A molécula do momento e as ferramentas de IA feministas
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🔸 A polilaminina, molécula promissora na recuperação de lesões da medula espinhal, tornou-se centro de um debate público envolvendo patente, financiamento e divulgação científica. Segundo o Metrópoles, na sexta-feira, sociedades científicas divulgaram editorial conjunto pedindo cautela na divulgação da substância, ainda em fase de testes clínicos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e sem eficácia comprovada. O documento foi assinado pelas presidentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Protagonista no desenvolvimento da substância, a pesquisadora Tatiana Sampaio afirmou que o Brasil teria perdido a patente internacional da polilaminina após cortes de financiamento à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) entre 2015 e 2016. Já a farmacêutica Cristália declarou que solicitou a patente nacional em 2022 e a internacional em 2023, e sustenta que a proteção permanece válida até 2043.
🔸 A propósito: num estudo experimental com oito pacientes sem perspectiva de recuperação motora, seis tiveram melhora parcial e um voltou a andar. A cientista Tatiana Sampaio é a responsável pelo desenvolvimento da molécula sintética ao longo de mais de duas décadas na UFRJ. O Mais Minas explica que o tratamento experimental, desenvolvido em parceria com a Cristália, prevê aplicação da substância até 72 horas após o trauma, período que a pesquisadora define como “janela terapêutica”. O primeiro paciente tratado foi o bancário Bruno Drummond de Freitas, tetraplégico desde 2018 depois de um acidente de carro. Ele conta que a recuperação foi progressiva: “No primeiro mês, consegui mexer o dedão do pé. Depois, a musculatura da perna voltou a funcionar. E, por fim, os braços. Todo o processo durou aproximadamente um ano”.
🔸 O Tribunal de Justiça de Minas Gerais absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável por manter um relacionamento com uma menina de 12 anos, assim como a mãe da adolescente, que também respondia ao processo por supostamente ter permitido a situação. O Paraíba Feminina destaca que o desembargador Magid Nauef Láuar entendeu que houve “vínculo afetivo consensual, com prévia aquiescência dos genitores da vítima e vivenciado aos olhos de todos”, embora o artigo 217-A do Código Penal considere crime qualquer ato sexual com menores de 14 anos, independentemente de consentimento. Única mulher da corte, a desembargadora Kárin Emmerich foi também a única a votar pela manutenção da condenação, afirmando que não é possível flexibilizar a proteção legal de menores de 14 anos.
🔸 “Quando o jogador de futebol Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, afirma que ‘não adianta colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho’ e que ‘do tamanho dela acho que ela não tem capacidade’, não estamos diante de um desabafo isolado”, afirma Raíssa França, em coluna no Eufêmea. Para ela, as afirmações são a expressão de uma prática estrutural de exclusão feminina no futebol, marcado por histórico de proibição às mulheres entre 1941 e 1979 e por discursos que ainda tratam o esporte como território masculino. “Estamos em 2026, ano de Copa do Mundo e ainda assim seguimos ouvindo que uma mulher não pode apitar um jogo desse tamanho”, destaca. “Enquanto o esporte se vende como moderno, diverso e global, parte de seus protagonistas permanece presa a uma lógica ultrapassada, em que autoridade feminina é tratada como exceção ou erro.”
📮 Outras histórias
O rio Beberibe, na região metropolitana de Recife, tornou-se símbolo de abandono urbano e desigualdade socioambiental, com enchentes recorrentes, poluição e obras de revitalização que se arrastam desde os anos 1980. A Marco Zero detalha as obras, políticas públicas e história do Beberibe, que corta bairros periféricos marcados por ocupações irregulares, falta de saneamento e ausência de planejamento metropolitano integrado. O pesquisador Jorge Gondim diz que o rio é um exemplo da negação de direitos e afirma que a descontinuidade das políticas agravou um processo histórico de vulnerabilidade. “E a população é quem sofre diretamente as consequências da ineficácia dessas ações, o que gera por parte dos moradores uma profunda incredulidade. Essa sensação de abandono reflete na necropolítica e na expressão concreta do racismo ambiental”, avalia.
📌 Investigação
Enquanto a titulação das terras segue travada, as comunidades quilombolas de Salvaterra, no Marajó, no Pará, são encurraladas pelo agronegócio e contaminadas pelo uso de agrotóxicos cotidianamente. A Sumaúma revela que o avanço das lavouras sobre os Quilombos da Providência e do Rosário tem o aval do Estado: entre 2020 e 2024, o Banco da Amazônia e o Banco do Brasil liberaram R$ 24 milhões em crédito rural para as fazendas que sitiam os territórios quilombolas. O principal beneficiário desse dinheiro é o agropecuarista Joabe Dauzacker Marques, responsável pela operação das propriedades ao lado do pai, José Marques Sobrinho. A disputa fundiária no cartório se reflete na violência e coerção contra os moradores. Presidente da Associação do Quilombo Providência, Antonio Carlos Lima teve uma arma apontada para a cabeça depois de ter feito denúncias de invasões no território. Ele teria sido abordado por homens que acredita serem policiais e teria sido agredido, ameaçado e até orientado a “retirar o processo”.
🍂 Meio ambiente
“Tecnologias que consideram a perspectiva da própria comunidade tendem a solucionar melhor os problemas locais”, diz a engenheira Camila Santos, uma das idealizadoras do Aqualink, ferramenta que une análise de dados, automação e comunicação instantânea para apoiar pessoas em áreas de risco de enchentes. Segundo a Emerge Mag, os testes mais recentes indicam a viabilidade de prever alagamentos e gerar alertas com até duas horas de antecedência. O próximo passo será implementar um piloto na comunidade Dique da Vila Gilda, em Santos (SP), onde está a maior favela de palafitas da América Latina, para validar a eficiência operacional do sistema. “Hoje, o sistema de comportas utilizado em Santos é manual e acionado somente quando o impacto dos eventos climáticos já começou a ser sentido pela população”, ressalta Camila. Apesar de seu potencial inovador para enfrentar os alagamentos, o Aqualink tem dificuldades para conseguir financiamento.
📙 Cultura
“De maneira poética, sou a pessoa responsável por traduzir o roteiro em imagens. Meu trabalho é pensar como transmitir algo sem que nada precise ser falado”, afirma o diretor de fotografia Adolpho Veloso, indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Fotografia com o longa “Sonhos de Trem”. Desde o lançamento do filme em janeiro de 2025 no festival de Sundance, o trabalho do brasileiro tem chamado a atenção como um dos destaques da obra. A revista piauí narra a trajetória de Veloso, cuja relação com o cinema começou por volta dos 12 anos, quando assistiu “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick. Caso ganhe o Oscar no próximo mês, o cineasta poderá repetir o discurso que fez no Los Angeles Film Critic Awards e ganhou destaque nas redes sociais ao iniciar com “Vai, Corinthians!” como forma de comemoração e reverência ao seu time do coração.
🎧 Podcast
O carteiro Pedro Braga enviava cartas para si mesmo e para estranhos para manter o funcionamento do entreposto dos Correios no povoado de Vau, do distrito de Diamantina (MG), onde há cerca de 400 habitantes. Ele passou para o papel as histórias que recebeu oralmente dos antepassados. Seu esforço solitário se transformou em um legado literário que preservou as memórias de uma comunidade ameaçada pelo esquecimento. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, mergulha na história de Pedro e como suas cartas prolongaram a vida da agência postal no Vau – depois de sua morte em 2000, o posto dos Correios fechou em apenas dez dias – e das próprias tradições orais do povoado, escritas com marcas da oralidade da forma que ele ouviu dos pais e de outras gerações.
👩🏽💻 Tecnologia
Diante da violência de gênero no ambiente digital, organizações feministas e de defesa aos direitos humanos passaram a usar a inteligência artificial para detectar violência política e de gênero, acolher vítimas e produzir evidências sobre padrões de ataques e de desinformação. A Revista AzMina reúne as ferramentas que, além de moderar conteúdos, fortalecem redes de proteção, ampliam o acesso à informação e enfrentam o apagamento histórico de mulheres e pessoas LGBTQIA+ nos espaços digitais e institucionais. Essas tecnologias contrariam o viés dos algoritmos – que, em geral, replicam preconceitos raciais e de gênero – e treinam as máquinas com datasets inclusivos, alinhados à defesa dos direitos humanos e à justiça social.




