A fiscalização das fintechs e as mortes de pessoas em situação de rua
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🔸 “A partir de amanhã, as fintechs terão o tratamento de banco. Elas terão que prestar os mesmos esclarecimentos sobre movimentação financeira, sobretudo essas completamente inusuais. E a partir daí, nós vamos poder destrinchar outros esquemas de lavagem de dinheiro com muito mais rapidez”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ontem, após coletiva de imprensa no Ministério da Justiça. O Jota detalha que a Receita Federal fará uma reedição de uma instrução normativa de 2024 que exige que instituições financeiras e fintechs reportem informações sobre operações financeiras. A decisão acontece depois da megaoperação realizada ontem pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público de São Paulo. Segundo as investigações, fundos de investimento no valor de R$ 30 bilhões eram usados para blindar patrimônio. O esquema estaria sob comando de integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e chegou até a Faria Lima, centro financeiro do país. Entre os investigados, estão o grupo Aster, a Reag Investimentos e o BK Bank.
🔸 A propósito: as notícias falsas foram essenciais para impedir que o governo avançasse na fiscalização das fintechs e instituições financeiras. A normativa a ser reeditada hoje foi alvo de uma campanha de desinformação em janeiro, em que foram divulgados conteúdos afirmando que o Pix seria taxado. “O que aconteceu em janeiro todos nós sabemos. A Receita Federal recebeu o maior ataque da história dela, de mentiras, de fake news, dizendo mentirosamente que aquela instrução normativa tratava de tributação de meios de pagamento”, disse Robinson Barreirinhas, secretário do órgão. O Terra reúne os principais pontos da entrevista coletiva na qual associou a falta de fiscalização dessas organizações ao lucro e à movimentação financeira do PCC.
🔸 Para relembrar: o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) viralizou nas redes sociais com um vídeo em que insinua que o governo poderia taxar o Pix após a normativa da Receita Federal. A gravação – que atingiu quase 300 milhões de visualizações em dois dias – alimentou a disseminação da desinformação e levou o governo a voltar atrás e cancelar o texto que obrigava instituições financeiras a informar movimentações acima de R$ 5 mil mensais. Na época, o Aos Fatos analisou o vídeo do parlamentar e como uma possível mudança nos algoritmos da Meta pode ter impulsionado o alcance do conteúdo.
🔸 De olho nas eleições de 2026, o presidente Lula (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disputam os holofotes das três operações simultâneas relacionadas aos esquemas bilionários de fraudes e lavagem de dinheiro. Segundo o Metrópoles, além de os dois serem possíveis concorrentes para a Presidência, Haddad, que é cotado para disputar o governo paulista ou o Senado pelo estado, apareceu nas coletivas do Ministério da Justiça. A pasta é responsável pela Polícia Federal, que está comandando as operações Quasar e Tank sobre o tema. Já pelo lado de Tarcísio, o secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, além de ser cotado para concorrer a uma das duas cadeiras do Senado, também aparece como um possível candidato ao governo de São Paulo caso Tarcísio realmente concorra à Presidência. Derrite também apareceu na coletiva do Ministério Público de São Paulo sobre a operação liderada pelo órgão.
📮 Outras histórias
Aos 90 anos, Manoel Freires lançou seu terceiro livro, intitulado “O Mundo Terra, A Natureza e O Homem”, na segunda edição do Festival Artístico e Literário de Poções, em julho. Natural da Zona Rural do município de Boa Nova (BA), ao longo de toda sua vida ele teve o desejo de criar histórias, universos e personagens, mas apenas quando ultrapassou os 60 anos que as obras se concretizaram. O Site Coreto narra a trajetória de Manoel, cujas inspirações são Castro Alves, Machado de Assis e Olavo Bilac. Além da paixão pela literatura, ele foi também um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Poções, em 1979. “Na época existia uma grande produção agrícola na região, mas às vezes plantava e perdia a lavoura. Outro problema era o escoamento da produção com a falta de meios de transportes. A gente lutou muito por isso, até para conseguir um atendimento médico melhor para o pessoal da zona rural. Arrumamos o médico e pagamos particularmente para atender o pessoal associado, e com isso o sindicato foi crescendo”, relata Manoel.
📌 Investigação
A maioria das capitais brasileiras omite o registro de mortes de pessoas em situação de rua – apenas seis das 27 divulgaram dados oficiais sobre o tema. A Ponte obteve, via Lei de Acesso à Informação (LAI), dados referentes ao período entre 2019 a 2024, e mostra que a ausência de registros é um sintoma da invisibilização institucional que penaliza os mais vulneráveis nos contextos urbanos. O número de pessoas que vivem em situação de rua no Brasil aumentou cerca de 25% em um ano: em dezembro de 2023, eram 261.653 pessoas; já no fim de 2024, foram registradas 327.925. “O que não é visto, não existe para o poder público. A falta desses dados implica exatamente no vazio de políticas públicas e na inexistência de ações mais efetivas”, afirma Caio Moraes Reis, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).
🍂 Meio ambiente
“O data center nós não aceitamos, não houve consulta prévia, livre e informada respeitando nossos protocolos”, afirma o cacique Roberto Anacé. Movimentos sociais e lideranças do povo Anacé protocolaram uma representação junto ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Estado do Ceará solicitando a suspensão da licença ambiental para a construção de um data center em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. O Eco Nordeste ressalta que o projeto – que visa o processamento e armazenamento de dados em larga escala – foi autorizado com base em um Relatório Ambiental Simplificado (RAS), sem a realização de um Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA). Segundo as lideranças, isso compromete a análise dos impactos ambientais e sociais da obra. A mobilização representa a primeira ação de povos indígenas e organizações sociais brasileiras contra a instalação de um data center de grande porte.
📙 Cultura
O escritor que cresceu distante dos livros, Jorge Augusto, venceu o Prêmio Jabuti Acadêmico em 2025, reafirmando a literatura como um território de resistência. Em entrevista ao Conquista Repórter, o professor e autor de “Modernismo Negro” afirma que “é uma violência querer fazer do negro e do indígena um outro ser apartado da nação”. Nascido na periferia de Salvador, sua obra revisita o modernismo brasileiro a partir das experiências periféricas e dialoga com Lima Barreto, com objetivo de superar invisibilidades. Com carreira consolidada em instituições como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), é também autor das obras “Muvuca”, “O Mapa de Casa” e “Contemporaneidades Periféricas”. Em sua escrita, reflete criticamente sobre o apagamento da produção nordestina nos grandes centros literários: “Se nem um prêmio rompe com essa barreira, o que vai romper?”, questiona. Jorge defende o papel da educação antirracista como ferramenta essencial para repensar o modelo de sociedade no Brasil.
🎧 Podcast
Revisitar a pandemia é encarar uma história dolorosa que muitos preferem esquecer. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, mostra como, cinco anos depois, a desinformação científica se profissionalizou e políticos responsáveis por crimes de saúde pública seguem impunes. A assistente social de Porto Alegre, Paola Falceta, relembra a perda da mãe de 89 anos, que contraiu Covid-19 durante um tratamento hospitalar. O falecimento ocorreu em 2021, no mesmo período em que as vacinas começaram a chegar ao Brasil, em meio ao atraso do governo na imunização. “Minha mãe estava no isolamento quando meu pai foi vacinado com a primeira dose. E meu pai tinha um ano a mais que ela”, conta. A dor e a indignação levaram Paola a fundar, em abril do mesmo ano, a Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (AVICO), que luta por memória, justiça e responsabilização.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Espaço de geração de renda e fortalecimento comunitário, as feiras livres desempenham um papel vital nas periferias de São Paulo. São mais de mil feiras na capital, gerando 70 mil empregos diretos. O Desenrola e Não Me Enrola conta que, para muitos feirantes, a rotina vai além da comercialização de produtos e representa também um espaço de troca cultural, solidariedade e construção de identidade coletiva. “Eu amo essa profissão. Já tentei sair, mas não consigo, me apeguei. Meu filho de 15 anos também trabalha na feira... Ver meu filho na mesma profissão me traz o sentimento de que estou ensinando a ele o caminho certo”, relata Charles Alves, feirante desde os 13 anos. Para ele, a profissão traz experiências contínuas de aprendizado e conhecimento por meio da troca com as pessoas.