O negócio bilionário das terras raras e a trend contra o arroz e feijão
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🔸Trabalhadores submetidos à escala 6x1 recebem, em média, 58% a menos do que aqueles em regime 5x2. Segundo uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os trabalhadores que cumprem 44 horas semanais recebem em média R$ 2.627,74. Para o regime de 40 horas, a média salarial chega a R$ 6.211,16. A Alma Preta destaca que pessoas negras são maioria nas jornadas mais longas, e trabalhadores brancos predominam nas cargas menores. A análise também explora o nível de escolaridade: cerca de 83% dos vínculos de trabalhadores com Ensino Médio completo ou menos têm escalas acima das 40 horas semanais, valor que cai para 53% entre aqueles com diploma de Ensino Superior.
🔸 A propósito: o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), prevê instalar na próxima semana a comissão especial que discutirá o fim da escala 6x1. O Congresso em Foco mostra o passo a passo das propostas sobre o tema em debate no Legislativo. A escolha de presidente e relator da comissão especial ainda está em aberto. “Nosso papel é construir a proposta mais equilibrada possível, garantindo a redução da jornada para trabalhadores, mas com responsabilidade, ouvindo também o setor produtivo e o governo, para alcançar a maior convergência possível”, disse Motta.
🔸 Decisões do governo Lula vêm fragilizando a credibilidade da Lista Suja do trabalho escravo. O instrumento é central na defesa do Brasil diante de uma investigação dos Estados Unidos, que pode resultar em tarifas por suspeitas de falhas no combate ao trabalho forçado. A Repórter Brasil explica que a retirada de empresas da lista, como a JBS, feita pelo ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, e a demissão de um chefe da fiscalização depois da inclusão da BYD no cadastro são apontadas por auditores e pelo Ministério Público do Trabalho como interferências políticas. O episódio com a gigante chinesa dos automóveis elétricos gerou repercussão internacional e, como descreveu o “New York Times”, “colocou o governo de esquerda do presidente Lula, ex-líder sindical, em uma situação delicada”. Para especialistas, ao enfraquecer a confiança na lista, o governo compromete um dos principais argumentos diplomáticos do Brasil no momento em que tenta evitar sanções comerciais.
🔸 Em 2026, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem distribuído bônus a policiais militares. A poucos meses de disputar a reeleição, ele já destinou R$ 440 milhões para a PM do Estado de São Paulo – valor superior ao pago a todos os demais servidores juntos, revela a Ponte. O bônus tem sido pago aos servidores com base em metas que só são definidas depois do prazo no qual deveriam ter sido cumpridas. Especialistas e servidores ouvidos pela reportagem apontam que o bônus tem sido usado de forma política, como favorecimento à Polícia Militar e aceno a eleitores ligados à pauta da segurança, em vez de funcionar como incentivo por mérito.
🔸A violência política digital de gênero se tornou uma barreira para participação de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ nas eleições brasileiras. Nas eleições municipais de 2024, mulheres foram menos da metade das candidaturas, mas concentraram 51,1% dos comentários ofensivos em debates online. A Revista AzMina mostra como organizações da sociedade civil têm assumido papel central no enfrentamento desse cenário. Um exemplo é o Plantão Colmeia, do Instituto E Se Fosse Você?, que oferece apoio psicológico e orientação para denúncias. Lá, quase metade dos atendimentos estão relacionados à violência digital. As candidaturas LGBTQIAPN+ enfrentam níveis ainda mais intensos de violência: embora representem 2,1% das candidaturas, concentram 30% dos casos registrados. Iniciativas como o projeto Sentinela usam inteligência artificial para mapear ataques – já foram identificados mais de 3.500 conteúdos transfóbicos – e produzir dados que ajudem a enfrentar o problema.
📮 Outras histórias
“O maior prazer que tenho de abrir a boca e falar é que não foi o poder público que veio aqui acabar com o lixo.” Maria Edilene, 39 anos, se refere ao trabalho Coletivo das Marias, fundado por ela no Jardim Lapena, na zona leste de São Paulo. A iniciativa converteu um lixão em horta que hoje abastece 72 famílias. Não é um caso isolado. A Agência Mural conta como coletivos nas periferias de São Paulo têm transformado seus territórios com educação ambiental e mobilização comunitária. Na comunidade Santa Inês, em São Miguel Paulista, está o Varre Vila, projeto que mobiliza moradores para organizar o descarte de resíduos. Com caçambas para lixo orgânico e reciclável, a ação retira cerca de 34 toneladas de lixo por mês, com manutenção feita pela própria comunidade. “É quase um clamor: cuide e ajude a cuidar do lugar onde você mora, trabalha e vive. Se a população não estiver junto, não funciona”, diz Ionilton Gomes de Aragão, 56 anos, criador do Varre Vila.
📌 Investigação
Adquirida pela empresa americana USA Rare Earth na “maior fusão e aquisição na história da indústria de terras raras”, a mineradora Serra Verde opera a única extração desses minerais fora da Ásia. A área de 50 quilômetros quadrados que abriga o negócio bilionário está localizada no norte de Goiás, onde há pedaços ainda preservados do Cerrado. No ano passado, a Agência Pública visitou a pequena cidade de Minaçu, com cerca de 27 mil habitantes, e revela como a nova exploração mineral vinha sendo encarada como uma grande oportunidade econômica, mas distante da realidade dos moradores. A experiência extrativista e a dependência da mineração não são novas e podem repetir padrões já conhecidos pela população: décadas de exploração de amianto não reduziu a pobreza na cidade, nem levou a investimentos na diversificação da economia local.
🍂 Meio ambiente
Em 30 anos, foram abertos mais de 24 mil quilômetros de estradas e ramais no Acre, uma média anual de 540 quilômetros – equivalente a cerca de uma BR-364 entre Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO). É o que revela estudo da Universidade Federal do Acre (Ufac), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O Varadouro explica que diferentemente das rodovias oficiais, planejadas e monitoradas por órgãos federais e estaduais, os ramais surgem de forma pulverizada. São abertos por prefeituras, fazendeiros ou até de maneira clandestina, sem qualquer controle ambiental na maioria dos casos. Os ramais facilitam a ocupação e a conversão da floresta em pasto ou lavoura, expandindo o impacto do desmatamento e do fogo para regiões da Amazônia que estavam preservadas.
📙 Cultura
“Entendi que escrever literatura é saber escutar outras vozes, de preferência bem longe e diversas das que nos rodeiam. É preciso absorver outros vocabulários, outras maneiras de viver, se quisermos construir personagens complexos e não estereotipados. Sou muito atenta às pessoas, ao que escuto quando percorro as ruas da cidade”, afirma Myriam Scotti, escritora e crítica literária. Ao Le Monde Diplomatique Brasil ela fala sobre seu livro de contos “Sol Abrasador Prepara Solo Fértil”. A obra expõe como o clima do Amazonas atua como força narrativa que expõe cansaços, tensões, afetos e desigualdades. “O clima que comanda a vida de quem mora na Amazônia. Logo que comecei a escrever os primeiros contos, compreendi a força inescapável do clima equatorial. No entanto, longe de desejar escrever o calor e a umidade como espetáculos, me interessava descrevê-los como experiência e, sobretudo, como força organizadora da rotina das gentes amazônidas.”
🎧 Podcast
Contratada como estagiária de Administração, Naiara (nome fictício) operava bots no WhatsApp sem saber o que eles enviavam. Por meio de um software que parecia ser da própria empresa, os robôs disparavam várias mensagens por segundo. Seu trabalho era apenas monitorar se eles estavam funcionando. Demorou para ela descobrir que, na verdade, tratava-se de um esquema de disparo em massa com mensagens políticas de ataque a candidatos do pleito de 2022. No “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, ela conta como a busca por um estágio a levou sem saber para a empresa de Lindolfo Antonio Alves Neto, investigado pela CPMI das Fake News no Congresso.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Influenciadores que lucram com a venda de dietas travam batalha contra o arroz e o feijão. Sem formação na área da saúde, eles contrariam as evidências científicas sobre os dois grãos e propagam a “dieta da selva”, um regime restritivo baseado em carnes, gorduras, mel e frutas, além de alegar que a popular refeição brasileira é “ração do governo” e pode “afeminar os homens”. A Agência Lupa detalha que o tema virou trend em redes como Instagram e Facebook desde o mês passado. As 50 publicações sobre o assunto com mais engajamento no Facebook e Instagram nesse período somam 51,9 milhões de visualizações. Já as publicações com menções pejorativas ao arroz e feijão têm mais de 28,3 milhões de visualizações.




