As mensagens de Flávio Bolsonaro a Vorcaro e o 'Agrinho' na educação
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🔸“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!” A mensagem foi enviada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro. O Intercept Brasil revela mensagens e documentos que apontam que o senador negociou com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões – cerca de R$ 134 milhões – para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Ao menos US$ 10,6 milhões já haviam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025, por meio de empresas ligadas ao Banco Master e de um fundo sediado no Texas controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro (PL-SP). As conversas mostram cobranças diretas de Flávio pelos repasses e mensagens de proximidade com Vorcaro, acusado de fraudes que geraram um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito. As negociações envolveram também o deputado Mario Frias, o empresário Thiago Miranda, ligado ao Portal Leo Dias, e o pastor Fabiano Zettel, que seria o operador financeiro de Vorcaro.
🔸 Ouça: “Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um momento muito decisivo aqui do filme. E tem muita parcela para trás, e está todo mundo tenso e eu fico preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme, né?” O Metrópoles traz um áudio que seria de 8 de setembro de 2025. Nele, Flávio disse a Vorcaro que havia preocupação com atraso nos pagamentos da produção.
🔸 “É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, escreveu Flávio Bolsonaro. O Congresso em Foco mostra a íntegra da nota do senador. Segundo ele, a conversa com Vorcaro ocorreu antes de surgirem suspeitas públicas sobre o Banco Master e negou qualquer irregularidade: “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”. Na nota, o senador também cobra a instalação de uma CPI para investigar o caso.
🔸 O áudio de Flávio somado à pesquisa Quaest que mostra melhora de Lula (PT) caiu como uma bomba para o bolsonarismo. Em artigo na CartaCapital, o cientista político Josué Medeiros avalia que os dois episódios podem marcar uma virada na disputa presidencial de 2026, fortalecendo Lula e ampliando a fragmentação da direita. No cenário eleitoral, Lula subiu de 37% para 39% nas intenções de voto estimuladas, e Flávio Bolsonaro oscilou de 32% para 33%. A diferença entre desaprovação e aprovação do presidente caiu de nove para três pontos percentuais. Já a percepção de que o país segue “na direção errada” também recuou. Medidas como o Novo Desenrola e o encontro de Lula com o presidente dos EUA, Donald Trump, reforçaram a imagem de um governo capaz de “cuidar das pessoas e do Brasil”.
🔸 Falando em eleições… “A questão a partir de agora será saber se, neste momento, os eleitores que afirmam que irão votar em Flávio como principal opção contra Lula buscarão outras alternativas entre os nomes colocados ou se manterão fiéis a ele, independentemente de sua suposta ligação com Vorcaro”, escrevem Beto Bombig e Daniel Marcelino, em análise no Jota. O impacto do episódio deve aparecer nas próximas pesquisas de intenção de voto, sobretudo entre eleitores mais moderados e segmentos da direita não totalmente alinhados ao bolsonarismo. Se o efeito for desfavorável para Flávio, parte das intenções de voto de Flávio deve ser transferida para Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
📮 Outras histórias
Em Porto Alegre, centenas de professores e estudantes protestaram nesta semana contra o leilão de 98 escolas estaduais do Rio Grande do Sul incluídas na Parceria Público-Privada (PPP) da Educação do governo Eduardo Leite (PSD). A mobilização critica a concessão de serviços escolares à iniciativa privada por contratos de até 25 anos. O Sul21 explica que a PPP prevê que empresas privadas assumam obras de infraestrutura, limpeza, merenda e vigilância das escolas, mantendo sob responsabilidade do Estado apenas a área pedagógica. Para professores, a medida abre caminho para a privatização da educação pública. “Esta é uma primeira amostra que o governo Leite está fazendo de entrega das escolas públicas do Rio Grande do Sul para a iniciativa privada. São parceiros num primeiro momento, e depois eles vão abocanhando, porque é muito dinheiro que está em jogo, além da questão do lucro”, diz a professora Rosane Zan, presidente do CPERS, sindicato dos profissionais de educação do estado.
📌 Investigação
As comunidades quilombolas do interior do Nordeste são o novo alvo da batalha revisionista de bolsonaristas. Em parceria com a produtora Brasil Paralelo, a ONG Novas Histórias tem se embrenhado em escolas do sertão e de comunidades quilombolas para combater a “doutrinação da esquerda”. Segundo a Agência Pública, a entidade pertence ao empresário curitibano e bolsonarista convicto Markenson Marques e atende a cerca de 500 jovens em Cipó (BA), muitos deles quilombolas das comunidades Rua do Jorro, Caboja e Várzea Grande. Entre as salas de aula, auditório e campos de futebol, há uma piscina chamada de “batistério”, local onde são batizados os alunos, boa parte quilombolas, que se convertem ao protestantismo. Durante um evento em São José dos Pinhais, no Paraná, em junho de 2025, o empresário endossou declarações racistas e preconceituosas de uma participante que afirmou que o instituto havia afastado “forças espirituais malignas” da cultura quilombola de Cipó.
🍂 Meio ambiente
“Eu perdi minha casa, meus vizinhos e a vida que eu tinha. Disseram que a gente teria um recomeço, que as famílias iam receber uma casa e apoio para seguir em frente. Mas 16 anos se passaram, muita promessa foi feita, e até hoje ainda tem gente esperando aquilo que prometeram”, afirma a dona de casa Dileusa Gomes, ao relembrar do desastre ocorrido no Morro do Bumba, em Niterói, em abril de 2010. As condições inadequadas de moradia e o acúmulo de lixo e entulho no solo da região deixaram o terreno instável, causando o desmoronamento. Ao menos 48 pessoas morreram e centenas ficaram desabrigadas e desaparecidas. Sobreviventes do desastre ouvidas por O Eco relembram as perdas e expõem o descaso e abandono enfrentados pelos moradores mais de uma década depois.
📙 Cultura
O setor cultural da Cidade Alta, conjunto de comunidades da zona norte do Rio de Janeiro, foi desmobilizado devido ao controle religioso, baseado no neopentecostalismo, da facção que dominou o território a partir de 2016. “Quando tem essa quebra brusca, assim, de repente, da segurança, ‘da paz’, isso faz com que as pessoas, realmente, se questionem. É como se fosse uma cultura nova. Todo mundo fica um pouco: ‘O que será que pode fazer? O que será que não pode fazer? Até onde eu posso me expressar? Até onde eu posso chamar a atenção?”, afirma a rapper Juju Rude. O Nonada conta que agora, mestres e artistas, como Juju, buscam criar novos espaços e eventos de cultura e arte na Cidade Alta, com valorização dos talentos locais.
🎧 Podcast
Enquanto escolas rurais são fechadas e comunidades são expulsas de seus territórios por causa da pulverização aérea de agrotóxicos, o agronegócio elaborou uma nova estratégia: influenciar a educação básica no país. Por meio de materiais didáticos e personagens infantis, como o “Agrinho”, o setor busca disputar o imaginário e a percepção da juventude sobre o tema. O “Prato Cheio”, produção d’O Joio e O Trigo, revela como o agronegócio travou uma batalha não só pelos territórios, mas pelo imaginário da população do campo, cooptando políticas públicas de ensino. As estratégias vão desde a formação de professores até a distribuição de prêmios, com concursos de redação, desenho e robótica que oferecem premiação de alto valor, como notebooks, tablets e smartwatches.
👩🏽💻 Tecnologia
Principal conferência da sociedade civil global sobre direitos digitais, a RightsCon deste ano foi cancelada. Previsto para acontecer na semana passada na Zâmbia, o evento teve o cancelamento informado pelo governo do país africano cerca de uma semana antes de ocorrer. Segundo a Access Now, que organiza a conferência desde sua primeira edição em 2011, houve pressão da China para que o encontro não ocorresse. O Núcleo ouviu organizações brasileiras que participam da RightsCon há anos para avaliar o que representa o cancelamento. “Isso ter acontecido e não despertar um debate no Brasil talvez signifique que estamos desconectados do debate público. Acho que é um sinal de que a gente talvez não esteja como sociedade olhando para onde os ventos estão soprando nesse campo digital”, afirma Fernanda Campagnucci, diretora executiva do InternetLab, entidade que participaria de painéis do evento.




