A lei contra cotas raciais em SC e o tráfico de pessoas na Ponte da Amizade
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🔸 O escritório de advocacia da família de Ricardo Lewandowski manteve contrato com o Banco Master por quase dois anos depois de o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública. A informação foi revelada pelo Metrópoles. Firmado em agosto de 2023 com valor mensal de R$ 250 mil, o contrato seguiu ativo até setembro de 2025 e rendeu cerca de R$ 6,5 milhões ao escritório – dos quais R$ 5,25 milhões foram pagos após a ida de Lewandowski para o ministério, em janeiro de 2024. A contratação do escritório do ex-ministro atendeu a um pedido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). O caso ocorre em meio às críticas públicas de Lula ao Banco Master. Em evento recente, o presidente afirmou que “falta vergonha na cara” para quem defende o banqueiro Daniel Vorcaro e acusou o banco de ter dado “um golpe de mais de R$ 40 bilhões”.
🔸 Lula conversou com Donald Trump ontem pela manhã, durante 50 minutos. Na conversa, o presidente do Brasil defendeu que o novo “Conselho de Paz” proposto pelos Estados Unidos tenha atuação restrita à Faixa de Gaza e inclua representantes palestinos. A CartaCapital detalha o diálogo e conta que a limitação proposta por Lula é uma forma de evitar o enfraquecimento do papel central da ONU em temas de paz e segurança internacional e de impedir a criação de um fórum paralelo que desvie o foco de reformas no Conselho de Segurança. Apesar do convite formal de Trump para que o Brasil integre o conselho, o país ainda não deu resposta oficial e trata o tema com cautela. O Correio Sabiá traz a íntegra da nota do governo brasileiro sobre a conversa entre os mandatários.
🔸 O raio que atingiu apoiadores de Nikolas Ferreira (PL-MG) foi interpretado como “milagre” nos grupos de mensagens criados em torno da caminhada do deputado até Brasília. Mas não só. A Agência Lupa mostra que, anunciado como um “ato simbólico” contra prisões do 8 de Janeiro, a prisão de Jair Bolsonaro (PL) e decisões do governo e do STF, o percurso todo ganhou contornos messiânicos nas redes, com imagens que exploram sacrifício físico, fé e oposição moral às instituições. Vídeos e mensagens difundidos em grupos de WhatsApp e Telegram passaram a retratar o parlamentar como um “homem de Deus” ou “escolhido”. Segundo monitoramento da Palver, conteúdos desse tipo alcançaram milhões de perfis e impulsionaram fortemente o engajamento do deputado, que ultrapassou 21 milhões de seguidores no Instagram após o ato.
🔸 Depois que Santa Catarina proibiu por lei as cotas raciais e ações afirmativas em universidades públicas ou financiadas com recursos públicos, três Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) chegaram ao STF. Sancionada pelo governador Jorginho Mello (PL), a norma veda tanto políticas de ingresso de estudantes quanto critérios afirmativos para contratação de professores e servidores. O Jota destrincha os argumentos das ações, apresentadas pelo PSOL, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com o apoio de entidades como a União Nacional dos Estudantes e a Educafro. A OAB, aliás, sustenta que a legislação viola princípios constitucionais e contraria tratados internacionais contra o racismo. Na petição, a entidade afirma ainda que Santa Catarina criou um “estatuto estadual antiafirmativo” incompatível com a política educacional brasileira e com decisões recentes do STF.
🔸 Ao menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025, segundo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O número representa uma queda de 34,4% em relação a 2024, quando foram registrados 122 casos. O Notícia Preta destaca que a redução não indica melhora efetiva no cenário de violência: o Brasil segue como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo há quase duas décadas. Segundo a Antra, o perfil das vítimas é majoritariamente de jovens trans negras, empobrecidas e assassinadas em espaços públicos, muitas vezes com requintes de crueldade. A vítima mais nova tinha 13 anos. Ceará e Minas Gerais lideram o número de registros, com oito mortes cada.
📮 Outras histórias
No domingo, dia em que o desastre da Vale em Brumadinho (MG) fez sete anos, dois vazamentos de água com sedimentos da mineradora atingiram cursos d’água em Congonhas (MG). A prefeitura da cidade anunciou que multará a empresa e suspenderá seu alvará de funcionamento até que todas as medidas sejam tomadas e exige “maior celeridade e transparência no repasse das informações”. O BHAZ informa que, em menos de 24 horas, houve um rompimento de reservatório na divisa com Ouro Preto e um novo extravasamento na Mina Viga, ambos pertencentes à mineradora. A prefeitura critica a demora da Vale em comunicar os incidentes. “Mesmo após sete anos do rompimento da barragem em Brumadinho, a empresa Vale [continua] omitindo informações muito importantes para nós agirmos de forma rápida. E isso não aconteceu duas vezes no mesmo dia”, diz o secretário de Meio Ambiente de Congonhas, João Luís Lobo.
📌 Investigação
Na fronteira mais movimentada do Brasil, o tráfico de pessoas via Ponte da Amizade, que liga Ciudad del Este (Paraguai) a Foz do Iguaçu, no Paraná, acontece de modo quase imperceptível. As vítimas costumam ser ludibriadas com promessas de emprego em outras cidades ou países e só percebem que estão sendo exploradas quando chegam ao destino e ficam sem o celular e com restrição de contato com conhecidos e familiares. Uma vez que caíram na rede do tráfico, é comum a exploração sexual ou o trabalho análogo à escravidão – com a contração de dívidas impossíveis de serem pagas. A maioria dos paraguaios nessa condição são pessoas de baixa renda, com pouca instrução, que só falam guarani e vivem em áreas rurais. O H2Foz mergulha no esquema de aliciamento e tráfico de pessoas na região e mostra as dificuldades de fiscalização e notificação dos casos.
🍂 Meio ambiente
O Brasil sediará pela primeira vez a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS). O evento, que ocorre em Campo Grande (MS), entre os dias 23 e 29 de março, terá como presidente João Capobianco, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Segundo O Eco, a conferência vai reunir governos, cientistas, povos indígenas, comunidades tradicionais e representantes da sociedade civil de todo o mundo para enfrentar os desafios urgentes de conservação que afetam milhares de espécies de animais silvestres que cruzam fronteiras internacionais. O papel de Capobianco é articular as negociações entre os países para impulsionar a conectividade ecológica e a conservação de ecossistemas.
📙 Cultura
Para valorizar as tradições culturais do Nordeste, um curso técnico de acordeon – conhecido também como sanfona ou gaita – será implantado na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte nos próximos meses. A Saiba Mais explica que o acordeon é um instrumento cujo som é produzido pela vibração de palhetas metálicas, acionadas pelo movimento do fole e pelo uso de teclas ou botões. “Há uma necessidade clara de formação em instrumentos que vão além do universo da música de concerto. Por isso a Escola de Música passou a ofertar, ao longo do tempo, canto popular, piano popular, violão brasileiro popular, saxofone popular, trompete, entre outros. O acordeon sempre esteve presente nesse horizonte de expansão”, afirma o professor Tiago de Quadros, supervisor acadêmico da instituição, que destaca o papel do instrumento em diversas manifestações culturais do estado, sobretudo no forró. “É uma resposta concreta às demandas da sociedade e uma ação de salvaguarda que se conecta diretamente ao reconhecimento das matrizes do forró como patrimônio.”
🎧 Podcast
A expansão urbana, o turismo predatório e a especulação imobiliária colocam em risco os sambaquis do litoral do Piauí. De importância histórica e arqueológica, esses são monumentos erguidos por povos originários a partir do amontoamento de conchas e artefatos. As estruturas funcionavam como marcos territoriais e cemitérios, revelando o modo de vida de comunidades milenares que habitaram a região. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, discute como esse elo entre passado e presente está ameaçado pela instalação de grandes empreendimentos privados, como a construção de resorts de luxo.
👩🏽🏫 Educação
“As emendas parlamentares deixaram de atuar como instrumentos complementares para se tornarem pilares informais do financiamento universitário, operando sem planejamento sistêmico, baixa previsibilidade e frágil vinculação a resultados acadêmicos e científicos”, afirma Rubia Cristina Wegner, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. No Le Monde Diplomatique Brasil, ela analisa como as universidades públicas se tornaram reféns do Congresso, com financiamento dependente de emendas parlamentares. “A consequência mais profunda do atual arranjo orçamentário é a corrosão simultânea da qualidade acadêmica e da autonomia universitária. O risco central não se limita à opacidade ou à execução inadequada das emendas parlamentares, mas à normalização de um modelo no qual o planejamento acadêmico de longo prazo é progressivamente substituído por decisões políticas contingentes.”




