O green card de Eduardo Bolsonaro e a primeira TV quilombola do Brasil
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🔸 O governo de Donald Trump concedeu o green card ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), à companheira e aos filhos dele. O documento garante residência permanente nos Estados Unidos e autoriza o titular a morar, trabalhar e estudar no país por tempo indeterminado. O Metrópoles destaca que a decisão ocorre em meio ao agravamento da crise diplomática entre Brasil e EUA, com um novo tarifaço imposto por Trump aos produtos brasileiros, e um mês após o Supremo Tribunal Federal (STF) condenar Eduardo a quatro anos e dois meses de prisão por atuar junto ao governo dos EUA para tentar interferir na ação penal contra Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe de Estado. O ex-deputado se mudou para os EUA no final de fevereiro de 2025. O green card não impede uma eventual extradição, mas pode tornar esse processo mais complexo.
🔸 Enquanto isso, a defesa de Jair Bolsonaro pediu ontem ao ministro Alexandre de Moraes que revogue a proibição de visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao pai ou, alternativamente, autorize encontros entre os dois na condição de advogado e cliente. O Antagonista detalha o pedido, no qual os advogados do ex-presidente classificam como “desproporcional” a suspensão total do contato. A proibição foi determinada por Moraes no último dia 13, depois que Flávio leu publicamente, durante uma transmissão nas redes sociais, um texto em que Bolsonaro pedia a união dos apoiadores em torno de sua pré-candidatura à Presidência e o descrevia como seu “porta-voz”. Segundo os advogados, o ex-presidente desconhecia que a mensagem entregue ao filho seria divulgada.
🔸 Flávio Bolsonaro, aliás, busca um vice às pressas. Faltam poucos dias para a convenção nacional do PL, marcada para este sábado. Segundo o Canal MyNews, nos bastidores, a indefinição é vista como um problema estratégico. A preferência da campanha do presidenciável é por uma mulher, na tentativa de reduzir a rejeição do bolsonarismo entre o eleitorado feminino, mas as negociações avançam lentamente. O vídeo recente da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro teria dificultado as conversas com possíveis aliadas. A demora também abre espaço para adversários disputarem eleitores da direita: a equipe de Ronaldo Caiado aposta em atrair parte do eleitorado antipetista caso sua candidatura ganhe força nas pesquisas, e setores do campo conservador passaram a acompanhar com mais atenção a candidatura de Renan Santos. As convenções partidárias desta semana definirão não apenas os candidatos, mas também o desenho das alianças para 2026.
🔸 Caso Flávio Bolsonaro vença as eleições de outubro, quase toda a Amazônia ficará sob governos alinhados à extrema direita e favoráveis à exploração econômica da floresta. A Sumaúma analisa como as vitórias de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, somadas ao estado de exceção na Bolívia e ao fato de a Venezuela estar sob tutela dos Estados Unidos, podem comprometer a proteção do bioma. Especialistas relacionam o avanço dessas forças políticas ao aumento da mineração, da exploração de combustíveis fósseis e da fronteira agropecuária. Para Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Unifesp, a radicalização das direitas latino-americanas ocorre em sintonia com a ofensiva internacional de Trump. “Elas são chanceladas pelo radicalismo de Trump e se aproveitam disso para radicalizar ainda mais seus discursos”, afirma.
🔸 Sobre o tarifaço: as novas taxas impostas pelos EUA ao Brasil refletem a tentativa de Trump de reafirmar sua influência na América Latina diante do avanço da China na região. Em artigo no The Conversation Brasil, Fernanda Brandão, doutora em Relações Internacionais, explica que parte dos argumentos da equipe de Trump, como as críticas ao Pix e a alegação de que o Brasil mantém superávit comercial com os EUA, contradiz informações oficiais – o país registra déficit nessa balança desde 2009. Para a autora, as tarifas funcionam como um instrumento de pressão política para aproximar o Brasil dos interesses estadunidenses. “Hoje, a China é a principal parceira comercial de diversos países da América Latina, incluindo o Brasil, além de uma importante fonte de investimentos. Ao mesmo tempo, a Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos trata a região como estratégica para a sua segurança nacional. Portanto, o governo Trump tende a buscar formas de fortalecer sua influência sobre a América Latina.”
📮 Outras histórias
Incomodado com a imagem da rua do Campo, no município de Trizidela do Vale (MA), sempre associada à violência e ao abandono, Matheus Ferreira, 26 anos, desenvolveu um projeto para valorizar a comunidade onde nasceu. O Pedreirense conta que ele criou o perfil Baú da Rua do Campo, no Instagram, que reúne fotos antigas, campeonatos de futebol, brincadeiras de crianças e o cotidiano dos moradores para preservar a memória do lugar e combater estigmas. O comunicador popular transformou o perfil em um acervo digital que conecta o presente e o passado: além de cobrir os eventos atuais, publica fotos e vídeos antigos da rua, enviados por moradores. “Eu vejo as crianças brincando hoje e digo: ‘Ali tem algo importante’. E eu já passei por aquilo ali. Tenho que registrar. Isso aí transmite também a minha infância e a infância de muitos que já moraram aqui e foram embora”, diz Matheus.
📌 Investigação
Quase metade dos contracheques dos procuradores do Rio Grande do Sul ultrapassou o teto constitucional entre março e junho deste ano graças ao pagamento retroativo de uma gratificação por “produtividade em férias”, segundo o Portal da Transparência estadual. Levantamento da Matinal mostra que 43% dos vencimentos superaram o limite de R$ 46,3 mil e que o maior pagamento chegou a R$ 100,3 mil, dos quais R$ 52,9 mil vieram dessa rubrica. Cristiano Pavini, diretor de projetos da Transparência Brasil, explica que há uma estratégia em usar as férias para driblar o teto constitucional. “É um mecanismo para se cumprir o teto na forma, mas, na prática, o extrapolam”, afirma. No final de junho, o STF voltou a autorizar o pagamento de verbas retroativas a membros do Judiciário e do Ministério Público, desde que limitadas a 35% do teto constitucional (R$ 16,2 mil). A reportagem ressalta, porém, que os pagamentos da PGE-RS começaram quando esse tipo de repasse ainda estava vetado.
🍂 Meio ambiente
Uma decisão judicial pode comprometer uma das últimas áreas de floresta preservada no entorno de Rio Branco (AC), além da sobrevivência de cerca de dez famílias de seringueiros. O Tribunal de Justiça do Acre autorizou a continuidade de um plano de manejo florestal antes da conclusão da perícia que definirá os limites das posses tradicionais no Seringal São Bernardo. O Varadouro detalha os impactos da decisão e conta que a Defensoria Pública recorreu por entender que a exploração madeireira ameaça castanhais e seringais dos quais dependem as famílias. “Pra onde eu vou com a minha família se eles acham que eu não tenho direito? Eu não tenho pra onde ir. Lá é onde eu nasci, e só o que eu sei fazer é brocar mato pra fazer o roçado, plantar legumes pra comer, cortar seringa e quebrar castanha”, diz a seringueira Damiana Conceição Bezerra, 50 anos, uma das mais ameaçadas pela empresa do plano de manejo. A medida também coloca em risco uma área onde nascem afluentes do rio Acre, fundamentais para o abastecimento de água de mais de 400 mil moradores da região.
📙 Cultura
Uma tradição criada para marcar a propriedade de livros encontrou novo fôlego nas redes sociais. A Quatro Cinco Um mostra como os ex-líbris, etiquetas ou gravuras personalizadas coladas nos exemplares, voltaram a despertar interesse de leitores e colecionadores. A bibliotecária aposentada Mary Komatsu, que descobriu essas marcas enquanto trabalhava no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, está por trás do perfil Caçadora de Ex-líbris no Instagram e no Youtube. “Podemos observar que cada símbolo é uma autobiografia silenciosa”, diz. Entre 1986 e 2019, em sua rotina no MNBA, ela se deparava com os registros de propriedade em guardas de livros (as folhas entre a capa e o miolo). A tradição também ganhou força entre ilustradores. Rebeca Catarina, criadora do perfil Bex Libris no Instagram, conta que já produziu mais de 2 mil ex-líbris personalizados. “Sinto que existe um interesse bem mais amplo pelas etiquetas — pelo valor gráfico e afetivo delas.”
🎧 Podcast
Juliette cresceu acreditando que precisava reparar as faltas vividas pelos quatro irmãos mais velhos, filhos do primeiro casamento do pai, e assumiu desde criança o papel de protegê-los. No “Isso Não É Uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, a cantora conta à psicanalista Vera Iaconelli que encontrou na educação uma forma de mudar essa história. “Estudei muito, porque eles não estudavam. Eu disse: ‘Vou ter que estudar para cuidar deles’”, afirma. Juliette também relembra como os professores se tornaram referência de dignidade e organização familiar, em contraste com a infância marcada pela pobreza, pelo trabalho precoce e pela falta de acesso dos pais à educação formal. Hoje, diz a cantora, ela vive o desafio de deixar para trás o papel de quem cuida de todos para construir a própria família.
✊🏾 Direitos humanos
O Território Quilombola Rampa tornou-se o primeiro do país a conquistar uma autotitulação coletiva e independente, em 2025, depois de mais de 20 anos de espera pela regularização oficial. As comunidades, localizadas entre os municípios de Cantanhede e Várzea Grande, no Maranhão, têm ainda outro marco: criaram a primeira Rádio e TV Quilombo do Brasil, iniciativa que reúne 60 moradores para produzir conteúdos sobre a cultura local, registrar tradições e denunciar violações de direitos. O #Colabora conta que cerca de 286 famílias vivem na área, ocupada desde 1818. “O processo que os nossos ancestrais lutaram para iniciar, a gente está aqui mantendo”, afirma Raimundo Quilombola, comunicador do território. Segundo ele, a TV surgiu porque “não existia um espaço em que a gente pudesse mostrar nossa cultura, nossa realidade (...) e também fazer denúncia das violações de direitos”. O projeto foi premiado em 2018 no Festival de Cinema Móvel de Brasília e, em 2023, reconhecido como um dos veículos de comunicação negra mais admirados do Brasil.



