🔸 Depois da sessão de confrontos que terminou sem decisão no Supremo Tribunal Federal, o presidente Lula (PT) afirmou a aliados que deve procurar o presidente da Corte, Edson Fachin, para discutir uma saída para a crise entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Em conversas reservadas, Lula classificou a sessão desta terça-feira como um “show de cinismo” e um dos dias mais tristes da história da Corte, apurou o Metrópoles. O julgamento sobre a abertura de uma investigação contra Moraes no caso Banco Master foi suspenso após um pedido de vista de Flávio Dino, indicado pelo petista ao tribunal. O presidente também considera conversar com Dino para que devolva o processo rapidamente. Em entrevista a um podcast, Lula cobrou publicamente que Fachin atue para impedir que a crise interfira nas eleições de outubro. “O que não dá é para a sociedade ficar assistindo a esse denuncismo, atônita, ouvindo isso todo santo dia”, afirmou.
🔸 As guerras de ofícios, os vazamentos e as estratégias processuais revelam um STF dividido e pouco comprometido com a própria institucionalidade. A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Nexo. “O Supremo deve ser repensado”, afirma Flávio Leão Barros Pereira, professor de Direito Constitucional da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Para ele, a judicialização da política e as indicações de ministros de Estado, do Poder Executivo, para ministros do Supremo – como André Mendonça, ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PL), Flávio Dino, ministro da Justiça de Lula (PT), e Alexandre de Moraes, ministro da Justiça de Michel Temer (MDB) – permitem desvios.
🔸 O jogo disputado no STF “não era o de juízes seguindo estritamente a lei”, mas uma batalha política atravessada pelas eleições, avalia o advogado e professor Rafael Mafei. Em artigo na revista piauí, ele afirma que a ala favorável a Moraes mostrou-se mais articulada: o ministro confrontou Mendonça, Dino enfrentou Fachin e Gilmar Mendes buscou alterar o rito proposto pela presidência. Fachin não conseguiu conter o embate entre os colegas, e Mendonça saiu enfraquecido pela condução seletiva das investigações, sobretudo após Kassio Nunes Marques se declarar impedido diante de mensagens que levantaram suspeitas sobre seu filho. “Dino foi quem melhor entendeu que o jogo que estava sendo jogado no tribunal não era o de juízes seguindo estritamente a lei, e sim uma disputa orientada, em grande medida, para o campo da política e das eleições que se avizinham”, escreve Mafei.
🔸 A imagem de André Mendonça como um pastor escolhido por Deus para enfrentar um sistema corrompido ultrapassou o bolsonarismo radical e alcançou parte do eleitorado evangélico moderado. A avaliação é de Ronilso Pacheco, mestre em teologia pela Universidade Columbia e diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Em entrevista à Agência Pública, ele afirma que a trajetória do ministro se encaixa em uma narrativa bíblica: um pastor presbiteriano e servidor de carreira que chegou ao STF, foi ridicularizado por orar após a sabatina e agora enfrenta um dos integrantes mais poderosos da Corte. Pacheco afirma que Mendonça começa a ocupar o papel de “herói do Judiciário”, mas de forma diferente de Joaquim Barbosa e Sergio Moro, associados ao combate à corrupção. No caso atual, uma força política tenta transformá-lo no herói de uma disputa pelo controle dos rumos do país. Ao converter procedimentos jurídicos em uma batalha entre o bem e o mal, essa mobilização integra o avanço global do nacionalismo cristão e ameaça a laicidade estatal.
🔸 Falando em ministro do STF… O apartamento onde teria ocorrido um encontro entre Nunes Marques e uma profissional do sexo supostamente paga por Daniel Vorcaro pertencia a uma empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. Levantamento da Alma Preta e do ICL Notícias mostra que o imóvel estava registrado em nome da Super Empreendimentos e Participações. Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro dos esquemas de lavagem de dinheiro do Banco Master, foi diretor da companhia entre 2021 e 2024. Nas conversas, uma mulher identificada como Rayanna informa a Vorcaro, em 28 de fevereiro de 2025, que “as meninas estão prontas”, e recebe dele o endereço do triplex, no Itaim Bibi, em São Paulo. Uma semana depois, ela afirma que uma amiga teria ficado com “Kassio” e cobra o pagamento. O ministro nega o encontro.
📮 Outras histórias
Aracaju é a única capital do Nordeste com apenas uma modalidade de transporte público, embora seja cortada por rios que poderiam complementar os ônibus e aliviar os congestionamentos. Com mais de 620 mil habitantes e uma frota de 374 mil veículos, a cidade ainda mantém a travessia de tototós pelo Rio Sergipe, entre o centro e Barra dos Coqueiros, por R$ 5. A atividade, porém, perdeu passageiros após a inauguração da ponte entre os municípios, em 2006, e enfrenta falta de investimentos nos atracadouros. Em reportagem especial sobre o passado, o presente e as possibilidades futuras do transporte fluvial em Sergipe, a Mangue Jornalismo mostra que as embarcações tiveram papel histórico no desenvolvimento do estado e que pesquisadores defendem sua retomada.
📌 Investigação
No Acre, motos, quadriciclos e veículos usados por políticos em campanha voltaram a circular pelo Ramal do Barbary, no Vale do Juruá, apesar da interdição judicial de parte da estrada. Fotografias, vídeos e áudios foram enviados ao Ministério Público Federal (MPF) por lideranças Jaminawa da aldeia Nova Vida I, que questionaram se o trecho havia sido liberado diante do fluxo registrado. O órgão deu cinco dias para que o governo do Acre informe quais medidas adotará para restabelecer as barreiras físicas. Segundo o Varadouro, a estrada, que pretende ligar Porto Walter a Cruzeiro do Sul, tornou-se promessa de campanha de Tião Bocalom (PSDB), candidato ao governo estadual, e uma das principais bandeiras do deputado federal Zezinho Barbary (PP-AC), mas está embargada desde 2023 por irregularidades ambientais, danos à Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto e ausência de consulta prévia à comunidade.
🍂 Meio ambiente
Esponjas marinhas nativas estão sendo testadas como barreiras biológicas para impedir que espécies invasoras se fixem em portos, marinas e quebra-mares. Essas áreas formam ambientes mais homogêneos do que os naturais, pouco favoráveis a organismos locais – e propícios à colonização por espécies exóticas. Para avaliar se a ocupação prévia do espaço reduz essa vulnerabilidade, pesquisadores instalaram placas com diferentes combinações de esponjas na Marina de Itaparica, na Baía de Todos-os-Santos, além de pontos em Alagoas, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, informa a Eco Nordeste. As placas permaneceram submersas entre fevereiro e agosto deste ano. Segundo Edson Vieira, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), as esponjas crescem rapidamente sobre o substrato e podem dificultar a instalação e a multiplicação de invasores como o coral-mole e o coral-sol.
📙 Cultura
O longa “Feito Pipa”, do diretor cearense Allan Deberton, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. O Notícia Preta conta que o filme foi rodado em Quixadá, no interior do Ceará. Protagonizado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos, o longa acompanha Gugu, um menino negro e queer de 12 anos, apaixonado por futebol e criado pela avó Dilma. Quando a saúde dela piora, ele tenta esconder a situação por medo de ser separado da avó e enviado para viver com o pai, Batista, que tem dificuldade para aceitar sua maneira de ser. Antes da estreia nos cinemas brasileiros, prevista para 5 de novembro, “Feito Pipa” conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na Berlinale, além de prêmios nos festivais de Guadalajara, Cartagena das Índias e Gramado.
🎧 Podcast
A presença da religião no espaço público brasileiro não é uma novidade nem representa, por si só, um problema. A socióloga Christina Vital, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), reconstitui a relação entre religião e política no país, da separação entre Igreja e Estado na Constituição de 1891 à formação da bancada evangélica durante a Constituinte de 1988. Ela é a entrevistada da série especial “Democracia com Direitos”, fruto da parceria do podcast “Direitos Humanos em Ação” com o “Guilhotina”, produção do Le Monde Diplomatique Brasil. Coordenadora do Laboratório de Estudos em Política, Arte e Religião (Lepar/UFF), Christina diferencia extremistas religiosos de conservadores comprometidos com a justiça social e chama a atenção para a diversidade apagada do debate público, que inclui evangélicos críticos e de esquerda.
✊🏾 Direitos humanos
Em Belém, chove em média 218 dias por ano, e famílias que vivem às margens do Igarapé Mata Fome temem perder a casa a cada novo temporal. Uma delas é a da manicure Alessandra Bahia, 43 anos, mãe solo de quatro filhos. Em abril, quando uma das chuvas mais intensas registradas na cidade atingiu 44 mil pessoas, sua palafita no Parque União, zona norte de Belém, ficou sob mais de um metro de água. “Minha filha mais nova é a primeira a se levantar. Ela diz: ‘Mãe, vai encher, bora levantar tudo’. Ela já está no automático, sai catando tudo que tem pelo chão e jogando para cima”, conta Alessandra. O Colabora explica que as inundações têm relação com a ocupação de áreas próximas às bacias hidrográficas, impulsionada pela expulsão de famílias pobres das regiões centrais e por um modelo de urbanização que suprimiu a vegetação. Segundo o Centro Brasileiro de Justiça Climática, as áreas de Belém mais suscetíveis a enchentes praticamente coincidem com aquelas onde se concentram mulheres negras chefes de família. Elas integram um grupo que representa 39% da população da região metropolitana.



