🔸 O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, pediu sigilosamente à Advocacia-Geral da União que tomasse “as eventuais providências cabíveis” contra uma decisão do ministro André Mendonça, então relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal. O ofício, obtido pela Agência Pública, foi feito em julho, antes do agravamento da crise no STF em setembro. Mendonça havia determinado que a equipe de investigadores fosse mantida e que qualquer troca de integrantes lhe fosse comunicada previamente. Também ordenou o envio ao seu gabinete do material bruto extraído dos aparelhos apreendidos. A PF contestava o que considerava uma interferência na administração da investigação: afirmou que não havia indício de irregularidade em sua atuação e classificou como “desarrazoada” a limitação de suas atribuições. A AGU recusou o pedido. Concluiu que não cabia ao órgão atuar na investigação criminal, que a PF não demonstrou prejuízo concreto causado pela exigência de comunicar mudanças na equipe e que o prazo para contestar restrições anteriores já havia passado.
🔸 Novas mensagens do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro mostram que a pressão de “Dark Horse” por verbas era intensa, revela a CartaCapital. Vorcaro cobrou repetidamente do cunhado Fabiano Zettel a liberação de dinheiro para o filme sobre Jair Bolsonaro (PL). Em 20 de janeiro de 2025, Zettel avisou: “O cara do ‘filme’ não sai da minha cola. Me mandou um fluxo gigante!”. Uma semana depois, Vorcaro percebeu que o repasse não havia sido feito e chamou o pagamento de “o mais importante disparado”: “Não pode falhar mais”. Os dois discutiam qual empresa enviaria os recursos ao exterior. Em 31 de janeiro, após nova cobrança do banqueiro, Zettel respondeu: “Amigo, Não faz assim que me dá dor de barriga. Estamos esperando você definir a empresa…”. As dificuldades para fazer o câmbio persistiram em fevereiro. Vorcaro sugeriu usar a Entre Investimentos e, em 11 de fevereiro, exigiu: “Preciso resolver HOJE. E possível”. Três dias depois, Zettel lhe enviou o comprovante de uma transferência de US$ 2 milhões da Entre para o fundo Havengate, no Texas. A reportagem lembra que mais de R$ 60 milhões foram transferidos por meio do fundo, supostamente para viabilizar o filme.
🔸 O Tribunal Superior Eleitoral abriu uma investigação sobre o uso de publicações em parceria no Instagram por perfis ligados a Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o Notícia Preta, a ação foi apresentada pela coligação de Lula (PT) após um levantamento do jurídico e da área de comunicação do PT identificar 1.826 publicações em colaboração entre 492 perfis. Dessas contas, 74 são oficiais de candidatos ou campanhas. As collabs fazem a mesma publicação aparecer em diferentes perfis. A coligação argumenta que, se coordenadas entre contas oficiais e páginas de apoio, elas podem ampliar a propaganda eleitoral sem seguir as regras de impulsionamento.
🔸 Lula foi o candidato que mais gastou com anúncios no Instagram e no Facebook entre 15 de agosto e 13 de setembro: R$ 2,63 milhões em todo o país. Levantamento do Jota mostra quais candidatos mais gastaram na Meta, tanto na campanha presidencial quanto nos estados. Flávio Bolsonaro gastou R$ 528 mil no mesmo período. O valor mede apenas anúncios pagos nas plataformas da empresa, e não toda a campanha nas redes sociais. O candidato do PL informou à Justiça Eleitoral a existência de 37 perfis online, entre eles a “TV Celular”, uma biblioteca de vídeos curtos para apoiadores compartilharem. Segundo o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, o algoritmo da Meta pode ampliar o alcance de conteúdos de grupos aliados ao bolsonarismo entre usuários interessados em política, mesmo sem impulsionamento.
🔸 A propósito: “A campanha eleitoral em 2026 migrou para as plataformas digitais. E uma campanha majoritariamente online é mesmo mais fria. Diminui o corpo a corpo, reduz o calor das improvisações nos comícios.” Em artigo no The Conversation Brasil, o cientista político Sergio Abranches usa essa hipótese para explicar a pouca movimentação nas ruas às vésperas da eleição. A outra possibilidade, escreve, é que nem Lula nem Flávio Bolsonaro estejam empolgando os eleitores. Nas redes, “o eleitor se pergunta se o que vê nas redes é a realidade ou apenas a seleção dos algoritmos”. Abranches destaca que, na última pesquisa Quaest, 21% dos entrevistados disseram que poderiam mudar de candidato.
📮 Outras histórias
Mato Grosso tem uma taxa de leitos de UTI superior à média nacional, mas, para quem depende do SUS, a oferta fica abaixo dela. Em dezembro de 2025, o estado tinha 904 leitos adultos e coronarianos, o equivalente a 2,32 por 10 mil habitantes, ligeiramente acima da média brasileira de 2,23. Desse total, porém, 357 atendiam ao SUS e 547 à rede suplementar. O Eh Fonte destaca que, para os 3,59 milhões de habitantes sem plano de saúde, havia 0,99 leito por 10 mil pessoas, abaixo da média nacional de 1,30 e a menor taxa do Centro-Oeste. Entre os 303,2 mil beneficiários de planos de saúde, a taxa chegava a 18,04 leitos por 10 mil usuários, ante 6,88 no país. Dudu, nome pelo qual prefere ser chamado um médico intensivista de 37 anos, conta que já presenciou situações em que a falta de leito impediu que um paciente fosse salvo e relata o desgaste do trabalho: “É muito estresse, muita dedicação e muitos problemas. Eu já fiquei afastado por burnout”.
📌 Investigação
A bilionária australiana Gina Rinehart, apoiadora de Donald Trump, é acionista de uma mineradora que pretende explorar terras raras na Bahia. A Brazilian Rare Earths (BRE), por meio de sua subsidiária Borborema, desenvolve o projeto Monte Alto, no Vale do Jiquiriçá. Levantamento do Intercept Brasil mostra que a Bahia lidera as pesquisas por terras raras no país: reúne 1.204 processos minerários ativos, 31% do total nacional. Neste cenário, a BRE responde por 230 requisições que envolvem a mineração de terras raras – 19,1% dos processos ativos na Bahia. Em Monte Alto, moradores relatam pressão para vender suas propriedades. Um manifesto assinado por 104 das 117 famílias da comunidade denuncia abordagens constrangedoras e falta de transparência. A reportagem identificou ainda quatro processos minerários da Borborema sobrepostos à Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, onde a extração é proibida por lei.
🍂 Meio ambiente
A dourada, bagre vendido nos mercados da Amazônia, pode percorrer 11,6 mil km ao longo da vida, na maior migração conhecida de um peixe de água doce. Ela nasce perto dos Andes, desce até a região da foz do Amazonas e, adulta, sobe os rios para se reproduzir. A Carta Amazônia explica que os otólitos, pequenas estruturas na cabeça do peixe que registram elementos químicos da água, permitiram reconstituir esse percurso e identificar o efeito das hidrelétricas. Um estudo liderado pela bióloga Marília Hauser encontrou, no alto rio Madeira, douradas que passaram a viver acima das usinas de Santo Antônio e Jirau, sem completar a rota migratória. As barragens interrompem rotas e alteram as condições dos rios, mas a pesca excessiva também ameaça a espécie. Na região de La Pedrera, na Colômbia, a captura anual de douradas caiu de cerca de 30 mil quilos, em 1984, para 4,6 mil, em 2019. Diante do declínio, seis países amazônicos discutem um plano conjunto para proteger os bagres migratórios.
📙 Cultura
“Eu faço a minha busca de volta para casa principalmente através do artesanato”, diz Laura Lima. Indígena que vive em contexto urbano, ela aprendeu com parentes a escolher e colher sementes para produzir biojoias. Há cerca de dois anos, criou a Urucum Biojóias, que se tornou também sua fonte de renda. O #Colabora mostra como artesãs usam técnicas transmitidas entre gerações e diferentes formas de relação com a natureza. Pacary Pataxó, do sul da Bahia, conta que os artesãos de sua comunidade se sentam em círculo para fazer colares: “Quando a gente faz o nosso artesanato, a gente não faz nada aleatório, a gente faz jogando a nossa energia positiva para aquela arte”. Márcia Ferreira, por sua vez, encontrou nos fios de conta das religiões de matriz africana uma ligação com o uso ancestral de sementes, cascas e ossos. “Eu estou reverenciando aqueles que vieram antes de mim quando trabalho com as biojoias. Mostrando o terreiro, esse lugar que sempre adornou o seu povo com cascas e sementes”, afirma Márcia.
🎧 Podcast
“A dez dias das eleições, a gente tem visto finalmente a campanha do presidente Lula começar a tomar um corpo diferente”, avalia Kamila Fernandes, apresentadora de As Cunhãs, ao lado de Hébely Rebouças e Inês Aparecida. No episódio desta semana, as três avaliam a reta final da campanha do petista para a Presidência. Hébely Rebouças concorda que houve uma mudança de tom, mas acha que a campanha ainda fala pouco dos atos do adversário: “Boa parte da campanha tem que contemplar a agenda negativa contra o adversário”. Inês Aparecida também cobra uma comunicação mais direta. Ao lembrar de entrevista em que Lula pediu às pessoas que pesquisassem o que fez em mandatos anteriores, ela rebate: “As pessoas não vão pesquisar, presidente. [...] Tem que ser dito”. As três discutem ainda se medidas como o reajuste do Bolsa Família terão efeito eleitoral e apontam a pouca presença da campanha de Lula nas ruas.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
A Converse retirou uma campanha com Karina, do grupo de K-pop Aespa, após usuários apontarem possíveis referências à Ku Klux Klan e a linchamentos em duas imagens. Em uma delas, a iluminação sobre a saia da cantora foi comparada a um capuz da organização racista; na outra, a posição dos tênis foi associada aos pés de uma vítima de linchamento. A marca pediu desculpas. O Mundo Negro reúne outros 11 episódios em que empresas retiraram anúncios ou produtos após acusações de racismo. Entre eles estão os bonecos da Prada associados a caricaturas racistas, e a esponja Krespinha, da Bombril, criticada por relacionar cabelo crespo à limpeza pesada. A reportagem destaca a importância de se avaliar imagens e referências históricas antes da publicação, além de construir equipes diversas para a avaliação de campanhas a partir de diferentes perspectivas.



