A fuga de venezuelanos e a cidade que teve prefeito e vereadores presos
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🔸 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alfinetou o republicano Donald Trump em artigo publicado no jornal “The New York Times” ontem com o título: “Este hemisfério pertence a todos nós”. No texto, Lula afirma que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela representa “mais um capítulo lamentável na contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”. A CartaCapital destaca que o presidente brasileiro critica o uso recorrente da força por grandes potências e afirmou que “quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser a exceção e se torna a regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam em risco”.
🔸 A propósito: depois do ataque dos EUA em 3 de janeiro, relatos de fome e falta de trabalho ganharam um novo elemento – o medo de um conflito armado prolongado. Em Roraima, extremo norte do Brasil, o fluxo de migrantes segue constante, com pessoas que viajam até cinco dias de ônibus desde Caracas e outras cidades. A revista piauí acompanha histórias como a de Thairis Rojas, que antecipou a vinda ao Brasil com os filhos após ouvir explosões na capital venezuelana, e de Franklin Cordero, que deixou às pressas Valência, cidade na região central da Venezuela, para não correr o risco de ver a fronteira fechada. Segundo a Unicef, 560 mil venezuelanos entraram no Brasil até junho de 2024, número que tende a crescer diante da nova instabilidade.
🔸 Mais de 1.400 pessoas foram presas injustamente em São Paulo e no Rio de Janeiro entre 2020 e 2024. Elas tiveram as condenações anuladas após pedidos de revisão criminal, mecanismo previsto para corrigir erros judiciais graves. É o que revela levantamento da Repórter Brasil, com base em dados oficiais informados pelos Tribunais de Justiça estaduais. Foram 779 casos em SP e 659 no RJ, além de outras 85 absolvições no RJ apenas entre janeiro e julho de 2025. A reportagem narra a trajetória de Leandro dos Santos, trabalhador da construção civil que enfrentou três tribunais do júri e foi condenado com base em uma confissão obtida sob tortura policial, depois anulada por falhas graves na defesa.
🔸 Na última semana, protestos de usuários do Roblox, plataforma de jogos online, viralizaram. São sobretudo de crianças: o chat da plataforma passou a ser bloqueado para usuários de até 9 anos e quem tem menos de 13 anos agora só pode completar a verificação de idade com a aprovação dos pais. O objetivo, segundo o Roblox, é dificultar a atuação de predadores sexuais. O Núcleo testou o novo mecanismo e mostra que ele é ineficiente. A verificação só é exigida para liberar o chat, não para criar contas nem para acessar jogos. Com uma conta simulada de criança sem verificação, foi possível entrar em servidores com conteúdo inadequado, como armas, avatares sexualizados e comentários sem moderação, além de formas indiretas de comunicação por objetos e mensagens no cenário.
🔸 A cidade de Turilândia, no Maranhão, teve o prefeito e todos os vereadores presos, depois de uma investigação do Ministério Público do estado. O inquérito apura o desvio de R$ 56,3 milhões entre 2021 e 2025 por meio de fraudes em licitações, empresas de fachada, propina e lavagem de dinheiro, sobretudo em contratos da saúde e da assistência social. O Nexo explica o esquema que levou a cidade ao colapso político-administrativo. Segundo o MP, 95% das licitações em Turilândia eram fraudadas e os 11 vereadores, da base e da oposição, teriam recebido R$ 2,3 milhões para aprovar contas e não fiscalizar o Executivo. O prefeito Paulo Curió (União) é apontado como líder do esquema. Em tempo: dez promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Maranhão deixaram seus cargos depois que o procurador-geral deu parecer favorável à soltura dos 21 presos no esquema.
📮 Outras histórias
A Prefeitura de Vitória da Conquista encerrou o apoio à Casa do Estudante Quilombola Dandara dos Palmares, iniciativa criada em 2008 que garantiu moradia e permanência universitária a cerca de 300 jovens quilombolas e indígenas de baixa renda ao longo de quase duas décadas. O Conquista Repórter mostra o impacto da decisão na vida de estudantes como Julianne de Jesus, que saiu de sua cidade natal, Livramento de Nossa Senhora, atraída pela oportunidade da educação superior em Vitória da Conquista, uma das cidades com maior população quilombola do país. “Eu pensei que ia ser acolhida e foi totalmente o contrário, fui abandonada. É assim que me sinto. Ver isso acontecendo me faz refletir sobre como a nossa história é de abandono.” O fechamento, segundo movimentos sociais, ocorreu sem diálogo. “Fechar a primeira Casa do Estudante Quilombola do Brasil, em pleno século 21, é um retrocesso com as pessoas pretas”, afirma a pedagoga Marifátima Silva.
📌 Investigação
Bairros periféricos concentram o maior número de pessoas desaparecidas do município de São Paulo. Ao todo, foram computados 74.026 boletins de ocorrência (B.O.s) entre janeiro de 2015 e julho de 2025. Dos 29 bairros com mais registros, todos estão localizados nas extremidades da capital paulista. A Agência Mural revela, via Lei de Acesso à Informação (LAI), os principais dados de desaparecimentos do município. O Grajaú, na zona sul, lidera o ranking com 1.946 B.O.s no período – uma média de 177 casos por ano. Em seguida, aparecem Brasilândia (zona norte, com 1.538 casos), Cidade Ademar (zona sul, 1.456), Cidade Tiradentes (zona leste, 1.436) e Sapopemba (também na zona leste, com 1.381 registros). Juntos, apenas esses cinco bairros somam 7.757 registros, o equivalente a 10,5% de todos os desaparecimentos registrados na capital. Quanto ao perfil dos desaparecidos, 11.612 casos são de homens entre 26 e 35 anos, seguidos de mulheres adolescentes de 13 a 18 anos (11.416).
🍂 Meio ambiente
“Os principais impactos das mudanças climáticas na saúde das mulheres indígenas estão relacionados à saúde mental, à soberania alimentar, às colheitas, à economia familiar, à violência, entre outros fatores”, afirma Marinete Tukano, coordenadora-geral da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, articulação que reúne lideranças femininas de diferentes povos da Amazônia Legal. A Carta Amazônia mostra como a crise climática tem transformado a rotina de mulheres indígenas da região. São elas que caminham distâncias maiores para buscar água quando os rios baixam e passam mais horas no campo observando as mudanças no território. “Hoje, tudo mudou com o clima. Antes, sabíamos quando plantar, quando mover, quando parir. Agora, nada avisa”, relata Sineida Viveros Garreta, especialista e transformadora de plantas do povo indígena Inga, de Putumayo, na Colômbia.
📙 Cultura
Responsáveis por carregar história, conhecimentos, crenças e valores de um povo, as 295 línguas indígenas registradas no Brasil revelam origens, identidades, religiosidades e saberes da fauna e flora do território. Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no ano passado, elas são mantidas vivas por 433.980 falantes, de 391 povos. A Emerge Mag reúne as características das línguas indígenas mais faladas no Brasil, como Tikuna, Guarani Kaiowá e Guajajara. A primeira é falada pelo povo de mesmo nome, que vive no Alto Solimões, no sudoeste do Amazonas, e é uma língua isolada – não possui parentesco comprovado com nenhuma outra. Já as outras decorrem do tronco linguístico tupi-guarani. O Guarani Kaiowá é uma variante do guarani e é crucial para a identidade e cultura do povo homônimo, que reside no Mato Grosso do Sul e no Paraná. Já o Guajajara possui 29.212 falantes, dos quais 90% residem em terras indígenas.
🎧 Podcast
A limpeza das casas e das cidades nunca foi neutra no Brasil: é um marcador social e racial herdado da escravidão e mantido até hoje na precarização. Entre o trabalho doméstico e a varrição das ruas antes do amanhecer, são mulheres negras, pobres e periféricas que sustentam a higiene da cidade – e permanecem invisibilizadas, desvalorizadas e expostas a jornadas exaustivas, baixos salários e poucos direitos. O “Conversa de Portão”, produção do Nós, Mulheres da Periferia, reflete sobre quando a limpeza deixou de ser uma prática comum para se tornar uma fronteira social, separando quem tem o privilégio de sujar e quem é responsável por limpar.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Ameaçada por um grupo de incels em 2024, a professora de História Janaine Rambow ainda não teve resposta da Justiça. Em janeiro daquele ano, ela recebeu mensagens com ameaças de estupro, fotos de armas, insultos misóginos e lesbofóbicos e planos para matá-la “como fizeram com Marielle”. Além de abrir um boletim de ocorrência numa delegacia em São José (SC), procurou a Diretoria Estadual de Investigações Criminais e a Defensoria Pública. Até hoje, informa o Catarinas, não recebeu qualquer retorno sobre o processo. O caso expõe a falha do Estado em punir a misoginia praticada na internet. “Há instrumentos legais que podem ser acionados, mas eles não dão conta de toda a complexidade da violência de gênero no ambiente digital, justamente porque não existe uma tipificação específica que reconheça essa violência de maneira direta”, afirma Catharina Vilela, coordenadora de pesquisa do InternetLab.




