O contra-ataque de Moraes no caso Master e o maior parque marinho do país
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🔸Depois do vazamento de mensagens com Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes começou um contra-ataque: divulgou uma nota dizendo que análises técnicas demonstram que as mensagens não foram enviadas a ele, mas não deixou clara a autoria da análise nem como ela foi feita. O magistrado atribuiu o vazamento das mensagens trocadas com o investigado do Banco Master a parlamentares da CPMI do INSS, que tiveram acesso recente ao material. O Jota analisa a situação de Moraes e destaca que o ministro tem um “arsenal” de investigações relevantes – como os inquéritos das fake news, das milícias digitais e apurações envolvendo servidores da Receita Federal e do Coaf – que ampliam seu poder de reação política. Ainda assim, a crise de reputação permanece e pode aumentar tensões com o Congresso.
🔸 “O volume de mensagens é enorme, e o que foi divulgado abrange inclusive assuntos íntimos, que não deveriam ter sido expostos. Além disso, as conversas reveladas são parciais, porque as mensagens foram enviadas no modo de visualização única. Como o aparelho de Vorcaro foi apreendido, a PF conseguiu recuperar o que ele escreveu, mas as respostas de Moraes continuam um mistério”, escreve Rafael Mafei, na revista piauí. Ele detalha o conteúdo das mensagens, inclusive no período em que Vorcaro já era alvo de investigações e prestes a ser preso. Em uma das trocas, enviada horas antes da prisão, o empresário perguntou ao ministro: “Conseguiu bloquear?”. Mafei lembra ainda que o escritório de Viviane Barci de Moraes, companheira do ministro, firmou em 2024 um contrato de R$ 129 milhões com o Master.
🔸 Falando nisso… Viviane Barci também divulgou nota ontem, detalhando os serviços prestados ao Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, período que antecedeu a liquidação da instituição pelo Banco Central. A resposta pública veio três meses depois de o contrato ser revelado. A CartaCapital detalha a nota: o escritório informa que realizou 94 reuniões de trabalho, produziu 36 pareceres jurídicos e mobilizou duas equipes com 15 advogados, além de três escritórios especializados contratados para apoiar a consultoria. A advogada também afirma que “nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do Supremo Tribunal Federal”, buscando afastar suspeitas de atuação junto ao tribunal.
🔸 Perfis nas redes sociais tentam sustentar a narrativa falsa de que mulheres matam mais homens do que o contrário, uma narrativa falsa. A Agência Lupa revela que as publicações viralizadas comparam indevidamente feminicídios com o total de mortes violentas intencionais (MVI), indicador que reúne crimes com contextos distintos, como brigas, disputas entre facções e latrocínios. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, crime cometido em cerca de 80% dos casos por parceiros ou ex-companheiros. “Não é possível comparar dados de homens vítimas de homicídio e mulheres vítimas de feminicídio porque isso apaga as razões que motivam o crime de feminicídio”, afirma a advogada Letícia Ueda Vella, integrante do Coletivo Sexualidade e Saúde.
🔸 A Coalizão Negra por Direitos pede que o Brasil apoie uma resolução apresentada pela República de Gana na Organização das Nações Unidas (ONU) que busca reconhecer o tráfico transatlântico e a escravidão de africanos como o mais grave crime contra a humanidade. A proposta deve ser debatida em 25 de março na Assembleia Geral da ONU. Segundo a Alma Preta, a organização enviou ao governo federal um manifesto no qual argumenta que o posicionamento do Brasil pode influenciar outros países e abrir um novo capítulo no debate internacional sobre memória histórica e reparações. “A posição do Brasil nesse debate não é apenas uma decisão diplomática. É uma escolha histórica”, afirma o documento.
📮 Outras histórias
“Igreja, mastro, praça, carrinho de mão, poço coletivo: esses elementos compõem a cartografia simbólica do Assentamento Califórnia. Trinta anos depois da ocupação, o território já não é improviso. É lugar consolidado, atravessado por memórias e contradições”, escreve o jornalista José Luís da Silva Costa, morador do assentamento em Açailândia, no Maranhão. Em artigo na Amazônia Latitude, ele narra a história da comunidade criada após a ocupação da Fazenda Califórnia por famílias sem terra em março de 1996, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Costa lembra, que poucos dias após a ocupação, as famílias foram despejadas por ordem judicial e passaram cerca de três meses acampadas às margens da BR-010 até reorganizar a retomada da área. Cerca de 850 famílias participaram da reocupação, e 200 delas permaneceram no território que se consolidaria como assentamento.
📌 Investigação
Em meio ao movimento contra data centers por seus impactos socioambientais, as grandes empresas de tecnologia tentam salvar suas reputações. Uma das estratégias é a seguinte: outras empresas, sem experiência no ramo, assumem os projetos, sobretudo na fase inicial. É o que está ocorrendo nas cidades de Caucaia (CE), Limeira (SP), Maringá (PR) e Uberlândia (MG), revela o Intercept Brasil. Essas empresas se responsabilizam pelo processo burocrático ligado à instalação desse tipo de infraestrutura, o que inclui desde pedidos de conexão de energia até o licenciamento ambiental. Quando todo o processo é concluído, alguma big tech se encarrega do projeto, adquirindo ações ou alugando o espaço sob sigilo. Os dados declarados das intermediárias mostram a inconsistência entre seu capital social e o valor dos investimentos nas estruturas.
🍂 Meio ambiente
O maior parque marinho do país, com mais de um milhão de hectares protegidos, acaba de ser criado por meio de um decreto assinado pelo presidente Lula. Trata-se do Parque Nacional do Albardão, no Rio Grande do Sul. O Eco conta que a luta pela formalização de uma área protegida no local se estendeu por 18 anos. Albardão está presente nos mapas de avaliação de áreas prioritárias para a conservação desde que o país formalizou esse mecanismo como política pública, em 2004. “Há mais de duas décadas acompanhamos o avanço da degradação da biodiversidade na região. O Albardão chegou ao seu limite e a criação do parque já não podia mais esperar. Agora começa uma nova etapa, que é garantir a efetiva implementação e proteção dessa área”, afirma Maria Carolina Weigert, bióloga e diretora do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental.
📙 Cultura
Brincadeiras e ritmos nordestinos de origem afro-indígena baseados na oralidade buscam reconhecimento como patrimônio cultural. Para essas expressões existirem, é necessária a figura do mestre, como o Raimundão da Mutamba, do quilombo de mesmo nome. É sua voz que conduz a Lezeira do Piauí, uma das expressões culturais mais antigas do Nordeste, em sua comunidade. O Nonada narra como esses saberes resistem ao tempo por meio de seus guardiões e destaca a importância de políticas públicas para garantir o sustento e reconhecimento dos artistas da cultura popular. Atualmente, o mestre Raimundão da Mutamba tem apoio da política Patrimônio Vivo no Piauí, mecanismo de salvaguarda cultural que reconhece, valoriza e protege mestres. Ele tem acesso a uma bolsa de R$ 1.100 mensais. “A nossa casa é de taipa, de barro. Agora a gente conseguiu colocar cimento no meio da casa pra não ficar na poeira direto”, conta Raimundão.
🎧 Podcast
Essenciais para diversas descobertas ao longo da história, como a estrutura do DNA, mulheres ainda sofrem para desenvolver carreira acadêmica em diferentes áreas do conhecimento. Entre desigualdades de financiamento, jornadas duplas e tentativas de silenciamento, as pesquisadoras ainda precisam lutar pelo reconhecimento do próprio trabalho. O “Pauta Pública”, produção da Agência Pública, conversa com a física Marcia Cristina Barbosa, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde já foi reitora, e integrante da Academia Brasileira de Ciências. A cientista reflete sobre os desafios das mulheres na produção científica, como o assédio e o chamado “efeito tesoura” – quando mulheres, apesar de serem a maioria na graduação, tornam-se minoria nos mestrados e doutorados, com uma queda ainda maior nos cargos de liderança.
✊🏾 Direitos humanos
Sergipe tem apenas uma unidade apta a realizar aborto legal pelo SUS, a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, em Aracaju, segundo levantamento da organização de direitos humanos Artigo 19. A Mangue mostra que a escassez contrasta com os índices de violência sexual no estado: em 2024, foram registrados 860 casos de estupro de vulnerável. No ranking do Nordeste, Sergipe lidera, junto com o Piauí, os casos de estupros contra crianças e adolescentes. Apesar de o aborto ser permitido no Brasil em casos de violência sexual, risco de vida da gestante ou anencefalia fetal, o acesso ao procedimento ainda enfrenta barreiras institucionais, desinformação e resistência moral na rede de saúde. Mesmo sendo referência estadual, a maternidade de Aracaju realiza apenas três a cinco abortos legais por ano, o que indica demanda reprimida.




