A força da direita nos estados e o policial da 'machosfera' nas redes
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🔸A substituição recente de governadores e prefeitos tende a fortalecer a centro-direita na formação de palanques regionais para a disputa presidencial. A mudança de comando ocorreu em nove estados, no Distrito Federal e em dez capitais do país, com a saída de políticos que devem concorrer às eleições em outubro. O Jota mostra o novo cenário e explica que as alterações indicam prevalência de apoios para Flávio Bolsonaro (PL), mas com boas chances de formação de palanques para o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). Para o presidente Lula (PT), a articulação da base fica mais complexa. Em estados como Espírito Santo, Paraíba e Mato Grosso, as trocas deslocam apoios para a direita ou criam cenários de palanques duplos. Nas capitais, apenas Recife e João Pessoa mantêm alinhamento mais direto com Lula. Nas demais, predomina a oposição, com apoio concentrado em Flávio Bolsonaro.
🔸 Falando em Centrão… O deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP) financiou, com recursos do fundo partidário, uma rede de pelo menos 20 perfis falsos usados para atacar adversários políticos. A Agência Pública revela que as contas eram coordenadas pelo próprio gabinete do parlamentar, que orientava o conteúdo das postagens em um grupo chamado “Guerrilha”. A engrenagem dessa rede operava a partir do litoral catarinense: a reportagem identificou que uma mulher de 27 anos, residente em Balneário Camboriú (SC), foi contratada para gerenciar as contas falsas e postar os comentários sob orientação do gabinete do deputado em Brasília. O governo Lula figurava como alvo preferencial dos ataques. Segundo Walber Agra, advogado especialista em Direito Público, o caso configura “propaganda ilícita”, sujeita a fiscalização e ressarcimento aos cofres públicos.
🔸 O cantor Amado Batista e a montadora chinesa BYD entraram na Lista Suja do Trabalho Escravo. O Ministério do Trabalho e Emprego divulgou na segunda-feira a atualização da lista, que incluiu 169 novos empregadores. A Repórter Brasil conta que Batista foi autuado em duas fiscalizações em Goiás, em atividades ligadas ao cultivo de milho. Em uma propriedade rural do cantor e em outra arrendada por ele, 14 trabalhadores estavam submetidos a condições análogas à escravidão. Já a BYD foi responsabilizada por submeter 163 trabalhadores chineses a condições degradantes na construção de uma fábrica em Camaçari (BA), com jornadas de até 70 horas semanais e alojamentos precários.
🔸 Enquanto ampliam gastos com policiamento e armamento, governos estaduais destinam valores ínfimos às pessoas privadas de liberdade – em alguns casos, inferiores a R$ 1 por detento. Os dados do dossiê “A Morte Veste Farda, da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial” mostram que a prioridade orçamentária recai sobre ações punitivas, em detrimento da saúde e da ressocialização. A CartaCapital detalha o levantamento que analisa São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. No Rio, são R$ 19,1 bilhões para as polícias e apenas R$ 51 mil para saúde de presos. Já em São Paulo, maior sistema prisional do país, o contraste chega a R$ 21 bilhões para policiamento e cerca de R$ 160 mil para assistência médica no sistema prisional. A lógica se repete no Legislativo, com a predominância de projetos voltados à expansão do aparato policial e ao uso de tecnologias de vigilância.
📮 Outras histórias
Pequenos produtores rurais de Foz do Iguaçu, no Paraná, enfrentam dificuldades estruturais que limitam seu crescimento, desde a falta de crédito e apoio público a questões de infraestrutura e espaços de comercialização. Segundo o H2Foz, os agricultores relatam obstáculos no escoamento da produção e a dependência de programas como a merenda escolar, além da escassez de feiras adequadas. “Nós somos movidos pela paixão”, afirma a agricultora Luci Andreghetti dos Santos, ao descrever o esforço diário dos produtores. O acesso ao crédito é restrito – apenas 8% conseguem financiamento. “A agricultura aqui é pobre, não há assistência”, diz a produtora rural Lucivânia Félix de Melo.
📌 Investigação
Influenciador da “machosfera”, o policial Breno Vieira Faria acumula mais de 2 milhões de seguidores com o projeto “Café com Teu Pai” nas redes sociais, em que frequentemente reforça estereótipos de gênero. Em um podcast, Faria afirmou ganhar dinheiro com patrocínios e com a venda de cursos, o que contraria as leis e normas da Polícia Rodoviária Federal, segundo as quais os membros da instituição estão proibidos de praticar atividades de comércio e de se dedicarem a outras carreiras. O Núcleo destaca que o influenciador não tem formação em Psicologia, mas oferece em suas aulas produtos como “plano emocional que você aplica em até sete dias para virar a chave do padrão”. Na área de pagamento dos cursos, é informado que a compra é de responsabilidade da empresa Vieira & Lenert Marketing Digital Ltda., da qual Faria é sócio.
🍂 Meio ambiente
No 22º Acampamento Terra Livre, milhares de indígenas marcharam em direção ao Congresso para denunciar propostas legislativas que atacam seus territórios e seus modos de vida, como a tese do Marco Temporal, a suspensão de demarcação territorial, a mineração dentro das terras indígenas e o novo licenciamento ambiental. O #Colabora conta como foi a marcha, sob o lema “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”. “Estamos diante de uma ofensiva articulada para desmontar direitos garantidos pela Constituição. O Congresso avança para transformar nossos territórios em mercadoria e impor um modelo que ignora nossa história, nossos direitos e o papel dos povos indígenas na proteção da vida e do clima”, afirmou Dinamam Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). A programação do acampamento segue até sábado, e há outra marcha prevista para amanhã, com o tema “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”.
📙 Cultura
O Festival de Curitiba chegou à 34ª edição com a proposta de extrapolar os palcos para se tornar uma iniciativa que integra circulação cultural e experiência urbana. “Ao longo de sua trajetória, o festival foi se expandindo de maneira muito orgânica, acompanhando não apenas as transformações da própria cena teatral, mas também as mudanças na forma como o público se relaciona com a cultura e com a cidade”, afirma a diretora Fabíula Passini. A Escotilha mostra como o evento, que abrange a Mostra Lúcia Camargo, a Mostra Surda, o Gastronomix e outras iniciativas, pretende deixar um legado para o setor cultural de Curitiba. “Na curadoria, buscamos garantir diversidade de linguagens, estéticas, origens e trajetórias, abrindo espaço tanto para artistas consagrados quanto para novos criadores, companhias independentes e produções de diferentes regiões do país”, diz Passini.
🎧 Podcast
“A primeira palavra que me vem à cabeça quando penso na minha família é finitude”, afirma Déia Freitas, criadora e apresentadora do “Não Inviabilize”, um dos podcasts mais ouvidos do país. Com a morte precoce dos pais, ela aprendeu cedo a lidar com o luto e com a finitude, além da necessidade de construir sua rede de apoio – formada sobretudo por mulheres. No “Isso Não É Uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, Déia revisita sua própria história, marcada por situações de vulnerabilidade social enquanto mulher negra periférica, e narra sua ascensão social e sua recusa ao modelo tradicional de casamento e maternidade. Conhecida por seu senso de humor, a podcaster o define como o “humor de velório” de sua família, em que as perdas eram tratadas com um alívio cômico como forma de lidar com o luto.
👩🏽🏫 Educação
Mesmo mais qualificados, profissionais negros são subrepresentados em cargos de gestão nas escolas públicas. É o que revela pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Todas as pessoas coordenadoras pedagógicas autodeclaradas negras entrevistadas pelo estudo no estado possuem títulos de mestrado ou doutorado, enquanto a maioria das pessoas brancas ocupa o mesmo cargo com formação em nível de especialização. Mesmo assim, as pessoas negras representam apenas 18,2% das funções de gestão, e as pessoas brancas, 59,1%. A Revista Afirmativa reúne os principais dados da pesquisa e explica que a coordenação pedagógica ocupa papel central no funcionamento das escolas, incluindo o comprometimento com a implementação da Educação das Relações Étnico-Raciais. O levantamento indica ainda uma “cegueira racial” no ambiente escolar: quase um terço dos entrevistados não acredita que o racismo contribui para a evasão escolar, e 18,1% afirmam que o problema não está presente no currículo ou nas práticas pedagógicas.




