O impacto da única mina de urânio ativa do país e a 'sociedade tarja preta'
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🔸Dias Toffoli se declarou suspeito para julgar o pedido de instalação da CPI do Banco Master na Câmara dos Deputados. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) foi sorteado relator do caso ontem, mas determinou o envio do processo à presidência da Corte para um novo sorteio e afirmou: “Declaro minha suspeição por motivo de foro íntimo”. O Metrópoles explica que a ação questiona a suposta omissão do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), na instalação da CPI. Toffoli foi relator do caso ligado à Operação Compliance Zero no STF entre novembro e fevereiro, mas deixou a relatoria depois de uma crise interna na Corte. Depois de outro sorteio, a relatoria ficou a cargo do ministro Cristiano Zanin.
🔸 Classificado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como “a maior fraude bancária da história do Brasil”, o caso do Banco Master levou o Banco Central a liquidar instituições ligadas ao grupo e pode gerar prejuízo de até R$ 52 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A Agência Pública reconstrói o escândalo que envolve o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, apontado pela Polícia Federal como responsável por um esquema que envolveu autoridades do Executivo, do Congresso e do Judiciário. A investigação ganhou força após a prisão do banqueiro, em novembro de 2025, quando mensagens encontradas em seu celular revelaram contatos com políticos, ministros e empresários.
🔸 O Master, aliás, foi multado três vezes em 2020 pelo Banco Central (BC) por infrações ligadas a “controles internos deficientes”, “infração a normativo cambial” e “lavagem de dinheiro” em um total de R$ 1,02 milhão. A “Don’t LAI To Me”, newsletter da Fiquem Sabendo, revela, com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, quais bancos, corretoras, multinacionais e investidores individuais já foram punidos pelo BC. Ao todo, a instituição aplicou mais de 5 mil sanções entre 2020 e 2025, somando pelo menos R$ 121,5 milhões em multas confirmadas. A instituição mais multada no período foi a Caixa Econômica Federal, punida 13 vezes por cobrança indevida de tarifas, com multas que totalizam R$ 29,3 milhões.
🔸 Nikolas Ferreira (PL-MG) viajou num jatinho de Daniel Vorcaro em 2022, para se encontrar com o então presidente Jair Bolsonaro (PL). Mas este não foi o único voo que fez em jato participar de um empresário investigado. O Intercept Brasil apurou que, durante a campanha municipal de 2024, quando rodou o Brasil para promover candidatos do Partido Liberal (PL), Nikolas utilizou uma aeronave ligada ao empresário Nelson Ramon Aguilera Júnior – denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por suposta participação em esquema de lavagem de dinheiro associado à exploração ilegal de jogos de azar. Os voos foram contratados pelo PL por meio da empresa de táxi aéreo AllJet Táxi Aéreo e pagos com recursos do fundo partidário.
🔸 Falando em jatinhos e empresários investigados… o senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez uma viagem de luxo ao redor do mundo ao lado de Fernando Oliveira Lima, dono de cassinos online que foi alvo da CPI das Bets no Congresso. O empresário piauiense é conhecido como Fernandin OIG – ou ainda “Tigrinho”, por ter trazido o jogo Fortune Tiger para operar no país quando as bets ainda não eram regulamentadas. Na revista piauí, João Batista Jr. mostra como foi a viagem do político com o dono da empresa que ele próprio defendeu na CPI. Embora Ciro não tenha publicado imagens do passeio, registros de voo, postagens em redes sociais e fotos compartilhadas por participantes indicam que ele estava presente na viagem em fevereiro, em jato e helicópteros pertencentes ao empresário, com paradas em destinos como Dubai, Indonésia e Polinésia Francesa. Em tempo: um relatório do Coaf apontou transferências de R$ 625 mil do empresário para um ex-assessor de Nogueira entre 2023 e 2024, além de repasses posteriores desse assessor ao senador.
📮 Outras histórias
No Acre, moradores da floresta combinam novenas e promessas com crenças em seres encantados da Amazônia, formando uma religiosidade própria das populações tradicionais da região. Em artigo n’O Varadouro, a antropóloga Tatiane Silva Sousa apresenta práticas de fé e espiritualidade entre comunidades seringueiras da Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, no Vale do Juruá (AC). Ela descreve rituais antigos, como o “passar fogo”, ligado à criação de laços simbólicos de compadrio, ou ainda o “trabalho com caboclo”, prática espiritual em que curadores incorporam entidades para realizar curas ou aconselhamentos.
📌 Investigação
Magistrados do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) receberam R$ 732 milhões em pagamentos relacionados a benefícios mensais, verbas indenizatórias e gratificações para além do salário-base – os chamados “penduricalhos” – no ano passado. O valor representa um crescimento de R$ 596 milhões de 2018 para 2025, revela a Matinal. A reportagem analisou mais de mil contracheques de magistrados ativos e inativos e mostra que as maiores cifras em 2025 são de pagamentos retroativos (R$ 387,6 milhões), referentes a exercícios anteriores, e aumentaram R$ 181,5 milhões em comparação com 2024. Além dos penduricalhos, em média, os magistrados vinculados ao tribunal estadual recebem R$ 70,9 mil por mês – ao considerar subsídio-base, direitos trabalhistas, benefícios e descontos – 53% acima do teto constitucional, atualmente fixado em R$ 46,3 mil.
🍂 Meio ambiente
“Hoje, o câncer virou uma coisa normal por aqui. É um morador indo fazer cirurgia e outro chegando. Infelizmente, virou rotina: todo mês a gente enterra um”, afirma o agricultor quilombola José Carlos Ribeiro dos Santos. Ele mora na comunidade quilombola de Malhada, em Caetité (BA), a 9,6 quilômetros da Mina do Engenho – única mina de urânio em operação no Brasil, explorada pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil. Segundo a Repórter Brasil, um relatório do Conselho Nacional de Direitos Humanos divulgado neste mês mostrou como a exploração do metal transformou a região em um quadro crônico de “racismo ambiental”, marcado por insegurança hídrica e suspeitas de aumento de doenças graves como câncer. Ao menos 14 comunidades quilombolas são impactadas direta ou indiretamente pela extração. Os moradores relatam que os problemas de abastecimento de água se agravaram desde o início da exploração do urânio, cuja extração necessita de grande volume de água.
📙 Cultura
Entre 2021 e 2024, 77,4% dos valores destinados a projetos culturais captados via Lei Rouanet foram para o Sudeste, enquanto iniciativas do Nordeste ficaram com apenas 6,2% dos investimentos. A Agência Tatu analisou os dados da plataforma Prosas, que busca dar transparência ao uso de recursos da legislação, e revela que ainda há grande disparidade regional na destinação de verbas, com concentração no eixo Rio-São Paulo. A desigualdade não está apenas em quem recebe, mas também em quem investe. São Paulo lidera a lista de empresas que utilizam a renúncia fiscal para patrocinar a cultura, com 40,20% de CNPJs investidores, seguido de Rio de Janeiro (27,50%) e Minas Gerais (9,40%). “Eu percebo que em Maceió, por exemplo, muitas empresas desconhecem as regras da Rouanet, e como poderiam se beneficiar com o desconto do imposto de renda, patrocinando projetos culturais”, afirma a atriz, cantora e produtora cultural Laís Lira.
🎧 Podcast
Em uma década, a prescrição de medicamentos para tratar a saúde mental aumentou 50%, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde a partir de dados do Sistema Único de Saúde (SUS). A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, mergulha na história dos psicofármacos, vendidos no século passado como pílulas que contêm “soluções mágicas” para o sofrimento humano, e o crescimento de seu uso na sociedade contemporânea, além da subjetividade dos diagnósticos psiquiátricos. O episódio aborda ainda que o alto índice de resposta a placebos podem refletir as limitações dos ensaios clínicos e como a medicalização excessiva pode estar ocultando causas socioeconômicas e emocionais mais profundas.
👩🏽💻 Tecnologia
“Deep techs são empreendimentos fundamentados em descobertas científicas e tecnológicas aplicadas. Não basta ter o conhecimento científico; ele precisa gerar produtos ou serviços que melhorem a vida das pessoas ou das empresas”, afirma Silvia de Tommaso, pesquisadora do Cepid Bridge, centro de pesquisa em gestão dedicado a compreender e ampliar o impacto dos ecossistemas na solução de grandes desafios. Em entrevista à Emerge Mag, a cientista analisa o cenário das deep techs no Brasil, que precisa aliar a ciência e os setores produtivos: “O empreendedor deep tech é aquele que utiliza a ciência e a tecnologia aplicada como recurso principal, aprendendo a transitar entre diferentes ecossistemas: o do conhecimento (universidades/laboratórios), o empreendedor (startups) e o de inovação (indústria)”. As agências governamentais de fomento hoje são as principais financiadoras de deep techs em fase inicial.




