🔸 Pela primeira vez em 135 anos, o Supremo Tribunal Federal decidirá se abre uma investigação criminal contra um de seus integrantes. Em sessão extraordinária hoje, a partir das 10h, os ministros vão analisar se deve ser anulado o relatório que relaciona Alexandre de Moraes a Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Após a abertura, o presidente da Corte, Edson Fachin, apresentará seu relatório e delimitará as questões submetidas ao plenário. A Procuradoria-Geral da República se manifestará, seguida de eventuais sustentações orais. Fachin dará o primeiro voto, e os demais ministros votarão na sequência. O Nexo organiza em sete pontos as pressões que cercam o julgamento. A lista inclui a resistência de André Mendonça em retirar o sigilo de todos os documentos do caso Master e compartilhar os dados do celular do banqueiro; as tentativas de adiar a sessão até depois das eleições, analisar em conjunto os processos contra Moraes e Mendonça e realizar um julgamento fechado; e o pedido da Procuradoria-Geral da República pela nulidade do relatório.
🔸 O STF terá um esquema especial de segurança para a sessão de hoje. A Esplanada dos Ministérios ficará fechada na altura das bandeiras, o acesso ao Plenário será restrito e celulares terão de permanecer desligados e lacrados durante toda a sessão. O Congresso em Foco detalha como será a sessão e explica que os participantes passarão por detectores de metais e equipamentos de raio X. Alimentos, bebidas e manifestações também estão proibidos. Os presentes deverão permanecer em silêncio durante o julgamento. A imprensa acompanhará a sessão da marquise do edifício, onde serão instalados telões, mesas e cadeiras.
🔸 A Polícia Federal entregou aos ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes cópias do conteúdo bruto extraído do celular de Daniel Vorcaro, informa o Jota. O material, solicitado no domingo, serviu de base para o relatório que revelou diálogos entre o ex-banqueiro e Moraes. Ao pedir os dados, Zanin argumentou que as provas pertencem ao plenário, que não há hierarquia entre os integrantes da Corte e que a própria PF garantiu ser possível compartilhar cópias sem comprometer a cadeia de custódia. Relator dos inquéritos, André Mendonça alegou que o acesso ao conteúdo poderia tumultuar o julgamento.
🔸 Mendonça, aliás, retirou o sigilo de um processo sobre pagamentos relacionados a Vorcaro. Os documentos, destaca a CartaCapital, registram R$ 28 milhões em transferências consideradas suspeitas para a Igreja Lagoinha do bairro Belvedere, em Belo Horizonte (MG), entre dezembro de 2024 e 2025. Desse total, R$ 19,2 milhões foram enviados por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e então responsável pela igreja. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou incompatibilidade entre a movimentação e o faturamento anual presumido da instituição, de R$ 950 mil. O relatório menciona ao menos 303 pessoas físicas e 520 empresas, mas a lista completa dos destinatários de pagamentos do banqueiro permanece sob sigilo.
🔸 Comandado por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) teve um tesoureiro fantasma por seis anos, revela o Intercept Brasil. O eletricista Jacio de Medeiros Dantas, 64 anos, aparece em documentos como tesoureiro-geral da organização entre 2014 e 2021, mas diz nunca ter exercido a função nem participado de reuniões. Ele afirma que apenas emprestou o nome a pedido da mãe de Karina e não reconheceu duas assinaturas atribuídas a ele em documentos da entidade. “Não, nunca [atuei como tesoureiro do ICB]”, afirma. O período coincide com os anos em que, segundo auditoria da Controladoria-Geral da União, o instituto superfaturou ao menos R$ 2,4 milhões dos R$ 11 milhões recebidos para ações em sete estados e no Distrito Federal. A entidade também é investigada por suspeitas de desvio de emendas parlamentares, incluindo R$ 2 milhões enviados pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP), e por irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo.
📮 Outras histórias
Patrimônio imaterial do Pará, os Pássaros Juninos preservam uma contribuição indígena decisiva para a formação do teatro popular amazônico, defende o pesquisador e roteirista Porakê Munduruku, em ensaio na Amazônia Latitude. Derivados das pastorinhas usadas por jesuítas na catequese, os cordões de bichos teriam sido recriados pelas populações indígenas como celebrações mais livres, ligadas ao início do verão amazônico, à fauna local, aos saberes da floresta e à reverência aos pajés. As apresentações encenam a morte ou o ferimento de um animal, a punição do responsável e a intervenção de um personagem mágico para devolver-lhe a vida. Segundo Porakê, essas manifestações não nasceram nos palcos da elite colonial, mas nas comunidades indígenas, como resistência cultural à catequese. “Nós, indígenas, sempre produzimos e transmitimos cultura e ela nos acompanha onde quer que estejamos e apesar da pretensão de monopólio que reivindica o colonizador”, escreve.
📌 Investigação
Mais de 64% dos conteúdos eleitorais produzidos com inteligência artificial nos primeiros 11 dias de campanha não informavam o uso da tecnologia. É o que revela o primeiro levantamento do VigIA, programa da Agência Lupa que monitora conteúdos sintéticos em circulação no país durante o ciclo eleitoral. Entre 16 e 26 de agosto, o projeto mapeou 314 publicações suspeitas em redes sociais e aplicativos de mensagens e confirmou o uso de IA em 282 delas. Desse total, 64,1% não apresentavam qualquer aviso, incluindo ao menos 37 conteúdos divulgados por contas oficiais de candidatos ou partidos, em desacordo com as regras do Tribunal Superior Eleitoral. A IA foi usada principalmente para promover candidaturas, finalidade de 52% das peças; outras 26% faziam humor ou sátira e 20% buscavam atacar adversários. Lula foi o político mais retratado, com o dobro de ocorrências de Flávio Bolsonaro, o segundo colocado.
🍂 Meio ambiente
O eleitorado da Amazônia Legal passou a concentrar mais votos em partidos contrários à agenda climática entre as eleições presidenciais de 2010 e 2022, segundo levantamento da InfoAmazonia que abre a série “Eleições em Mapas”. A análise revela queda no alinhamento à pauta climática em todos os estados da região: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A pesquisa também encontrou uma associação entre a expansão econômica do agronegócio e o comportamento eleitoral: a cada R$ 1 bilhão acrescentado ao valor da produção agrícola, a nota de alinhamento climático caiu, em média, 0,19 ponto. Ivan Silva, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Amapá e consultor científico do projeto, afirma que o avanço da direita, do agronegócio e de uma cultura associada ao modelo de desenvolvimento ajudam a explicar a mudança: “Para a direita, existe uma incompatibilidade entre desenvolvimento e preservação ambiental. Então, ou você desenvolve ou você preserva o meio ambiente”.
📙 Cultura
Antes de Caruaru se tornar conhecida como a “capital do forró”, seis mulheres ajudaram a criar o modelo de festa que hoje movimenta milhões de reais e recebe cerca de 4 milhões de pessoas. Em 1977, as irmãs Lira organizaram, sem apoio público, o São João da Rua 3 de Maio, com decoração, apresentações gratuitas e artistas locais. A festa durou 21 anos e serviu de embrião para o atual evento, que se estende por 70 dias e movimentou R$ 805 milhões em 2026. Apesar desse protagonismo, todos os polos temáticos da programação homenageiam homens. O Nonada resgata as trajetórias de Joana Angélica, 78 anos, Marlene do Forró, 59, e Vitória do Pife, 26, representantes de diferentes gerações de artistas de Caruaru. Joana lançou o primeiro de seus 16 discos solo em 1978, cantou por três décadas na banda do Mestre Camarão e hoje é reconhecida como Patrimônio Vivo do município, mas ainda reivindica espaço: “Só vou me sentir valorizada no dia que tiver o primeiro polo feminino, que não tem.”
🎧 Podcast
Um grupo radical que corresponde a 1% do agronegócio brasileiro prejudica a imagem do país e contribui para o fechamento de mercados no exterior, afirma a ex-ministra do Meio Ambiente e candidata ao Senado por São Paulo Marina Silva. Em entrevista a Christian Lynch no “Diálogos com a Inteligência”, produção do Canal Meio, ela diz que os outros 99% do setor cumprem a legislação e produzem com tecnologia. Marina também analisa as dificuldades de governabilidade na relação com o Congresso, os efeitos das mudanças climáticas sobre a economia, a transição ecológica de São Paulo, os entraves à segurança pública, o aumento dos feminicídios e o avanço global da extrema direita associado à política de tarifaços.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
O número de mulheres negras com ensino superior completo quase triplicou no Brasil entre 2010 e 2022, mas elas continuam distantes das carreiras de maior prestígio e remuneração. A conclusão é de uma análise das duas edições do Censo da Educação Superior feita no estudo “Da Marcha ao Bem Viver”, realizado pela Gênero e Número, Oxfam Brasil e Observatório da Branquitude em parceria com a Marcha das Mulheres Negras. Os dados mostram que a participação das mulheres negras cresceu de 8% para 15% em Direito, de 7% para 11% em Medicina e de 4% para 9% em Engenharia Civil – conhecidas como “profissões imperiais”, conceito formulado pelo sociólogo Edmundo Campos Coelho aplicado a carreiras que preservam desde o Império elevado prestígio social e poder econômico. Homens brancos ainda representam 33%, 38% e 50% dos estudantes desses cursos, respectivamente. As mulheres negras se concentram em áreas historicamente associadas ao cuidado e à educação: são 42% dos estudantes de Formação de Professores, 40% de Enfermagem e 31% de Letras.



