mulheres e crianças, a mobilização terminou sem diálogo com o governo estadual. O Sul21 conta que as novas regras, implementadas inicialmente na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas, alteraram rotinas como visitas, entrega de alimentos e organização interna. Para os familiares, as mudanças dificultam o acesso e impõem barreiras consideradas arbitrárias. “Duas vezes eu tive que botar fora meu pote com comida”, diz Daiana Beatriz. “A família quer levar uma comida, quer levar um conforto digno pra eles.”
📌 Investigação
Documentos pessoais e dados sensíveis de brasileiros e estrangeiros, incluindo os de crianças e adolescentes, podem ser encontrados de forma pública e fácil no Pinterest. O Núcleo identificou centenas de RG, CPF e CNH, cópia de contas bancárias, certidões de nascimento, imagens com senhas e logins de serviços na plataforma. A maioria das publicações parece ter sido feitas pelos próprios titulares ou de familiares que podem estar usando o site como nuvem de armazenamento – o que indica as limitações da empresa em deixar explícitos como funcionam seus serviços. O próprio Pinterest tinha bloqueado buscas com o termo “ID”, que em inglês remete à identidade, mas buscas análogas em português funcionam sem restrições. Ao clicar nas imagens, a própria plataforma recomenda posts semelhantes.
🍂 Meio ambiente
O cultivo de açaí integrado ao planejamento urbano pode ajudar a combater alagamentos na Amazônia urbana. Esta é a proposta do economista Harley Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que se vale do conceito de Soluções Baseadas na Natureza para enfrentar os problemas das cidades. O Amazônia Vox explica que o açaizeiro é uma palmeira típica de áreas alagadas e tem alta capacidade de absorção de água e faz parte da cultura alimentar amazônica. Para Silva, os açaizais poderiam ser implementados no território, em casas, áreas públicas, parques, e seriam capazes de absorver a água da chuva, reduzir alagamentos e ainda gerar renda e alimento. “Seria uma forma de enfrentar o problema com menos obras de engenharia. Não é que vá substituir por completo, mas poderíamos aproveitar áreas onde o solo ainda não está impermeabilizado com grama ou jardins transformando em açaizais urbanos”, afirma.
📙 Cultura
O curta-metragem “Crônicas Marginais”, primeira produção original da Academia de Cinema da Rocinha, ganhou o prêmio de melhor curta no festival Cinéma de Femmes, em Paris, na França, e também será exibido em um festival na Itália. Segundo o Fala Roça, muitas pessoas trabalharam de forma gratuita no curta, e a própria equipe teve que colocar dinheiro para conseguir finalizá-lo. Os produtores destacam que, em meio ao reconhecimento internacional do cinema brasileiro, é preciso valorizar o audiovisual de base. “Queremos pagar professores, supervisores, atores da comunidade, dar cachê justo, pagar o menino da produção, mesmo que seja aluno. Ele precisa ter dinheiro para passagem, para comer”, afirma a equipe.
🎧 Podcast
Valores cristãos como disciplina e sacrifício ajudam os clubes a domarem jovens jogadores e se alinham à rotina de busca pelo sucesso exigida dos atletas de alto rendimento. O “Discípulos”, produção da Rádio Guarda-Chuva, mergulha no mundo dos atletas evangélicos que se apoiam no discurso de meritocracia, sacrifício e abdicação de alguns prazeres para alcançar um objetivo maior. O episódio mostra como jovens das periferias sonham em se destacar por meio do esporte e qual o papel das igrejas no desenvolvimento de suas carreiras.
🙋🏾♀️ Raça e Gênero
Metade das mulheres atendidas na atenção primária do sistema de saúde viveu uma violência física ou sexual, mas os profissionais de saúde falham em identificar a ligação entre os abusos vividos e sintomas clínicos. A violência doméstica atua como um fator invisível de adoecimento crônico entre mulheres: elas chegam aos serviços de saúde com queixas e sintomas, mas recebem respostas e diagnósticos que não contemplam integralmente as vivências. Assim, precisam voltar repetidas vezes. A Gênero e Número mostra a relação dos sintomas com os abusos e destaca a falta de preparo dos profissionais para lidar com o tema. Pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, mapearam 151 obstáculos e apenas 70 facilitadores no atendimento a mulheres em situação de violência doméstica na atenção primária à saúde no país.




