O maior encontro indígena do país e a ofensiva do petróleo na Amazônia
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🔸Maior assembleia dos povos originários brasileiros, o Acampamento Terra Livre (ATL) começou ontem, em Brasília, com a expectativa de reunir mais de 6 mil indígenas na capital federal até sábado. Mais em clima de cobrança do que de celebração, o ATL tem dois grandes temas: o avanço da mineração sobre Terras Indígenas e a estratégia de ampliar a presença política no Congresso. A Sumaúma detalha as pautas e explica que, no campo das políticas públicas, as lideranças expressam frustração com o governo Lula. A promessa de demarcar todas as terras até 2026 não avançou – apenas 20 homologações foram assinadas. A reportagem mostra ainda que cresce em Brasília “um cerco” que reúne Legislativo, Judiciário e Executivo para autorizar a exploração de jazidas minerais no subsolo de territórios tradicionais. Como reação, o ATL também aposta na estratégia eleitoral: ampliar a Bancada do Cocar no Congresso. As deputadas Célia Xakriabá, Juliana Cardoso e Sonia Guajajara já anunciaram que vão tentar a reeleição.
🔸 O tema da violência contra os povos também deve atravessar o encontro. Em Santarém, no Pará, um indígena de 27 anos foi atacado com golpes de facão dentro do território Planalto Munduruku/Apiaká, na madrugada do último sábado. O Notícia Preta informa que o suspeito, de 18 anos, teria cometido a agressão nas proximidades da casa dos pais da vítima e já havia feito ameaças a moradores e assediado mulheres da comunidade. Segundo as lideranças, o fato de ele ser filho do presidente de uma comunidade não indígena teria dificultado denúncias anteriores.
🔸 A Agência Nacional do Petróleo autorizou uma ampla ofensiva na Margem Equatorial, com destaque para a Bacia da Foz do Amazonas. O órgão liberou os planos de trabalho de gigantes como Chevron Brasil, ExxonMobil Brasil e Petrobras, em áreas consideradas de alta sensibilidade ambiental. O Vocativo destaca que a decisão – sob forte contestação ambiental e jurídica – marca a aceleração das atividades previstas para 2026 em uma região considerada ambientalmente sensível. E o avanço não se limita ao mar: há também expansão em terra no Amazonas, com autorizações para a empresa Atem atuar em três blocos dentro da floresta. Estudos apontam risco elevado de dispersão de poluentes, e o Ministério Público Federal questiona falhas no licenciamento e pede mais dados sobre impactos à biodiversidade.
🔸 Falando em combustível… o governo anunciou um pacote para conter a alta dos preços em meio à guerra no Oriente Médio. A medida combina subsídios, desonerações e crédito. O Metrópoles explica que o foco principal está no diesel: haverá subvenção de R$ 1,20 por litro para o combustível importado (dividida entre União e estados) e mais R$ 0,80 por litro para o diesel nacional, que se soma a um incentivo anterior de R$ 0,32. O governo também zerou impostos sobre o querosene de aviação, criou linhas de crédito para o setor aéreo e anunciou subvenção de R$ 850 por tonelada de GLP importado.
🔸Embora o pacote inclua a isenção de tributos sobre o biodiesel, com impacto estimado de R$ 0,02 por litro, o foco das medidas está no diesel fóssil, que concentra os subsídios diretos. A Agência Eixos mostra que o pacote gerou incômodo entre representantes do biodiesel. Eles avaliam que a decisão contraria o incentivo aos biocombustíveis e mantém sem resposta a principal demanda do agro: o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, hoje em 15%, como estratégia para mitigar a dependência de diesel importado e, em tese, reduzir o preço do combustível mais consumido no país.
📮 Outras histórias
O acúmulo de lixo é um problema crônico na Rocinha. A comunidade, na zona sul do Rio de Janeiro, produz mais de 230 toneladas de resíduos por dia. Para garantir a coleta, é preciso que caminhões subam na favela mais de uma vez ao dia. O Fala Roça conta que, neste ano, a prefeitura instalou ecopontos nas localidades de Vila Verde, Valão e Pastor Almir e Rua 1. As estruturas funcionam como caixas compactadoras para lixo domiciliar e pontos de descarte de itens como móveis e colchões, com operadores responsáveis por organizar e separar materiais recicláveis. “Os moradores descem e dizem que é uma boa solução. Imagine uma área de turismo e o lixo espalhado pela pista? Não é legal. Então, melhorou não só pra gente [trabalhador], mas para toda a comunidade”, diz Robson César, que é morador de Campo Grande e trabalha há 35 anos na limpeza urbana da Rocinha. Ainda assim, ainda há limitações na estrutura, como o escoamento inadequado de chorume, e a dependência da presença constante de funcionários.
📌 Investigação
Comunidades tradicionais e formação rochosa rara do Cerrado foram excluídas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córregos dos Vales do Norte de Minas. A unidade de conservação proposta inicialmente com o nome RDS Córregos Tamanduá-Poções-Peixe Bravo cobriria aproximadamente 70 mil hectares do norte de Minas Gerais, mas foi reduzida a 40,8 mil hectares – uma diminuição de 41,6%. A exclusão foi resultado direto da pressão de mineradoras, como a gigante Vale, prefeitos, parlamentares e o Ministério de Minas e Energia. Em parceria com a Repórter Brasil, O Eco revela como a mineração e o setor da silvicultura, que explora eucalipto na região, atuaram em Brasília para impedir que o Vale do Rio Peixe Bravo se tornasse uma área protegida. Lá, estão uma comunidade quilombola, comunidades geraizeiras e as cangas ferruginosas – crostas rochosas compostas por óxidos e hidróxidos de ferro e de alumínio.
🍂 Meio ambiente
Depois de quase cinco décadas da instalação do polo industrial de Barcarena (PA), a Justiça do Pará determinou que o governo do estado e a Companhia de Desenvolvimento Econômico do Pará façam diagnósticos de danos socioambientais do empreendimento. A decisão atende a um pedido do Ministério Público estadual e aponta uma “inércia estatal prolongada”. A Carta Amazônia identificou oito episódios de desastres ambientais de repercussão nacional nos últimos 15 anos, como chuva de fuligem, contaminação por metais pesados, explosão de depósito químico e naufrágios que geraram grave contaminação hídrica e crise sanitária na região. “Pelo histórico de ocorrências no polo industrial, é possível afirmar que os mecanismos de prevenção e controle dos órgãos ambientais não são eficientes”, afirma o promotor Márcio Faria, responsável pela ação.
📙 Cultura
“Fotografar no Sertão me acostumou a observar momentos normais do cotidiano, que numa foto acabam transmitindo sentimento, mesmo sem perceber como aquilo é especial, por mais que seja rotineiro”, afirma a fotógrafa e estudante de Jornalismo Léh Nasctos. Há uma década, ela desenvolve projetos voltados à valorização da identidade e à preservação da memória no Sertão alagoano, como as séries “Alaranjar” (2015) e “Sertanejos” (2022) e o Sertão Cult, uma plataforma digital voltada à divulgação de artistas e manifestações culturais do interior do estado. Em entrevista à Revista Alagoana, Nasctos revisita sua trajetória na fotografia. “Sempre quis mostrar meu sertão através de minhas fotos, mostrar nossa cultura, a vida que há onde muitos pensam ser apenas uma terra seca.”
🎧 Podcast
“Direito de continuar desmatando.” Assim a professora e pesquisadora Fabrina Furtado, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e do Coletivo Desigualdade Ambiental, Economia e Política, define o mercado de créditos de carbono ou REDD. No “Guilhotina”, produção do Le Monde Diplomatique Brasil, ela detalha as origens do mercado de carbono, com fundos do Banco Mundial, e os impactos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais, como assédio a lideranças e conflitos com os modos de vida dessas populações. A pesquisadora destaca a necessidade de politizar o debate sobre as mudanças climáticas e questionar o modelo de desenvolvimento que causa o aquecimento do planeta.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Promotora de justiça, Eliana Vendramini cruzou boletins de ocorrência de violência doméstica com registros de desaparecimento e descobriu que desaparecer pode ser um ato de resistência de muitas mulheres, mas também o último capítulo de um feminicídio que ainda não tem nome nem responsabilização. Fundadora do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos do Ministério Público de São Paulo, Eliana passou anos construindo, na prática e nos dados, estratégias e respostas para a relação entre desaparecimento e violência doméstica, conta a Gênero e Número. “Existe o desaparecimento forçado em que a mulher é vítima de feminicídio, mas não há corpo”, afirma. “Mas há também o desaparecimento de mulheres que fogem da violência. É uma forma típica de desaparecer que deveria ser reconhecida pelo Estado: não é involuntário, mas forçado por coação, violência, grave ameaça, fraude.”




